18.3.14

Resenha: Série A Torre Negra (sem spoilers)

“O Homem de Preto fugia pelo deserto, e o Pistoleiro ia atrás”

Muito já foi dito sobre a importância dessa frase para o escritor Stephen King. O lendário Mestre do Terror conseguiu, em quase 40 anos de carreira, não somente nos assustar com suas narrativas e descrições medonhas sobre criaturas antigas nas sombras, forças ocultas maiores do que o Homem, ou aquele que talvez seja o pior monstro que exista na face da Terra: o próprio Homem.

Se você nunca leu um livro de King, com toda certeza já viu alguns dos filmes que serviram de adaptação às suas obras. Só pra citar os mais clássicos, temos Carrie – A Estranha, O Iluminado, It – Uma Obra Prima do Medo, Cemitério Maldito, Na Hora da Zona Morta, A Hora do Lobisomem, Um Sonho de Liberdade, A Espera de um Milagre, O Nevoeiro (a meu ver, a melhor adaptação de um livro do autor), Louca Obsessão e mais recentemente, a série Under the Dome.

Mas não estou aqui para falar sobre filmes, afinal, este é um blog chamado Literature-se, portanto, o assunto aqui é bem óbvio, não? E se tratando de Stephen King, existe uma obra que se sobressai sobre as demais. Não apenas faz isso, mas conecta toda a sua bibliografia como parte do mesmo Universo.

Estou falando, é claro, da série A Torre Negra.








Ao ler os oito volumes da saga, fica bem claro o amor e o apreço que King tem por sua história. Se é dito que o autor é simplesmente um receptáculo para as histórias mais fantásticas que existem em realidades alternativas, em A Torre Negra isso fica evidente na voz que King imprime não apenas aos fascinantes personagens da saga, mas em si mesmo como narrador e contador de histórias.

A trama é centrada no personagem Roland Deschain. Roland é um pistoleiro descendente de Arthur Eld (é aquele Arthur mesmo que você está pensando) que vive para cumprir um objetivo em sua vida: encontrar a Torre Negra. É dito que esta Torre é o centro e o nexo onde todos os mundos e universos convergem. Começamos a saga com o livro O Pistoleiro, que pinta um retrato árido da paisagem que Roland começa desbravando com a frase que inicia este texto. O cenário de O Pistoleiro é o Mundo Médio, um mundo alternativo ao nosso onde tudo parece estar envelhecendo e deixando de existir, ou – nas palavras do autor – “seguindo em frente”.

Roland acredita piamente na força do ‘ka’, que é como ele chama o conceito de destino e toda a sua inexorabilidade.

À medida que a saga avança, outros personagens importantes são adicionados ao ‘ka-tet’: Jake Chambers, um menino que se vê no Mundo Médio após ter morrido em um atropelamento violento na Nova York de 1977; Eddie Dean, um viciado em heroína que entra no mundo de Roland justamente quando um de seus negócios de venda de drogas vai mal na NY de 1987; e Susannah Holmes, uma ativista negra dos direitos civis nos anos 60 (também de NY) que sofre de um distúrbio poderoso de personalidade dupla. A genialidade de Stephen King reside no fato de que o grupo de “heróis” que vamos acompanhar durante boa parte da saga não é o tipo de paladinos que se espera de uma aventura fantástica. Nada do heroísmo inabalável de Aragorn, ou a coragem e lealdade de Harry Potter e seus amigos (aplicada na série de J.K. Rowling, o conceito de ka poderia correr até mesmo por Hogwarts, não?): os heróis de King são, no mínimo, relutantes e pouco dispostos a embarcar numa aventura com um pistoleiro de outra dimensão.

Títulos:
O Pistoleiro (1982)
A Escolha dos Três (1987)
As Terras Devastadas (1991)
Mago e Vidro (1997)
Lobos de Calla (2003)
Canção de Susannah (2004)
A Torre Negra (2004)
O Vento Pela Fechadura (2012)

A Torre Negra não entrega soluções fáceis ao leitor e exige atenção redobrada: o passado é narrado de forma esparsa pelos volumes – com exceção de Mago e Vidro e O Vento pela Fechadura; quarto e oitavo livros da série, respectivamente. Mas essa aparente dificuldade é recompensadora; nunca me peguei tão envolvido emocionalmente em uma saga literária quanto esta, e confesso que mais uma vez eu chorei lendo determinadas passagens dos livros. Os dois primeiros volumes são um pouco distantes do ponto de vista emocional, mas a partir de As Terras Devastadas (terceiro livro da série) o leitor pode se preparar pra engolir a seco em muitos momentos da narrativa.

