21.3.14

Resenha: O Ladrão do Tempo

O Ladrão do Tempo, por John Boyne

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 568
ISBN: 9788535923780

Matthiew Zéla parou de envelhecer no final do século XVIII, quando se aproximava da meia-idade. Duzentos anos depois, ele rememora as muitas vidas que teve desde que fugiu da França para a Inglaterra, após ter presenciado o assassinato brutal de sua mãe. Seus companheiros na empreitada foram o irmão mais novo, Tomas, e Dominique Sauvet, seu único amor verdadeiro. Mas Matthiew sobreviveu aos dois, e desde então não parou de sobreviver a todos. Foi soldado, engenheiro, cineasta, investidor, executivo  de televisão e amante de muitas mulheres. Em seu romance de estreia, John Boyne construiu uma trama maravilhosamente articulada, que nos leva a visitar os grandes eventos que marcaram o mundo nos últimos dois séculos pelos olhos de um personagem extraordinário.




Sobre o que se trata?

Matthiew Zelá nasceu em Paris no século XVIII e tinha 15 anos quando viu sua mãe ser brutalmente assassinada por seu padrasto. Após o julgamento e condenação do culpado, Matthiew resolve ir embora da França junto com Tomas, seu meio-irmão de seis anos. Em um navio para a Inglaterra, os dois conhecem Dominique Sauvet, uma jovem muito bela por quem Matthiew logo se apaixona. Juntos, eles formam uma família e buscam melhorias para o futuro.

Ao final do século XVIII, Matthiew percebe algo peculiar a seu respeito: ele parou de envelhecer e, consequentemente, não pode morrer. Em suas próprias palavras: Eu não morro. Apenas fico mais e mais velho. Se você me visse hoje, com certeza diria que sou um homem perto dos cinquenta anos. Sem compreender os motivos que levaram isto a acontecer, ele apenas aproveita o tempo extra que lhe foi concedido. Ao contrário da maioria dos personagens imortais encontrados na literatura, na televisão e no cinema, Matthiew gosta de viver, gosta de saber que os anos passarão e que ele continuará por aqui. Com o decorrer dos séculos, o protagonista não deixa de perceber um padrão relacionado à Tomas e seus descendentes; todos parecem morrer de forma trágica por volta dos vinte e poucos anos, após terem engravidado alguma mulher.

Utilizando uma narrativa em primeira pessoa e dividida em três partes que se intercalam, John Boyne apresenta ao leitor um panorama geral dos principais acontecimentos que marcaram o mundo nos últimos dois séculos, como a Revolução Francesa, o renascimento das Olimpíadas, o início da Revolução Industrial, a Hollywood dos anos 1920, a quebra da bolsa de valores de Nova York, entre outros. O livro tem início com Matthiew contando os acontecimentos atuais de sua vida no ano de 1999, quando trabalha como acionista em uma emissora de televisão e toma conta de Tommy, um dos descendentes de seu irmão que, aos vinte e poucos anos, é o maior astro da televisão britânica, vive sendo perseguido por paparazzi nas ruas e tem um sério problema com drogas. Paralelamente a essa narrativa, o leitor acompanha a vida do jovem Matthiew vivendo no século XVIII após chegar à Inglaterra e também outros acontecimentos aleatórios ao longo dos anos na vida do protagonista.

Minhas impressões

Em seu romance de estreia, John Boyne deixa claro que gosta de História e também já mostra a sua habilidade para construir narrativas que se relacionem a acontecimentos marcantes do mundo. Com um enredo bem desenvolvido e sem fazer uso de muita linearidade para contar a vida de Matthiew, O Ladrão do Tempo exige um pouco mais de atenção do leitor disperso, já que, além de conter saltos temporais, traz muitas referências históricas à locais, personalidades e livros (!) que marcaram determinada época. Entre as obras citadas estão O Conde de Monte Cristo, A Letra Escarlate, Um Estudo em Vermelho, O Grande Gatsby e Adeus às Armas.

É interessante ressaltar que apesar do título sugestivo, não estamos falando de um livro de ficção-científica ou fantasia, cheio de explicações para os acontecimentos. Tudo é muito sutil e desenvolvido de uma forma mais lenta, o que pode ser encarado como algo negativo por algumas pessoas; principalmente se levarmos em consideração as 568 páginas do livro. Eu, particularmente, me incomodei em alguns momentos; não porque estivesse esperando algo mais rápido, mas por imaginar que seria um livro mais instigante e com um clímax cheio de tensão, como o de O Palácio de Inverno, do mesmo autor.

Ainda assim, O Ladrão do Tempo não é, de forma alguma, um livro ruim. Durante todo o tempo, a narrativa de Matthiew prende a atenção do leitor, que começa a se apegar a alguns personagens e a detestar outros, assim como ficar curioso para saber qual será o próximo acontecimento histórico presenciado pelo protagonista. Gostei principalmente das partes em que Matthiew conta a sua experiência com a indústria cinematográfica na Hollywood dos anos 1920, incluindo o próprio Charlie Chaplin como personagem, além de citar muitos atores, atrizes e diretores famosos. Tommy também é um personagem muito cativante, sempre rendendo momentos de risada com seus comentários extremamente realistas e sarcásticos acerca do mundo do show business. Por fim, recomendo a leitura à todos os que gostam de uma boa viagem pela História e/ou já conhecem o trabalho do autor.

5 comentários:

  1. Catharina Mattavelli22 de março de 2014 11:17

    Quero bastante ler o livro, já li O Menino do Pijama Listrado e adorei haha sua resenha ficou simplesmente ótima, como sempre, vc tem um dom mesmo viu? kkkk.

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/2014/03/caixinha-de-correio-8.html

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  2. Oi,

    gosto dos livros de Boyne, creio que ele sempre aborda assuntos delicados. O Garoto do Convés e O Menino do pijama listrado foram assim.

    Beijinhos, Helana ♥

    In The Sky, Blog

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  3. Oi, Helana
    Ainda não li "O Menino do Pijama Listrado" (morro de medo de como vou ficar depois que tiver lido) nem "O Garoto no Convés", que parece ser incrível!
    Gosto de com o autor cria uma história e usa a História como plano de fundo :)
    Beijos

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  4. Há um erro do autor ou de tradução. Na página 170 lemos:'(Philippe) ligava para minha mãe com frequência a qualquer hora do dia". Cabe lembrar que o protagonista, sua mãe e seu padrasto viviam em meados do século XVIII e o telefone não existia. O padrasto ligar para a mãe do menino seria anacronismo, no mínimo.

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  5. Oi, Andre


    É verdade! Lembro de ter visto isso e achado meio estranho. Acredito que seja um erro de tradução, já que em inglês, o verbo usado para chamar - "call" - é o mesmo utilizado para se referir à ligações telefônicas. Se for isso mesmo, mostra bastante falta de atenção da parte do tradutor e do revisor, né?

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