27.4.14

Resenha: As sombras de Longbourn

As sombras de Longbourn, escrito por Jo Baker.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 450
ISBN: 9788535923964
Exemplar cedido em parceria com a editora.
Admiradora de Jane Austen, a romancista Jo Baker perguntava-se quem seriam aquelas presenças pontuais e quase inumanas que serviam à mesa ou entregavam um recado para os personagens de Orgulho e preconceito, um dos romances mais recontados em versões literárias desde a sua publicação, há duzentos anos. Por trás de cada descrição da toalete das irmãs Bennet havia certamente o trabalho de uma criada, e cada refeição servida implicava uma cozinheira, um mordomo para servi-la. Qual seria a história não contada desses personagens? “As Sombras de Longbourn” é o romance dessas figuras invisíveis. Sob o comando da governanta e cozinheira sra. Hill, trabalham Sarah e Polly, duas jovens trazidas de um orfanato quando ainda eram crianças para trabalhar na casa. O mordomo idoso, sr. Hill, serve à mesa e divide a administração da casa com a sra. Hill. Os quatro formam um pequeno exército de empregados que labuta dezoito horas por dia para que a família Bennet goze do máximo conforto possível. A chegada de James Smith, um jovem lacaio recém-contratado, irá movimentar o andar de baixo da casa, revelando antigas tensões entre empregados e patrões. 


Sobre o que se trata?

As sombras de Longbourn apresenta para o leitor os bastidores do que ocorre em Orgulho e Preconceito. Descrita como a outra metade do clássico escrito por Austen, a obra de Jo Baker narra cuidadosamente o ambiente dos criados da casa dos Bennet, bem como a vida deles e a rotina de trabalho pesado que levavam. Mais do que isso, Jo cria uma história única e cativante que ganha vida própria e se liberta de seu ponto de partida.

Sarah é a criada mais velha das duas que servem a família Bennet, além da governanta/cozinheira e do mordomo, o sr e a sra Hill. Apesar de órfã, ela ainda se lembra de sua antiga vida, ao contrário de Polly, a criada mais nova, que, por não possuir a experiência amorosa de pais biológicos, não almeja uma vida mais digna como Sarah. Esta, repleta de machucados e cansaço, não consegue se contentar plenamente com a segurança que o seu trabalho representa para alguém como ela: ela conhece o amor, ela o reconhece nas relações de seus senhores e, portanto, sente a necessidade de revivê-lo; ela sente falta de ser notada, de ser amada. Mesmo bem alimentada e afastada dos perigos pelos quais uma mulher sozinha poderia passar no início do século XIX, Sarah não é feliz em Longbourn.

A felicidade era uma possibilidade para Sarah. Ela fazia uma boa ideia daquilo que lhe faltava. (p.81)

Porém, a monotonia de seus dias de trabalho árduo se desfaz com a chegada de um novo membro à criadagem: James, um homem misterioso, torna-se o novo lacaio da família. Bem como com a chegada dos Bingley à região. Enquanto aquele desperta curiosidade - e algo mais - em Sarah e fascínio na sra Bennet, que agora possui um lacaio homem (algo positivo na sociedade da época), este gera grandes expectativas para os senhores e, principalmente, para Jane, a filha mais velha deles.

Até chegarem ao choque de um ponto final: ela a amava. (p. 202)

Dividido em três partes, As sombras de Longbourn acompanha o ritmo de acontecimentos de Orgulho e Preconceito, sendo bem fiel quanto à linearidade e aos acontecimentos. Porém, o que antes estava preso a algo preestabelecido passa a desatar os nós e a trilhar o seu próprio caminho: a história se desenvolve até que, na terceira parte, se desvincula da outra.

Minhas impressões

A característica que mais chama a atenção neste livro é, sem dúvidas, a abordagem peculiar da autora em relação a uma época predominantemente marcada por livros que a retratam da porta da frente. Digo isso porque é sempre bom quebrar a expectativa e submergir num questionamento mais denso. Porque, de fato, a leitura desse livro incomoda o leitor. Incomoda no sentido de despertar um sentimento de injustiça e de desesperança. A antítese é exposta aqui de forma impactante, principalmente para aqueles que já leram Orgulho e Preconceito e podem comparar o estilo de vida dos personagens de ambas as obras. Pela porta detrás, a autora relata a vida dos criados e a relação deles com os seus patrões. De forma ácida, a crítica é inserida em meio a um romance que envolve até a última página.

