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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

resenha 6

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Luuanda Luandino Vieira
28.2.14

Hoje resolvi fazer um post diferente dos que costumo escrever: quero levantar uma discussão. Mais precisamente uma discussão sobre compras de livros; e para fazer isso, vou compartilhar um pouco da minha experiência pessoal como leitora e, claro, compradora de livros.


Meu nome é Michelle, tenho 23 anos e sofro de um problema sério.

Desde meus 16 anos um fato tornou-se recorrente em minha vida: sempre tenho mais livros do que consigo ler. Nunca foi um número muito alto, normalmente uns cinco ou seis livros. Mas vou confessar que de uns anos para cá as coisas começaram a ficar um pouco descontroladas. Principalmente depois que criei o blog, em 2012, e o canal, um ano depois. Estimo que, no momento, devo ter mais de 50 livros não lidos na minha estante.

Não que eu ache ruim gastar dinheiro em livros; muito pelo contrário, no mundo de hoje, acho que quem lê é privilegiado, certo? O problema é a completa falta de controle na hora de comprar livros. Um exemplo: entro em uma livraria dizendo que comprarei, no máximo, um livro e só se tiver com um preço justo e se for algo que eu realmente quero ler. Mas aí, depois de alguns minutos observando as estantes e conferindo as novidades, saio da loja com dois ou três livros. Normalmente, com preços bons, mas ainda assim, não cumpri a minha palavra. Com as lojas online as coisas ficam ainda piores: ofertas toda semana, cinco livros pelo preço de dois, coleções completas por metade do preço, e por aí vai. Compras em sebos ocorrem de forma parecida, mas com menos gastos. Quando me dou conta, tenho uns dez livros novos no fim do mês, e só costumo ler a metade do número no mesmo período de tempo.

Confesso que, a principio, não me incomodei. Achei que fosse normal, já que havia acabado de entrar nesse mundo de blogs e canais literários. Pensei que seria uma fase e que, em breve, as coisas voltariam ao normal. Mas não voltaram. Em alguns meses compro mais, em outros compro menos, mas isso não importa, já que a pilha de livros não lidos continua a aumentar de uma forma que não é proporcional à quantidade de livros lidos. É assustador. Muitos livros, pouco tempo.

Pensando nessa situação que estou vivendo e sabendo que não sou a única, gostaria de saber quem aí sofre deste mesmo mal (?) e o que fazem nessas horas. Também adoraria ler a opinião de quem é um pouco mais controlado e de quem nunca parou para pensar nisso. Dicas serão muito bem-vindas.
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23.2.14

Laranja Mecânica, escrito por Anthony Burgess.
Editora: Aleph
Páginas: 352
ISBN: 978-85-7657-136-0

Narrada pelo protagonista, o adolescente Alex, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma reposta igualmente agressiva de um governo totalitário. A estranha linguagem utilizada por Alex - soberbamente engendrada pelo autor - empresta uma dimensão quase lírica ao texto. Ao lado de "1984", de George Orwell, e "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, "Laranja Mecânica" é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século XX. Adaptado com maestria para o cinema em 1972 por Stanley Kubrick, é uma obra marcante: depois da sua leitura, você jamais será o mesmo.

Sobre o que se trata?

Laranja Mecânica narra a história de Alex, de 15 anos, integrante de um grupo de adolescentes delinquentes que depois da escola (ou de faltar da escola), destinam o tempo para cometer crimes, como roubos, espancamentos e estupros, por pura maldade e diversão. Numa noite comum de violência, Alex e seus amigos - Tosko, o mais eloquente, Pete e Georgie - decidem assaltar a casa de uma senhora, mas acaba que ela chama a polícia a tempo e Alex é traído pelos "druguis" (ou "amigo", na gíria usada pelo grupo). O adolescente é detido e condenado a quatorze anos de prisão. 

