9.2.14

Resenha: A Menina Que Roubava Livros


 A Menina Que Roubava Livros, por Markus Zusak.

Editora: Intrínseca.
Páginas: 480.
ISBN: 9788598078175
A trajetória de Liesel Meminger é contada por uma narradora mórbida, surpreendentemente simpática. Ao perceber que a pequena ladra de livros lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943. Traços de uma sobrevivente: a mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel e o irmão para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai surrupiar ao longo dos anos. O único vínculo com a família é esta obra, que ela ainda não sabe ler.
Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Alfabetizada sob vistas grossas da madrasta, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.
A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Ela assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança. Teme a dona da loja da esquina, colaboradora do Terceiro Reich. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História. A Morte, perplexa diante da violência humana, dá um tom leve e divertido à narrativa deste duro confronto entre a infância perdida e a crueldade do mundo adulto, um sucesso absoluto - e raro - de crítica e público.

Sobre o que se trata?

Liesel Meminger é uma garotinha alemã filha de uma mãe considerada comunista que, por intermédio do governo, é destinada à adoção. A caminho de Molching, onde mora a sua nova família, ela perde seu irmão caçula e tem a sua vida abalada pela Morte. Porém, encontra um consolo ao roubar o livro do coveiro do enterro de seu irmão. Chegando à sua nova vida junto a seus novos pais, Liesel terá que superar mágoas passadas, ao mesmo tempo em que aprende perigosamente sobre a sua situação - ou sobre a situação de todos ao seu redor: A Segunda Guerra Mundial permeia todo o contexto social de Molching, mesmo a cidade não sendo o centro das atenções da guerra.

Em meio a novos sentimentos causados pela súbita perda de dois entes queridos - e pela obrigação de se aproximar de outros dois novos -, pelo cotidiano permeado por uma educação nazista, por acontecimentos desumanos em relação a judeus e por travessuras infantis que, sim, também fizeram parte de seu crescimento, a menina que roubava livros enfrenta um amadurecimento como testemunha de uma guerra cruel. E sempre auxiliada pelo amor às palavras e pelos seus livros roubados (ou não).

Minhas impressões

O enredo do livro não é bem definido, do tipo que dá para ser descrito em poucas palavras (ou mesmo somente descrito, já que só de se tentar essa proeza, spoilers cegariam o leitor desta humilde resenha), pois o livro é construído sobre pilares muito singelos:

Personagens singelos: Eles são civis, em sua maioria. E esta maioria nos desperta sentimentos de pena e de tristeza, pois demonstra para o leitor que são pessoas como nós, porém vivenciando um contexto histórico opressivo do qual não podem fugir. Não tem como não amar os pais adotivos de Liesel, Rosa e Hans Hubermann, por mais normais que sejam, pois qualquer relação afetuosa já se destaca. E Hans consegue ser um pai maravilhoso e, acima de tudo, amoroso e compreensivo. Quase não há palavras para descrever o laço familiar que o autor constrói entre Liesel e Hans. Qualquer descrição é rasa e injusta. Os sentimentos despertados aí são complexos demais. Rudy é aquele "amigo-colorido" de uma fidelidade incrivelmente digna e humana. Apesar de ser um romance infantil e ingênuo, supera a expectativa do leitor. Já Max, o judeu que Hans esconde em seu porão, tornou-se, para mim, o irmão que Liesel perdeu, o que por si só já explica a carga sentimental que envolve essa relação.

Escrita singela: Apesar do autor brincar com as palavras (quase chegando a um concretismo cheio de peripécias), o modo como ele narra é tão bonito e leve, que muitas vezes torna-se poético. A perspectiva da Morte junto das memórias de uma criança é o que transforma esta escrita singela. Aqui, o conteúdo se sobrepõe à escrita (ou são apenas aliados que tornam o livro essa obra maravilhosa?).

História singela: O livro narra acontecimentos episódicos, transmitindo ao leitor detalhes de uma vida ingênua dentro de uma guerra cruel e destruidora. O cotidiano presente no livro serve para mascarar a profundidade existente no contexto de quem vivia naquela época (até mesmo dos alemães), sendo um poço repleto de outras intenções - o autor quis transmitir ao leitor o quão terrível foi a guerra, até mesmo para uma criança que vivia afastada do centro dela. Ou seja, o livro foge do comum (afinal, o que mais existe são livros que narram sobre judeus e o que eles viveram durante o período, não sobre crianças alemãs).