"Para as pessoas procederem de forma respeitável", respondeu ela, "elas devem ser tratadas com respeito. É assim que eu vejo. Nós nos formamos pouco a pouco, juntando fragmentos e pedacinhos de coisas que vêm dar em nós." (p. 393)

Quem não leu Orgulho e Preconceito irá gostar da história da mesma forma, já que a mensagem crítica da autora insere-se de forma completa dentro de sua narrativa. Não se engane por se tratar de uma obra baseada noutra: este livro possui começo, meio e fim, com explicações e pontas atadas. Nada é em vão, tudo possui um porquê. Até as descrições e as partes mais arrastadas.

Muitas pessoas já me disseram que acharam o filme/livro Orgulho e Preconceito lento e monótono, e não julgo quem concorda com isso. Porém, acho que a proposta de um livro que narra vidas e relações comuns, sobretudo do início do século XIX, não seja a de conter reviravoltas e a de desencadear aventuras. Pelo contrário, é um livro que se preocupa com a retratação de uma época diferente da nossa, de costumes e culturas próprias que beiram, sim, a monotonia. Inclusive, a própria personagem se incomoda com isso. Em duas partes senti que a narrativa se alongava, mas percebo que ambas foram necessárias para o desenvolvimento do livro. Eu já estava totalmente envolvida na história de Sarah, então as superei rapidamente.

Apesar de possuir algumas palavras pouco conhecidas, a escrita é fluida e própria, se distanciando da de Jane Austen. Cada início de capítulo possui uma passagem retirada de Orgulho e Preconceito, e isso marca o paralelismo entre as obras.

Os personagens criados por Jo são bem construídos e trabalhados, sobretudo quanto ao psicológico. Os de Orgulho e Preconceito, principalmente as filhas e os senhores Bennet, já que prevalecem no ambiente do livro, são caracterizados aqui pela mesquinhez e pela indiferença que marcavam as relações entre a criadagem e a aristocracia/nobreza. Se antes eu adorava Jane e Elizabeth, já não posso dizer mais o mesmo: Austen me iludiu com sorrisos, romances e musselina. Aqui, morreu o meu amor por Mr. Darcy. A sobriedade de Jo bateu à porta - à porta detrás. Portanto, o livro abarca análises sociais cáusticas.

Já o romance que surge aqui é tocante e belíssimo, pois a autora soube entrelaçar a vida dos personagens muito bem, bem como construir o que cada um vivencia de forma emocionante. Apesar de não haver suspiros como ocorreu entre Darcy e Elizabeth, aqui há uma relação sólida e comovente, pela qual torci desde o princípio.

E como já disse no início do post, há uma frase na contra-capa do livro que dia "Orgulho e Preconceito é só a metade da história". E devo dizer que discordo dessa frase. Extraí muito mais de As sombras de Longbourn do que do clássico de Austen, por incrível que pareça (deixemos que nossos narizes desempinem um pouquinho, por favor). Portanto, As sombras de Longbourn é mais do que apenas metade de uma outra obra.

17 comentários:

  1. Monique L A Batista27 de abril de 2014 08:51

    Vi esse livro há uma semana numa livraria aqui perto de casa e ele meio que me conquistou pelas referências, na capa, a Orgulho e Preconceito e Downton Abbey ao mesmo tempo. Não sou super fã de Orgulho e Preconceito, nunca caí de amores por Mr. Darcy... e a parte de Downton Abbey (não sei se você acompanha, hehe) dedicada aos criados me é muito mais interessante do que o que se refere à família e tal; acho que tenho tudo pra gostar dessa leitura!

    ResponderExcluir
  2. Achei essa proposta do livro bem interessante, adoro Jane Austen então mergulhei na leitura. Ainda não terminei, mas foi bom ver uma resenha positiva aqui. Acho que vai ser legal. E sobre o que você falou da Jane no final, me lembra de outras escritoras de romances de época que são da *nossa época* e nos ajudam a entender melhor a sociedade retratada no livro por conta da facilidade na escrita. Adoro Julia Quinn por exemplo. :)

    Beijo!!!

    Raquel
    www.pipocamusical.com.br

    ResponderExcluir
  3. Austen pode ter nos conquistado num primeiro momento - que durou mais de 200 anos - mas tbm senti isso, de ela ter nos iludido "com sorrisos, romances e musselina". Tbm não sei dizer quem é Darcy por todo o livro e qnd cheguei a gostar mais de Lydia do que Lizzie, realmente me assustei. Tbm discordo da frase destacada, acho que não é nem metade e fiquei muito feliz que Jo teve uma garra tamanha para nos contar, ainda mais pela maneira que o fez..
    Tive certo receio de como o livro seria recebido, mas do que tenho visto das resenhas, temos até então batido as impressões :) Fiquei realmente encantada *------*
    @kleriss

    ResponderExcluir
  4. Eu nem vou ler sua resenha pq vi o seu vídeo, mas chamar no vídeo o Darcy de lixo é de lascar ein? rs só pq ele era rico? Ou vc é comunista que acha que todo capitalista com mais bens são um lixo então? Desculpe, mas vc foi tão infeliz no seu comentário, nem a Lizzie é um lixo....e este livro, é a visão da escritora não sei se vc sabe, aquilo não aconteceu....rs ela não estava nos bastidores enquanto a Jane Austen escrevia o livro.....