Porém, ao demonstrar muita selvageria durante os primeiros dois anos de prisão, o governo opta por submeter Alex a um tratamento de choque novo e ainda em fase de experimentação chamado Técnica Ludovico. Através desse viés, que garante a extinção da maldade em apenas duas semanas, o governo espera diminuir a superlotação de presídios e até mesmo liquidar o impulso criminoso. Durante a terapia, o indivíduo é submetido a sessões diárias de filmes com alto teor de violência e também recebe doses injetadas de uma substância que garante terríveis sensações de mal estar e enjoos. Assim, a deflagração de experiências físicas insuportáveis (como náusea) é deliberadamente associada a qualquer forma de agressão, fazendo com que a pessoa opte por condutas gentis para evitar o mal estar.

Acabei de terminar a Parte Um - que é crime puro. Agora vem o castigo. - A. Burgess.


O livro é dividido em três partes, tendo cada uma sete capítulos. A primeira descreve o tipo de vida que as gangues nadsats (que significa adolescente) têm a partir de situações vivenciadas pela própria gangue da qual Alex faz parte. A segunda narra o período na prisão e sob o tratamento Ludovico. Já a terceira preocupa-se em inserir Alex de volta à sociedade, agora como alguém perturbado pelo tratamento de choque.

Minhas impressões

O livro possui uma imersão totalmente peculiar, pois apresenta ao leitor uma sociedade e uma cidade que, apesar de poder ser qualquer uma - e o autor exemplifica citando uma junção de Nova York, Leningrado e Manchester -, é aterrorizada pela Juventude Moderna, adolescentes agressivos e maldosos que possuem o seu próprio vocabulário. Aqui, Burgess criou uma linguagem própria, algo como uma mistura entre o inglês e o russo. Sua intenção é explícita: causar um estranhamento que seja o alicerce de outro grande impacto: a grande crítica existente no livro.

Primeiro, a linguagem. Chamada de nadsat, ela é repleta de gírias, de rimas ritmadas e de termos russos acoplados ao inglês (ou ao português, no caso da tradução). Creio que se adaptar a palavras e gírias desconhecidas seja o único desafio do leitor. Porém, sendo parte da construção do livro, e algo totalmente intensional, a experiência dessa leitura é incrível. A editora Aleph optou por traduzir algumas das palavras, e a edição que li possui uma introdução explicando os critérios que eles levaram em conta no processo de tradução. Achei bacana, pois é o primeiro livro que vejo algo do tipo. Sempre que a linguagem é um fator extremamente importante na obra, fico imaginando como foi feita a tradução. E aqui o leitor fica sabendo do principal.

Há um glossário dos termos nadsat no final do livro, mas o leitor pode optar por dois caminhos: ou lê de acordo com o que o autor propôs (sem olhar o que as palavras nadsat significam), ou consulta o significado de cada uma no decorrer da leitura. Eu comecei o livro consultando a maioria delas, porém já no final da primeira parte larguei mão e não fui prejudicada: não é o objetivo do livro prejudicar o leitor que não consultar, pelo contrário. A sensação de estranhamento intrínseca à narrativa se intensifica.


O linguajar, tanto do filme como do livro (...) não é mero enfeite (...). Foi criado para transformar Laranja Mecânica, entre outras coisas, em uma cartilha sobre lavagem cerebral. Ao ler o livro ou assistir ao filme, você se verá, no final, de posse de um mínimo vocabulário russo - sem nenhum esforço, para sua surpresa. É assim que funciona a lavagem cerebral. - A. Burgess, 1972.

Agora, a crítica. Nota-se alguns fatores sociais em pauta na obra de Burgess. Há uma grande discussão acerca do sistema carcerário e de quão eficaz ele é quanto à reforma do criminoso. Percebe-se também que a adolescência e o amadurecimento são temas que devem vir à tona na cabeça do leitor: quanto da essência selvagem e ainda não condicionada pela sociedade está presente no ser humano que ainda não amadureceu, aqui no caso o adolescente? Começamos a narrativa de Laranja Mecânica presenciando um Alex totalmente entregue à vida adolescente da época, e somos testemunhas do seu amadurecimento. E a forma como ele amadureceu é a grande crítica do livro, pois coloca em voga o livre-arbítrio de cada um. Aqui, o autor expõe que não é natural ao crescimento do homem ser obrigado a não ter acesso a escolhas. Tenho para mim que nós aprendemos, sim, com as situações boas que nos acontecem, porém aprendemos muito mais com os nossos próprios erros, resultados de nossas próprias escolhas. 