A importância dos livros e das palavras foi inserida de maneira belíssima na história. Desde cedo, e até antes mesmo de aprender a ler e a escrever, Liesel sente uma atração extrema por livros. E com o passar da história, fica claro ao leitor que esta paixão da menina funciona como uma válvula de escape da monotonia, e até como algo maior - que não vou entrar em detalhes, pois envolve o final (mas adianto que é maravilhoso).

Por último, deixo meu apelo àquelas pessoas que abandonaram o livro. Eu mesma dei cinco chances à ele. Só fui conseguir me envolver na singeleza dele na quinta vez que o li, pois a escrita e a história só começam a encantar o leitor depois da página 100, 150, pois o começo é um tanto quanto parado, algo como o relato da adaptação de Liesel à sua nova vida. Sei que muitos não conseguiram continuar com a leitura (segundo o Skoob, 9733 pessoas abandonaram o livro), assim como aconteceu comigo mesma. Ganhei o livro assim que foi publicado aqui no Brasil, em 2007, e só fui concluir a leitura dele este ano. Ou seja, foram longos sete anos. E digo que valeu a pena dar todas essas chances. Este livro é um dos meus preferidos de toda a vida.

Agora, para quem está se perguntando o que eu achei da adaptação cinematográfica, vou apenas me ater a breves comentários no vídeo-resenha que fiz do livro lá no canal do blog no Youtube. São 15 minutos comentando sobre o livro e 5 sobre o que achei do filme...

21 comentários:

  1. Olá, como vai?
    Menina, eu dei uma chance a este livro... e... Não foi. Não curti a escrita, seilá, é como você disse: "Só fui conseguir me envolver na singeleza dele na quinta vez que o li, pois a escrita e a história só começam a encantar o leitor depois da página 100, 150." EU, parei na página 20, achei muito forçado algumas partes. Meu noivo leu também, mas, diferente de mim, ele leu até o fim. Não gostou também. Talvez a gente tenha ido com muitas expectativas em relação a este livro; Pois, todo mundo fala Mil maravilhas e tals.
    Cada um tem uma visão pra "gostar ou desgostar" desse livro.
    Parabéns pelo seu post. Está bem legal e sincero ;)

    http://incriativos.blogspot.com.br/

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  2. Mell, amei sua resenha, amei o vídeo.
    Esse livro realmente é sensacional... sem palavras. Chorei muito no final.
    Eu não fui uma das que abandonou, porque ele me prendeu logo de início, e me apaixonei perdidamente pela história.
    Acho que todas as histórias com finais tristes me emocionam.
    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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  3. Sua resenha ficou maravilhosa!!!
    Concordo com tudo o que disse , personagens civis , história singela [e ao mesmo tempo complexa] , a perspectiva da Morte <3 , a escrita poética , tudo isso pra gerar esse livro incrível.Esse é daqueles que é tão bom que até tenho medo de conhecer outros trabalhos do autor [já me falaram que não é tão bom </3 Aposto que se a gente pudesse ir na casa de cada uma [ou fazê-las ler a sua resenha] esse número iria se reduzir.Não tem como odiar por completo esse livro , como assim isso é irreal.

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  4. Oi Mell! Vou deixar o livro para degustar mais tarde, porém, li a resenha e admito que fico com certa dó do livro. Eu li faz muito tempo e detestei na época!
    Estou pensando em ler em inglês...dar uma nova chance. Eu li ele enquanto viajava, talvez isso tenha me tirado do clima da leitura haha

    Bjs

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  5. Eu me apaixonei logo quando li, mas várias amigas minhas abandonaram o livro :( Que bom que você resolveu continuar, acho que A menina que roubava livros é incrível, a escrita do autor torna a história muito emocionante, não acha?
    Beijos
    http://gemeasescritoras.com/

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  6. OiMell, li esse livro cerca de 5 anos atras. Na epoca foi uma dificuldade enorme para ler ele. Mas eu fazia assim: quando n tinha nada pra fazer ia la ler um pouquinho.. Ate aue chegou num momento em que o livro ficou muito bom e nao parei de,ler. Mas ate la foi mais de um mes com certeza kkk a maioria das pessoas q desistem desse livro e realmente no comeco, quando está mais chatinho mesmo. Uma pena :/



    http://foreverabookaholic.blogspot.com.br

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  7. Eitcha, meu, será que por isso não curti a história? Cheguei, pelo que conferi no Skoob, na página 130 e larguei o livro. Achei parado, chato, confuso. MAS acredito qeu eu não estava no clima pra ler o livro. Vou tentar de novo, as pessoas falam tão bem.