    ResponderExcluir
  5. haha Obrigada por não ler a resenha! ;)
    E respeito a sua opinião, sério mesmo. Mas assim como você sugeriu ao dizer que sou comunista e generalizei tudo, você também está fazendo o mesmo comigo, percebe? ;)
    Não sou comunista, pelo contrário, abomino pessoas extremistas, tanto de esquerda, quanto de direita. Disse o que disse baseada na personalidade dele em Orgulho e Preconceito, e depois de enxergar a realidade por detrás do romance ali pura e simplesmente exposto.
    Talvez por você amar a história e os personagens o impacto tenha sido maior. O retrato dos personagens em ambos os livros dizem respeito a uma sociedade marcada por diferenças sociais gritantes. Você leu As sombras de Longbourn? Darcy era presunçoso e preconceituoso, assim como Lizzie, e isso é bem óbvio em Orgulho e preconceito, tanto é que há crítica no clássico também. Jo Baker estudou bastante sobre a autora e o livro, inclusive ela própria é grande fã, então ela não escreveu o livro sem ter base para tal. As críticas expostas ali são bem estruturadas e possuem argumentos históricos factuais. O que posso concordar contigo é quanto ao personagem como entidade própria, não como uma tipificação social. Mas aí é cair no modo fã de ser e ignorar o mundo real, onde as pessoas possuem defeitos, sobretudo defeitos marcados por sua cultura, por sua educação. Se permite dizer, já que me disse o mesmo, você também foi infeliz no seu comentário ao tapar os olhos. No vídeo resenha, que você disse ter visto, eu disse que romances históricos só pelo romance não me agradam. E aqui é isso: você defendendo o romance histórico por si só e eu enxergando a crítica. Se você for parar para pensar, principalmente se ler os livros, é isso o que acontecia na época: aristocratas nem sempre tratavam bem os seus criados.
    Mas se você vier com a desculpa de que estou generalizando e que nem todos eram assim... Desculpe, mas aí é você que estará sendo da linha "dos comunistas" rs Ou simplesmente ingênua rs

    ResponderExcluir
  6. Mell, assisti o seu vídeo e li sua resenha. O livro realmente parece interessante justamente por abordar um tema que não costumamos ver na literatura. Entendo que você tenha gostado desse livro e da maneira como a escritora faz uma crítica da
    sociedade da época, mas dizer que Jane Austen, é romance bobinho, me faz
    questionar se você realmente leu a obra dela. Todas as obras de Austen são
    críticas sociais muito mais do que romances. O cinema é quem transformou a obra
    dela em um romance que beira o água com açúcar. Quem sabe uma releitura sem
    esse olhar romantizado pode te ajudar a entender melhor Austen. Um abraço.

    ResponderExcluir
  7. Oi, Rosi, obrigada pelo comentário respeitoso. Eu realmente enxerguei crítica em Orgulho e Preconceito, tanto é que eu disse isso no vídeo. Se não houvesse, como explicar o próprio título, que já é uma crítica e tanto, não é mesmo? Mesmo assim o fator romance ainda pesa na obra. Infelizmente, as pessoas às vezes levam em conta apenas ele. Mas os romances "bobinhos", como citei lá no vídeo, não é o caso de Orgulho e Preconceito, não mesmo :) Me referia a outros mais contemporâneos, como aqueles que estão sendo publicados pela Arqueiro.
    Fora isso, realmente, eu preciso reler Orgulho e Preconceito. Mas não por não ter enxergado a crítica nem nada rs

    ResponderExcluir
  8. Então estava lendo As sombras de Longbourn? O que achooou? :)
    Eu já acho que não conseguiria gostar de Julia Quinn. Posso estar errada, mas é só um palpite inocente rs
    Beijos

    ResponderExcluir
  9. Percebi que meu comentário negativo sobre Orgulho e preconceito pareceu dizer que eu não gosto mais do clássico, mas apesar de ter um olhar mais crítico quanto aos tipos sociais do que o pincelado pela Austen, ainda consigo gostar da obra :)
    hahahaha Eu nunca gostei da Lydia. Ô menina encrenqueira!
    Então você também o leu? o/
    Beijos

    ResponderExcluir
  10. Eu preciso dar uma olhada nessa série, eu nunca assisti :( Mas parece ser super bacana!
    Por tudo o que disse, também acho que irá gostar ;) Se chegar a ler, me conte o que achou, ehn? Bjs!