Creio que o desejo de restringir o livre-arbítrio é o verdadeiro pecado contra o Espírito Santo. - A. Burgess, 1972.

O próprio nome Laranja Mecânica é estranho demais, o que o torna incrível como título desta obra que possui o estranhamento como ferramenta para transmitir uma mensagem. Mais incrível ainda é o que ele significa: seria a junção forçada de um organismo (com vida, que amadurece e é doce) com um mecanismo (frio e morto). Esta alegoria chamou a atenção do autor quando este ouviu um homem citando-a num pub londrino em meados da Segunda Guerra Mundial. É uma gíria cockney que ele guardou consigo e encontrou o uso ideal anos mais tarde, "era o único nome possível", Burgess chegou a dizer num ensaio em 1973.




Eu não assisti à famosa adaptação feita por Stanley Kubrick. Há cinco anos eu quase assisti, porém as cenas iniciais de violência me fizeram desistir. Isso porque eu era nova, talvez, pois a leitura do livro não me incomodou nesse aspecto. Pelo contrário, eu até achei necessária. Ainda continuo sem saber se terei estômago para assistir ao filme, que dizem que é mais visual do que o livro, porém já me convenceram a tentar novamente. O que digo é que talvez você, que teme se surpreender com as cenas de violência do livro, talvez se surpreenda é não se assustando tanto assim. Eu esperava por isso e por muito mais, então foi tranquilo para mim. Pensei até que fosse sofrer as náuseas do tratamento Ludovico ao ler, porém nada disso aconteceu.

Para mim, não foi prazer nenhum narrar atos de violência ao escrever o romance. Mergulhei em excessos, em caricaturas, até em um dialeto inventado, com o propósito de fazer a violência ser mais simbólica do que realista. (...) Leitores do meu livro talvez se lembrem de que o autor cuja esposa foi estuprada é o autor de uma obra chamada Laranja Mecânica. - A. Burgess, 1972.






O livro é narrado em primeira pessoa por Alex, o que nos dá uma visão ainda mais ácida sobre seus pensamentos e suas experiências. Creio que foi uma escolha muito feliz do autor, pois assim é mais fácil transmitir um ponto de vista atrelado a certa interpretação (ou seja, um ponto de vista parcial). 

A leitura é fácil (apesar da linguagem diferente, vá por mim, é super tranquila) e fluida, pois retrata os pensamentos do protagonista. Além disso, as características de cada personagem secundário são muito bem desenvolvidas - cada um tem o seu papel ali na história -, e a complexidade do Alex como o exemplo de ser humano é igualmente bem lapidada.

O livro é altamente "quotável".

A edição comemorativa de 50 anos da publicação do livro lançada pela editora Aleph é espetacular, para dizer o mínimo. Com capa dura, jacket (ou luva), ilustrações e material extra, é completa. Um ótimo volume para quem gosta da história ou para aqueles que gostam de saber mais sobre a obra. Ela inclui:

» Ilustrações exclusivas de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo.
» Trechos do livro restaurados pelo editor inglês.
» Notas culturais do editor.
» Artigos e ensaios escritos pelo autor, inéditos em língua portuguesa.
» Uma entrevista inédita com Anthony Burgess.
» Reprodução de seis páginas do manuscrito original, com anotações e ilustrações do autor.

Sobre o autor

John Anthony Burgess Wilson nasceu no dia 25 de fevereiro de 1917 em Manchester e morreu em 22 de novembro de 1993 em Londres. Ele foi escritor, compositor, tradutor e crítico. Parte de sua obra ainda permanece no anonimato, e é conhecida por forte sátira social. Burgess tinha como grande influência James Joyce, assim como Jacobson. Ele é conhecido sobretudo por Laranja Mecânica (1962), porém escreveu 33 romances, 25 obras de não ficção e duas auto-biografias.

