16.4.14

Resenha: Orlando

Orlando, escrito por Virginia Woolf.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 334
ISBN: 9788563560841
Exemplar cedido pela editora em parceria com o blog.
Nascido no seio de uma família de boa posição em plena Inglaterra elisabetana, Orlando acorda com um corpo feminino durante uma viagem à Turquia. Como é dotado de imortalidade, sua trajetória então atravessa mais de três séculos, ultrapassando as fronteiras físicas e emocionais entre os gêneros masculino e feminino. Suas ambiguidades, temores, esperanças, reflexões - tudo é observado com inteligência e sensibilidade nesta narrativa que, publicada originalmente em 1928, permanece como uma das mais fecundas discussões sobre a sexualidade humana.
A um só tempo cômico e lírico, Orlando mostra o trajeto do personagem entre embates com armas brancas, acalorados debates filosóficos no século XVIII, a maternidade e até mesmo num volante a bordo de um automóvel. Tudo isso vem costurado pela prosa luminosa de Woolf nesta que é uma das grandes declarações de amor da literatura ocidental.
Esta edição inclui introdução e notas de Sandra Gilbert, especialista em estudos de gênero e literatura inglesa, e uma brilhante crônica-ensaio de Paulo Mendes Campos, um dos grandes leitores brasileiros da obra de Virginia Woolf.

   


Sobre o que se trata?

Orlando nasceu homem na Inglaterra do século XVI no berço de uma família aristocrática de muitas posses. A obra começa a narrar a trajetória desse personagem quando, aos dezesseis anos, ele fascina a rainha Elizabeth e passa a ser seu protegido. A partir de então, são narrados episódios esparsos da vida dele, como a vez em que se apaixonou por uma princesa russa (sua primeira e grande decepção amorosa), em que se tornou embaixador na Turquia, na qual conviveu com ciganos ou quem sabe quando queimou suas mais de vinte obras literárias. 

Para nós é suficiente constatar o simples fato: Orlando foi homem até os trinta anos; nessa ocasião tornou-se mulher e assim permaneceu daí por diante.

Porém, dentre todos os acontecimentos de sua vida, o mais marcante acontece quando Orlando possui trinta anos de idade: depois de uma semana dormindo sem responder a qualquer estímulo externo, ele acorda... sendo ela. De homem, Orlando se torna mulher. Da forma mais natural e espontânea possível, o pronome muda e, com isso, toda a exigência de uma sociedade sobre a personagem. Ela, porém, não percebe o gigantismo desta diferença. 

Apesar de diferentes, os sexos se misturam. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro, e frequentemente são apenas as roupas que sustentam a aparência masculina ou feminina (...) (p.179)

Escrita como presente para a amiga Vita Sackville-West, com quem Virginia teve um relacionamento amoroso, a obra aborda mais do que a simples fantasia de uma mudança de gênero. Orlando é Vita, Vita é Orlando; a mudança ocorre aqui para explicitar uma personalidade marcante e especial para a autora. 

Portanto, deixa-se de lado o "porquê" e o "como" sobre a transformação, para submergir o leitor numa imensidão de temas profundos e extensos: a durabilidade do tempo (e de uma vida), a literatura, a escrita, os estigmas de uma sociedade, a androginia, a homossexualidade. Orlando é, acima de qualquer gênero fantasioso, um mergulho enriquecedor num mar repleto de questões críticas.

Minhas impressões

Virginia Woolf é, antes de mais nada, uma poetisa para mim. O livro é escrito em prosa, porém a escrita da autora é tão peculiar e excepcional, tão bonita e marcante, que acaba se tornando poética. Digo isso porque é o segundo livro dela que leio (o primeiro foi Mrs. Dalloway), e senti a mesma coisa nos dois: como se estivesse diante da melhor escrita que presenciei até o momento. E, realmente, a escrita dela é única e incomparável, a melhor que já experienciei até o momento. Ela consegue proporcionar ao leitor a sensação de uma conversa íntima, e para transmitir as mensagens que há por detrás do livro, essa característica se torna uma carta na manga da maior categoria.

Porém, o livro possui algumas partes que são longas e cansativas. Por isso a obra não ganhou nota dez. Mesmo a escrita sendo incrivelmente boa, há partes que considerei repetitivas, o que tornou a leitura um pouco maçante para mim.

Além dos temas abordados pelo livro (que são o motivo de eu o ter marcado tanto - apenas 30 passagens quotadas rs), um dos pontos mais bacanas são os momentos históricos representados ao longo da vida de Orlando, que possui 16 anos no final do século XVI, porém 36 depois de mais de trezentos anos, em 1928, quando o livro termina. Eu amo história, e creio que seja um atrativo a mais. 