    ResponderExcluir
  11. Ainda não consegui terminarrrrr, acabei colocando outros na frente, mas tava gostando até então. :) Beeeijo ♥

    ResponderExcluir
  12. Monique L A Batista26 de maio de 2014 15:41

    Pode deixar ;)
    E, caso você dê uma chance a Downton, não desista no primeiro episódio! O primeiro é meio parado, eu não gostei quando vi, mas a partir do segundo você já está super envolvida na história, sem nem perceber, e é viciante - eu adoro, rs

    ResponderExcluir
  13. Maria Sônia Oliveira7 de outubro de 2014 03:54

    Olá Mell,

    Li sua resenha e me desencantei de ler o livro de Joe Baker.
    Razões:
    1- O&P é apenas uma história! Se Joe Baker queria falar de desigualdades, o mundo de hoje está cheio delas e reais!
    2- Ela ancorou sua história em Jane Austen porque teria sucesso, para depois quebrar o encanto do romance que ela mesma precisou para ter atenção e ser conhecida.
    3 - Ela minimizou o trabalho de um escritor que, dentro do seu contexto, fez críticas as desigualdades sociais.
    4 - Jane existiu de verdade! Os Bennets, não! Jane sofreu por sua condição, e por causa dela, não encontrou um marido. Então criou Elizabeth e fez um homem rico e orgulhoso se dobrar a ela e a união que ela jamais teria (por causa do preconceito) aconteceu.
    5 - Se Baker for a alpinista que me parece ser, ela ainda tem cinco romances de Austen para contar como as heroínas de Jane eram indiferentes ao trabalho dos seus criados... Mal intencionada essa moça!
    6 - Suas críticas foram bastantes pesadas, não é possível confiar mais no que você fala.

    ResponderExcluir
  14. Primeiro de tudo, Maria, me desculpe se perdeu a confiança no que digo por conta de um livro que você nem leu ainda. ("6 - Suas críticas foram bastantes pesadas, não é possível confiar mais no que você fala.")

    Segundo, que não vejo de forma alguma uma alpinista social aqui. Veja, eu também sou fã do livro da Austen e das críticas que ela faz, mas há um mundo muito maior por trás do preconceito que ela quis retratar. São preconceitos diferentes. E não necessariamente ela retratou todos eles. Aliás, isso não o fez, não tem como, certo? Em momento algum ela minimizou o trabalho de Austen, isso sim é uma crítica pesada rs Aliás, ela é grande fã da autora, não faria isso. Lembre-se de que isto é uma resenha minha, em momento algum eu sentei pra conversar com a Baker. Sem contar que ela não ficou famosa por este livro.

    Terceiro, que a autora quis escrever sobre aquele tempo, ela não precisa se prender a esse. Podemos escrever sobre o tempo que quisermos. Até sobre o que não existe.

    E As Sombras de Loungbourn é apenas uma história também ;)

    ResponderExcluir
  15. Maria Sônia Oliveira7 de outubro de 2014 09:52

    Jo Baker vendeu os direitos do livro para um filme, Para ela dinheiro é muito bom, mas esse foi as custas de Jane Austen: duvido que alguém quisesse fazer um filme e você e outras estivessem resenhando um livro dela se ela tivesse criado todos os seus personagens, em vez de usar a obra de outra pessoa pra subir mais rápido a escada da fama.

    ResponderExcluir
  16. Olha, acho muito leviano este seu comentário. Eu leio e resenho muitos livros não baseados em outras obras. Eu leria outros livros dela porque gostei, sim, da escrita. E mesmo que ela não tivesse escrito esse livro, poderia, sim, chegar a ler algo dela.
    E aposto que dinheiro é muito bom para você também, mas não da forma que você aponta. E não podemos julgar sem conhecer. Discordo totalmente do que disse simplesmente pelo fato de não ser a principal questão inserida aqui.

    ResponderExcluir
  17. Caramba, que resenha não te conheço mas já te amo. Garota vc é do balacobaco.

    ResponderExcluir

Obrigado por visitar e comentar no Literature-se.
Assim que puder, visitarei o seu blog. Caso não tenha um, deixe twitter, Facebook ou e-mail para que eu possa respondê-lo :)
Dicas, sugestões e críticas construtivas? Comentários abertos para isso e muito mais, só contando com aquela boa dose de bom-senso necessário, né? ;)

 
Literature-se © Todos os direitos reservados :: Ilustração por Prih Mizuh (@pri_mizuh) :: voltar para o topo