Sou, por ofício, um romancista. Acredito tratar-se de um ofício inofensivo, ainda que não venha a ser considerado respeitável por alguns. Romancistas colocam palavras vulgares na boca de seus personagens e os descrevem fornicando e fazendo necessidades. Além disso, não é um ofício útil, como o de um carpinteiro ou de um confeiteiro. O romancista faz o tempo passar para você entre uma ação útil e outra; ajuda a preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência. É um mero recreador, um tipo de palhaço. Ele faz mímica e gestos grotescos; é patético ou cômico e, às vezes, os dois; ele faz malabarismo com palavras, como se estas fossem bolas coloridas.

Órfão de mãe, foi criado desde cedo pela tia e pela madrasta. Estudou literatura e língua inglesa da Universidade de Manchester, serviu seis anos ao exército inglês na Segunda Guerra Mundial e foi também professor. Em meados de 1959, foi diagnosticado erroneamente com uma doença fatal. Entrou num frenesi literário em busca de renda para a sua esposa, que acabou morrendo antes dele em 1968 de cirrose hepática.
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Laranja Mecânica (resenha escrita com fotos aqui e resenha em vídeo aqui) é daquelas obras literárias que todo mundo deveria ler algum dia na vida. E, pensando nisso, o blog Literature-se e a editora Aleph sortearão um exemplar capa dura de Laranja Mecânica, igualzinho ao da foto, para os leitores e seguidores do blog/canal. A edição é linda e completa, recheada de extras (como textos do autor, entrevista com ele, glossário, notas e até mesmo algumas páginas originais da obra), portanto creio que seria bacana um de vocês terem o livro na estante também :)

Para participar é super simples, basta seguir os requisitos obrigatórios abaixo.

» Ser inscrito no canal do blog no Youtube.um
» Ter um endereço de entrega aqui no Brasil.
» Preencher este formulário.

Mas você pode ter chances extras! Para cada item abaixo realizado, você pode preencher o formulário mais uma vez (leia bem: para cada item, um formulário enviado - ou seja, se seguiu cinco desses itens, poderá enviar seis formulários: o com os requisitos obrigatórios e mais um para cada extra).

» Comentar algo pertinente na resenha de Laranja Mecânica (no blog)
» Comentar algo pertinente na resenha de Laranja Mecânica (no Youtube)
» Tweetar sobre o sorteio com o link para este post. (quantas vezes quiser, mas com moderação e bom senso, sendo aceito apenas  por dia.)
» Seguir o twitter do blog.

Qualquer dúvida, não tenha medo preguiça: blogliterature-se@hotmail.com, lembrando que será ignorada a participação que não seguir corretamente todas as regras.
O sorteio será realizado no dia 15 de março, o sortudo terá 48 horas para responder ao e-mail e é a própria editora que fará o envio. Boa sorte :)
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21.2.14

Quando a Mell me convidou para escrever por aqui, uma das ideias que ela me sugeriu foi que eu escrevesse também sobre filmes baseados em livros. Como adaptações cinematográficas reúnem duas de minhas grandes paixões (livros e filmes), adorei a ideia e desde então fiquei pensando em como abordá-la por aqui. Para começar, decidi falar sobre três adaptações que me agradam bastante. Vamos lá?


Baseado na obra de L. Frank Baum, O Mágico de Oz é um musical que traz Judy Garland na pele de Dorothy Gale, uma garota que vive com os tios em uma fazenda no Kansas e que sonha com um mundo além do arco-íris, onde tudo será melhor. Um dia, um ciclone atinge a região e, Dorothy, sem conseguir chegar ao abrigo à tempo, entra dentro de casa, onde é atingida na cabeça; ao acordar, percebe que foi transportada - junto com sua casa e seu cãozinho Totó - para uma terra encantada chamada Oz. Com a sua chegada, Dorothy acidentalmente matou a Bruxa Malvada do Leste e libertou o povo dos Munchkins de seu domínio. Assustada com tudo o que aconteceu, a única coisa que a menina quer é poder voltar para casa e o único que pode ajudá-la é o maravilhoso mágico de Oz. Ao longo de suas aventuras por essa terra encantada, Dorothy irá encontrar amigos que se juntarão à ela em sua jornada e enfrentará os planos malignos da Bruxa Malvada do Oeste, que quer vingar a morte de sua irmã.