Uma característica interessante aqui é que o narrador se apresenta como o biógrafo de Orlando, inclusive conversando com o leitor. Fica clara, portanto, a intenção de atribuir ao personagem a personalidade de Vita, visto que se trata de um presente.

Deles se pode dizer com justiça que viveram precisamente os sessenta e oito ou setenta e dois anos registrados na lápide. Dos demais, alguns sabemos estarem mortos embora circulem em nosso meio; alguns não nasceram ainda, embora admitam ter apenas trista e seis. A verdadeira duração da vida de uma pessoa, (...), é sempre discutível. Pois esse negócio de marcar o tempo é algo bem difícil (...) (p.267)
Nenhuma paixão é mais potente no peito do homem que o desejo de fazer os outros acreditarem no que ele crê. (p.150)
Pois, para Orlando, no estado em que então se encontrava, a glória de alguém que havia escrito e publicado um livro ofuscava todas as glórias do sangue e da posição social (p.100)

Ainda, creio que seja um livro muito bom para se iniciar a leitura do mundo de Virginia Woolf. Li primeiro Mrs. Dalloway, porém leria Orlando primeiro, pois a história é mais fluida e a escrita mais tranquila de ser lida como uma primeira vez. 

Este é um clássico que, com certeza, marcará o leitor como uma experiência única e gratificante. Indico para quem gosta do gênero, de poesia, de livros com temas densos e reflexivos e, claro, da autora.

10 comentários:

  1. Mônica Sperandio17 de abril de 2014 03:37

    Mel, quanto tempo! Vou me atualizar nos posts! Gostei muito da sua resenha, nunca li nada da Virginia e achei esse tema do livro super original e diferente :D
    Beijos
    http://www.gemeasescritoras.com/

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  2. [escrevi um coment, deu bug, haha, segunda tentativa]

    Só repetindo o que eu já disse quando vc postou os quotes e o vídeo da resenha. Estou intrigada com esse livro, tem tudo para ser ótimo!

    Aliás, uma das minhas próximas leituras é por recomendação sua. Comprei Um Estudo em Vermelho do Sir Arthur, e espero ler esse mês ainda! *.*

    Beijão

    Arrastando as Alpargatas

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  3. Mell,


    Que livro interessante! Fiquei com muita vontade de ler e entender o que se passa nesse livro. Fiquei pensando como seria narrar uma história tão diferente como essa, cheia de significados e interpretações diferentes.


    Conheço a Virginia Woolf só de nome, nunca li nada dela. Talvez esse seja um bom livro para começar. Apesar de algumas passagens maçantes, como você citou, acho que vale a pena por ser tão interessante.


    Beijos,


    Mari

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  4. Orlando foi escrito pq Virginia Woolf queria tirar "umas férias" mentais, após concluir um outro trabalho que ela considerou pesado demais (Ao Farol).
    Orlando ela escreveu como uma brincadeira, um passatempo e a maravilha que este livro é...e toda complexidade da história!!! <3 Amo muito essa mulher. Incomparável, única! :)
    Bjos e parabéns pela resenha, pela leitura! :)

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  5. Esse foi o livro que me fez apaixonar por Virginia Woolf. Eu li há uns 7 anos atrás e gostaria muito de reler. Acho incrível a narrativa passar pelo tempo e a mudança de gênero do personagem. O tema desse livro nos dá muito a pensar.

    Beijos,
    Nereida
    agua-marinha.net

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  6. Sério? O primeiro dela que li foi Mrs Dalloway, o suficiente para me cativar ;)
    Reler acho que é fundamental para as obras da autora, viu? Espero conseguir reler Dalloway em breve.
    E os temas abordados em Orlando são realmente ricos! Adorei isso :)
    Beijos, e obrigada pela presença.

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  7. Éé, eu li sobre isso no prefácio mesmo. Achei bacana, ainda mais por se tratar de um presente, algo que foi prazeroso para ela e especial, também.
    Eu acho tão linda sua paixão pela autora! Obrigada por me indicar (mesmo que indiretamente) a leitura, Fran!
    Beijão!

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  8. Fico imaginando como seria escrever, também. Que cabeça genial a da autora, viu?
    Também acho que vale a pena apesar das passagens maçantes. Talvez não seja para você :) Leia, sim, Virginia é uma experiência única, realmente cativante.


    Beijão!

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  9. ODEIO quando dá bug em comentários :( Dá um desânimo, né? :(


    Leia ele, leia Virginia. A experiência é única ;) Acho que você iria gostar.
    Espero que goste de Sherlock. Depois me conta o que achou?


    Beijão

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  10. O tema é bem diferente mesmo, Mô, ainda mais para a época da autora.

    Obrigada pela presença, adoro seus comentários <3



    Beijo!

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