Os eventos finais da saga são, para dizer o mínimo, apocalípticos. Quem acha que George R.R. Martin é impiedoso em matar seus protagonistas, é porque ainda não teve contato com as obras de Stephen King. O último volume da saga – apropriadamente entitulado de A Torre Negra – é um soco no estômago não apenas em sua estatura (mais de 700 páginas), mas nas expectativas do leitor. Aqui, importa mais a satisfação do escritor em terminar uma saga que lhe foi querida por tanto tempo. E se um escritor do calibre de King fica satisfeito, nós também ficaremos.

O último volume a ser lançado é O Vento Pela Fechadura, que se passa entre os livros 4 e 5 da saga. Minha dica: leia este depois de ter terminado todos os sete livros. E espere mais um pouco. Leia outros livros. Permita-se o luxo de sentir saudades de Roland Deschain e seu improvável ka-tet. A experiência valerá muito mais a pena.

“O homem de preto fugia pelo deserto, e o Pistoleiro ia atrás”

Gustavo, 24 anos, cinéfilo, músico nas horas vagas e apaixonado pela Sétima Arte. Faz aniversário no mesmo dia em que nasceu, de vez em quando arranha na guitarra alguns clássicos do Black Sabbath, e ainda não assistiu a toda sua coleção de filmes. Cresceu venerando Steven Spielberg e James Cameron, mas seu atual cineasta favorito é Christopher Nolan. A sua playlist varia entre Iron Maiden, Queen e Lady Gaga.                                       » Twitter » Facebook » Caravela Virtual

7 comentários:

  1. Rapaz, eu ouvia falar muito sobre essa série e também sobre o próprio autor. Verdade é que eu nunca tinha lido nada dele e, muito menos, chegado perto de "A Torre Negra'. Mas tudo bem, visto que só bem recentemente entrei de verdade nesse universo literário e dei uma chance ao King. Aliás, o primeiro livro do autor e aquele que decidi começar foi justamente "O Pistoleiro".

    Vi leitores comentando que o primeiro livro da saga é bem "chato". Particularmente, não achei nada disso. Sim, é bem descritivo e não tem lá muitos acontecimentos marcantes, mas acredito que tudo isso tenha sido necessário para visualizarmos todo o Mundo Médio e nos fazermos presentes ali. E o final, nossa! Se tivesse o poder de fazer livros brotarem do chão do nada, não teria perdido tempo...

    Então, acredito que tenha começado muito bem com as obras do King. Vou comprar o segundo livro da série e pretendo também comprar os seus demais livros em ordem cronológica, porque, para mim, esse autor é aquele que deve se ter todos os seus livros.

    Abraços e até a próxima!

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  2. Sabe, eu li o primeiro volume da série e não curti muito. É um livro bastante imersivo, mas não consegui gostar do Roland e não sei se pretendo continuar a ler a série. Claro, já ouvi falar muito bem dela, mas se continuar como foi no primeiro, realmente não é o livro para mim.

    Bjs!

    http://arrastandoasalpargatas.blogspot.com.br/

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  3. Mariana Medeiros Miguel18 de março de 2014 17:03

    A minha amiga AMA esse livro, tanto, mas tanto que ja me deu spoiller do fim. haiuhduiahdia

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  4. Eu já ouvi muito falar dessa série, mas essa é a única resenha positiva que vi até agora. Normalmente o pessoal fala bem mal desses livros e diz que são dos piores do Stephen King, com uma narrativa muito arrastada, mas já que existem essas outras perspectivas, por que não dar uma chance? Gostei muito da resenha.
    Até mais :3

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  5. Eu já li o primeiro da série e comprei o segundo e terceiro, mas não dei continuidade pois priorizei outra série que me encantou. Mas admito, quando vi que você tinha feito uma resenha dessa série, fiquei com um medo danado de ler e encontrar spoilers. Mas fiquei bem feliz de ter acompanhado seu texto porque só aumentou minha vontade de continuar a série...
    Parabéns, Gu!!
    Texto impecável e muito estimulante!! :P

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  6. Eu nunca tinha lido nenhum resenha sequer sobre a série...gosto muito de King mas ainda tenho minhas desavenças com ele (por causa da sua escrita lenta no começo de alguns livros) mas eu nunca nego que quando a leitura embala ele me surpreende. Não me atrevi na série Torre Negra por comodismo mesmo (e excesso de séries). Mas vou pensar bem e um dia desses eu vou arriscar ler ao menos o primeiro (e ver no que dá).


    Abraços,
    Tamara Costa - www.doseliteraria.com.br

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  7. Eu tinha os livros vol. 4 e 5, mas nunca consegui completar a coleção.
    Dai resolvi ler outro livro do King, A Dança da Morte. Um livro muito bom com final surpreendente, coisa que é rara nos livros do cara.
    Me diziam que a conclusão dessa saga foi muito decepcionante, mas não consegui ver se mudaram de opinião quem com o lançamento do vol.8.

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