Em termos de acontecimentos, o filme assinado por Victor Fleming é bastante fiel à obra de Baum, apresentando poucas alterações que se mostraram úteis para o cinema daquela época, que vivia a chegada do Technicolor. Os cenários são bastante ricos em detalhes e cheio de cores vivas e bastante vibrantes. É realmente muito lindo. E as canções, apesar de não estarem no texto original do livro, só acrescentam à narrativa, deixando tudo mais lúdico e divertido. Destaques para Over the Rainbow, Follow The Yellow Brick Road e We're Off to See the Wizard. 



Ambientado no interior da Inglaterra do século XVIII, o filme traz a história das cinco irmãs Bennet: Jane, Elizabeth, Mary, Kitty e Lydia. Criadas de forma modesta, as moças sempre foram instruídas por sua mãe a respeito de como era importante arranjarem um bom casamento, tendo, dessa forma, um bom futuro garantido. Com a chegada do rico e solteiro Sr. Bingley à região - acompanhado de seu amigo, Sr. Darcy - , as expectativas da Sra. Bennet não poderiam ser mais altas. Enquanto Jane logo percebe que conquistará o coração de Sr. Bingley, Elizabeth - que sempre sonhou com uma vida marcada por algo além da dedicação a um marido - não suporta o esnobe Mr Darcy, com quem está sempre discutindo.

O filme de Joe Wright foi baseado na obra de mesmo título escrito por Jane Austen e traz Keira Knightley e Matthew McFayden no papel dos protagonistas. Com uma fotografia lindíssima, a adaptação faz bastante jus à obra de Jane Austen, capturando a atmosfera bucólica da região e as críticas feitas à sociedade da época. A trilha sonora também merece um destaque por aqui, já que, além de bela, combina muito com as paisagens campestres apresentadas no filme.


O filme é uma adaptação mais livre (?) da obra-prima de F. Scott Fitzgerald e traz a narrativa de Nick Carraway que, por conta de um novo emprego, muda-se para Long Island e se torna vizinho do misterioso e fascinante Jay Gatsby. Após ser convidado para uma festa na mansão de Gatsby, ambos se tornam amigos e Nick descobre que seu vizinho nutre uma antiga paixão por sua prima Daisy Buchanan. Decidido a ajudar o amigo a recuperar sua amada, Nick resolve reaproximar os dois, ignorando completamente o fato de ela ser casada com Tom, um milionário da região.

Dos três filmes da lista, acredito que este seja o que mais divide opiniões. Por ser dirigido por Baz Luhrman - conhecido por trazer uma visão mais "espalhafatosa" em seus filmes -, O Grande Gatsby tem um ritmo um tanto acelerado e meio frenético em algumas partes, o que difere bastante da narrativa de Fitzgerald, mais lenta e sempre muito trabalhada. Há também o fato de que, ao invés, de utilizar-se de clássicos do jazz para integrar a trilha sonora, o diretor optou por músicas mais modernas cantadas por artistas atuais, o que causa um certo estranhamento e é, a meu ver, o ponto mais negativo do filme (desculpem, mas não consegui aguentar Crazy in Love). 

Com esses "problemas" apontados, preciso dizer que, ainda assim, gosto bastante desse filme. Por mais que o ritmo seja um tanto acelerado, acho que combinou com as situações apresentadas na história original. O elenco também me agradou bastante; acho que Leonardo DiCaprio foi uma ótima escolha para interpretar o personagem título (ainda que seja anos mais velho que Gatsby), Tobey McGuire não fez feio na pele de Nick e Carey Mulligan, apesar de ser a que menos me impressionou no elenco, trouxe uma Daisy menos nojenta e chata que a original. O que é ótimo, pois a Daisy é insuportável, gente! Outro aspecto que merece ser citado é o cuidado da produção na escolha de figurinos e montagem de cenários; tudo ficou muito rico em detalhes, o que, além de agradar ao olhar, ajuda muito na hora de imergir na história.