    Gostei de como você estruturou a resenha, flor. Ficou bem direto. :)

    Beijo! ♥

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  8. Eu quero muito ler esse livro *-*

    P.S: O blog co-lo-rê está de volta. Espero você por lá ♥

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  9. Oi Mell, sempre tive muita curiosidade com relação a esse livro, mas mesmo achando o enredo bem interessante nunca me empolguei a ler pois algumas pessoas próximas a mim leram e não recomendaram, alguns na verdade não conseguiram passar das primeiras páginas.
    Estou decidida a assistir primeiro e ler depois. Não costumo fazer isso, mas talvez nesse caso, se o filme for muito bom, consiga me convencer a dar uma chance ao livro.


    Beijos

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  10. Muitas pessoas não conseguem passar das primeiras páginas, mas digo que vale a pena passar por esse começo um tanto quanto monótono, pois mesmo assim é belo e muito importante para o desenvolvimento da história.
    Assista, sim, de uma forma geral é bem parecido com o livro. Porém, a escrita maravilhosa do autor se perde ali nas telas do cinema. Se você gostar do filme, acho que irá adorar o livro :) Dê um chance, ok? :)
    Obrigada por comentar aqui no blog, beijos!

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  11. Leeia, é muito bom! Um amor de livro <3

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  12. hahaha Talvez seja por isso. Apesar do começo ser beeem paradinho, ele é super importante para o desenvolvimento da história. E depois fica tudo mais claro e cheio de coisas que acontecem na vida da garota, e que têm significados bem importantes diante da Guerra.
    Tente de novo, sim, dê outra chance. Eu dei cinco e não me arrependo! haaha
    Beijos, e obrigada Ra <3

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  13. Quando peguei ele pela primeira vez, também tive muita dificuldade.
    É disso que falo: chega uma hora que o livro se torna MUITO bom. Mas o começo é mesmo bem monótono.
    Beijos :)

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  14. Muuita gente abandona esse livro mesmo, mas é devido ao começo monótono.
    Nem me fale,a escrita é o que torna o livro especial. Amo amo amo!
    Beijão!

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  15. Ihhh, sério, Rafa? Que pena :( Mas gosto é gosto, normal isso acontecer. E eu que não gosto de Quem é você, Alasca?, livro que MUITA gente ama?
    Dê, sim, às vezes não era a época certa para você ler.
    Beijos :)

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  16. Sim, a carga emocional é que deixa tudo complexo. Mas o enredo em si é mesmo singelo e muito belo <3
    Eu também tenho medo, mas quero muito ler algo mais dele. Ele merece essa minha consideração e voto de confiança haha

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  17. Fico feliz que tenha gostado, So! Sua opinião é muito importante para mim :)
    Eu também chorei muito no final, igual condenada hahaha
    Beijos!

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  18. E eu que dei CINCO? hahaha Quatro chances que não foram..Mas, diferente de você, meu problema não foi com a escrita, foi com o enredo em si, que achei monótono no começo.
    Não achei nada forçado no livro, pelo contrário, por conta da singeleza.
    Sim, eu percebo que não gosto tanto de um livro quando crio muitas expectativas em relação a ele.
    Obrigada, Italo :)

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  19. Oii Mel sou aluna do curso de Pedagogia, não li o livro mais assistir o filme e achei muito interessante seu vídeo, me ajudou muito

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  20. sidnei luis fermino20 de abril de 2014 11:41

    Oi adorei
    sua resenha...mas vc já leu o livro reverso escrito pelo autor Darlei... se
    trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas
    religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias
    cientificas usando dilemas fantásticos; Além de
    revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria
    cultura e digite reverso...a capa do livro é linda ela traz o universo de
    fundo..abraços. www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem..busca.livrariasaraiva.com.br/saraiva/Reverso

    www.buqui.com.br/ebook/reverso-604408.html

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  21. Esse livro é simplesmente fantástico.É de tirar o fôlego porque o leitor quase consegue se colocar no lugar de Liesel,principalmente no final.

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