Agora fiquei curiosa: quais são as adaptações de livros para filmes que vocês mais gostam? Quem se interessou por algum desses filmes pode aproveitar o fim de semana para assistir, né? Lembrando que sempre recomendo a leitura dos livros antes. Depois me contem o que acharam :)



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18.2.14

O mágico de Oz, escrito por L. Frank Baum

Editora: Zahar
Páginas: 256
ISBN: 9788537811344
"Quando estava na metade do caminho, ouviu-se um grito fortíssimo do vento e a casa sacudiu com tanta força que Dorothy perdeu o equilíbrio e caiu sentada no chão. E então uma coisa muito estranha aconteceu. A casa rodopiu duas ou três vezes e começou a levantar voo devagar, Dorothy teve a sensação de que subia no ar a bordo de um balão." Um ciclone atinge a casa onde Dorothy vive com os tios e ela e seu cachorro Totó são levados pela ventania e param na Terra de Oz. Por lá, Dorothy faz novos amigos - o Espantalha, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde -, encara perigos, vive histórias fantásticas e precisa enfrentar seus próprios medos. Depois de tantas aventuras, a menina descobre que seus Sapatos de Prata têm poderes mágicos e podem levá-la para qualquer parte. Mas não existe melhor lugar no mundo do que a própria casa. Um clássico indiscutível entre crianças, jovens e adultos.


O Mágico de Oz conta a história de Dorothy Gale, uma órfã que vivia numa fazenda do Kansas com seus tios e seu cachorro chamado Totó. Num dia habitualmente cinzento, um ciclone acaba por se centralizar bem sobre a casa de Dorothy. Enquanto seus tios conseguem entrar no porão que servia como abrigo para essas tempestades, Dorothy e seu cachorro se atrasam e ficam para trás, sendo levados por muito tempo pelos ares até chegarem na terra de Oz.

Quando ela chega lá, Glinda, que é a Bruxa Boa no Norte, lhe explica que ela matou a Bruxa Malvada do Leste ao aterrissar com sua casa em cima desta. É aí que Dorothy recebe os sapatinhos prateados mágicos desta bruxa. Além disso, Glinda lhe dá um beijo na testa para que ela ficasse segura durante suas aventuras em direção à Cidade das Esmeraldas, que é onde o mágico de Oz vive. E ela precisa encontrar esse todo poderoso mágico para pedir que ele lhe ajude a voltar para o Kansas.

A história quase todo mundo já sabe por antemão, mas para chegar à Cidade das Esmeraldas, Dorothy tem que seguir por uma estrada de tijolos amarelos na qual ela encontra outras três figuras incríveis: o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Covarde. E esses três personagens se juntam à Dorothy para também encontrar Oz e, cada um, pedir algo para ele: o Espantalho quer um cérebro para pensar como os homens, o Lenhador de Lata um coração para amar e o Leão Covarde quer coragem para ser o destemido Rei dos Animais.

A partir do encontro desses três personagens eles passam por diversas aventuras até a conclusão da história de cada um.


Esse livro faz parte da literatura infantil, porém ele é daqueles que tanto uma criança quanto um adulto conseguem ser atraídos pela história com uma mesma intensidade. E isso se deve sobretudo ao caráter alegórico do livro, pois muito ali quer dizer mais do que parece, ou possui vários significados.

Por exemplo: os amigos de Dorothy podem ser apenas um espantalho, um lenhador de lata e o leão covarde para as crianças, porém para os adultos eles passam a representar a Inteligência, a Bondade e a Coragem. Além disso, indicam os três reinos da natureza: o animal, o vegetal e o mineral. (leia outras interpretações desses personagens aqui).


E sobre esses três personagens existem muitas e muitas interpretações. Inclusive, é com o respaldo da existência deles que há a grande moral da história, que indica que todos nós somos mais do que imaginamos e que todos nos subestimamos (basicamente é essa a moral, porém dá para se aprofundar muito mais nela, eu que não quero soltar spoilers. Essa mensagem do livro é lindíssima e, se você que leu - ou não - quiser conversar sobre ela, estou com certeza à disposição).

Os personagens desse livro são incrivelmente bem construídos, fiquei admirada com a construção deles, pois se encaixa muito bem ao enredo e à conclusão do livro, e eu não poderia deixar de falar que a Dorothy é uma criança muito, mas muito, determinada e forte psicologicamente falando. Ela, inclusive, foi apontada por feministas como uma das primeiras personagens de cunho feminista da literatura infantil (o que eu duvido um pouco, já que o Baum costumava ironizar a "Nova Mulher", as feministas de sua época).


Oz é praticamente um retângulo e cada área dele possui uma cor própria que, apesar de não ter nenhuma simbologia, segue a lógica da teoria das cores (sabe aquela que a gente aprende na escola, com o círculo de cores e tudo?): por exemplo, no centro está a Cidade das Esmeraldas, mas entre a Cidade das Esmeraldas (porque lá tudo é verde) estão a terra azul dos Munchkins e a terra amarela dos Winkies. E isso porque a preferência de cor é única.


Inclusive, chega ao cúmulo de na Cidade das Esmeraldas todos terem de usar um óculos de lente verde, enxergando, portanto, tudo verde. E nisso há a crítica difundida de uma certa alienação da população, que enxerga como o mágico de Oz (que é quem comenda a Cidade) quer.

Muita gente tenta encontrar um significado para Baum ter nomeado a terra que criou como Oz. E as teorias são muito engraçadas. A mais comum e simplória é a de que ele tinha uma gaveta arquivada de "o" à "z", e, juntando, ele formou "Oz". Algumas pessoas não acreditam nisso, assim como outras não acreditam que tenha vindo de "Boz", o apelido de Charles Dickens.

A edição comentada da Zahar possui "Apresentação", "Prefácio", notas de rodapé, as ilustrações originais e uma cronologia do autor. Indico essa edição super completa a todos.

A intenção declarada do autor era de deixar de fora "o sofrimentos e pesadelos", e o leitor realmente percebe isso. Apesar de existirem bruxas más e enrascadas, a leitura em momento algum deixa o leitor triste ou com um sentimento ruim. E isso é uma grande qualidade do livro, tanto por ser infantil, quanto por conseguir transmitir muito bem a sua mensagem sem abordar violência ou algo do tipo, como acontece, por exemplo, nos contos dos irmãos Grimm ou do Andersen.

Outra coisa bacana é que o autor já publicou um livro inteirinho sobre o Brasil, que foi um romance de aventuras chamado The Fate of a Crown. Não tem nada traduzido, pelo jeito, até porque não encontrei artigo nenhum em português na internet, porém eu entendi que a história apresenta um comerciante norte-americano que se envolve com um brasileiro republicano na época do Segundo Império. Disso surgem diversas aventuras envolvendo política e, inclusive, o norte-americano passa por cidades como o Rio de Janeiro e Cuiabá. Fiquei surpresa quando descobri sobre esse livro, pois retrata uma época de que gosto bastante, o nosso Império e a sua decadência. E o próprio fato do protagonista norte-americano se devotar ao brasileiro republicano (porque isso acaba acontecendo) é muito verossímil, porque é natural um norte-americano, como Baum, simpatizar com o republicanismo. 

Oz possui muitas, mas muitas mesmo, histórias além dessa. É, na realidade, uma série, e Baum escreveu 14 livros sobre Oz. As histórias renderam muito dinheiro ao escritor, pois ela se tornou um sucesso até mesmo na época dele. Inclusive, ele tinha a intenção de comprar uma ilhota e construir, nela, um parque de diversões de Oz.



Conhecer o filme de 1939 (o mais conhecido de todas as adaptações já feitas da história) foi muito bacana, principalmente comparando o livro a ele.

O começo do livro narra um pouco sobre como é a vida de Dorothy ali na fazenda, e a principal adjetivação ali é a palavra "cinza". O autor descreve tudo o que envolve Dorothy como sendo de um tom cinza, o que podemos interpretar como monotonia e tristeza, até. No filme de 1939, eles retrataram todo o começo ali na fazenda em tons de sépia. Achei bacana, mas creio que o "preto e branco" ficaria mais bonito e mais fiel ao livro.

O livro é altamente "quotável" ;)
Detalhe fofo do Totó na lombada
Os sapatinhos de rubi da Dorothy no filme na realidade são prateados no livro. Há essa diferença por conta da técnica que usaram ao produzir o filme, que é o tecnicolor. Eles acharam que o vermelho destacaria mais sobre a estrada de tijolos amarelos do que o prata, o que é verdade.

Outra acomodação que fizeram no filme foi trocar o nome de Lenhador de Lata por Homem de lata, simplesmente para reduzir o nome. Por ser um musical talvez um nome mais curto seja a melhor opção para o canto.




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17.2.14

A Última Carta de Amor, por Jojo Moyes

Editora: Intrínseca
Páginas: 381
ISBN: 9788580571738 
Londres, 1960. Ao acordar em um hospital após um acidente de carro, Jennifer Stirling não consegue se lembrar de nada. Novamente em casa, com o marido, ela tenta sem sucesso recuperar a memória de sua antiga vida. Por mais que todos à sua volta pareçam atenciosos e amáveis, Jennifer sente que alguma coisa está faltando. É então que ela descobre uma série de cartas de amor escondidas, endereçadas a ela e assinadas apenas por “B”, e percebe que não só estava vivendo um romance fora do casamento como também parecia disposta a arriscar tudo para ficar com seu amante.
Quatro décadas depois, a jornalista Ellie Haworth encontra uma dessas cartas endereçadas a Jennifer durante uma pesquisa nos arquivos do jornal em que trabalha. Obcecada pela ideia de reunir os protagonistas desse amor proibido — em parte por estar ela mesma envolvida com um homem casado —, Ellie começa a procurar por “B”, e nem desconfia que, ao fazer isso, talvez encontre uma solução para os problemas de seu próprio relacionamento.
Com personagens realísticos complexos e uma trama bem-elaborada, A última carta de amor entrelaça as histórias de paixão, adultério e perda de Ellie e Jennifer. Um livro comovente e irremediavelmente romântico.

O livro traz duas histórias que se desenrolam ao longo de quase quarenta anos. Ellie é uma jornalista de vinte e poucos anos que enfrenta uma situação complicada: está em um relacionamento com um homem casado. Apesar de todos os seus amigos lhe dizerem que tudo não passa de um passatempo, Ellie acredita que seu amante irá abandonar a sua esposa para ficar com ela. A relação consome e ocupa tanto espaço em sua vida que a jovem passa a negligenciar seu lado profissional, não comparecendo à reuniões de pauta e deixando de sugerir matérias. Ao se dar conta disso, Ellie decide impressionar a sua chefe e se provar capaz de ocupar o seu espaço no jornal.

Para desenvolver uma reportagem sobre as diferenças entre os anos 1950 e a atualidade, Ellie vai até o arquivo do jornal em que trabalha à procura de reportagens que evidenciassem o comportamento da sociedade no passado e acaba encontrando uma carta. Na verdade, uma carta escrita por um homem à sua amada, pedindo-lhe que, se ainda o amasse, que o fosse encontrar no local e na hora indicados por escrito. Curiosa a respeito do paradeiro daquelas pessoas e sobre o destino que tiveram, Ellie resolve investigar o assunto e transformá-lo em uma reportagem. Com a ajuda de Rory, um rapaz que trabalha no arquivo, a jornalista começa a juntar as peças de uma conturbada história de amor.

Paralelamente, o leitor acompanha também a história de Jennifer, uma mulher que, após sofrer um acidente de carro, acorda em um hospital sem nenhuma memória recente a respeito de sua vida. Aos poucos e com a ajuda de familiares e amigos, Jennifer começa a descobrir quem é: casada com um homem muito rico, é bastante influente na alta sociedade da qual faz parte e é conhecida por sua beleza e por suas festas. Desconfiada das pessoas ao seu redor, suas lembranças começam a ficar ainda mais confusas quando encontra uma carta de amor escondida em seu armário; uma carta que não fora escrita por seu marido.



O livro é dividido em três partes, que são narradas de diferentes pontos de vista (ao todo são quatro) e de forma não-linear; estes dois aspectos contribuem bastante para aguçar a curiosidade do leitor e, ao mesmo tempo, mantê-lo preso à leitura.

Serei sincera, até o fim da primeira parte não me senti muito atraída pelo enredo. Atribuo este fato à narrativa de Jojo Moyes que é muito cinematográfica (cheia de expressões que indicam que as ocorrem no presente; exemplos: "ela chega", "ela entra e abre o envelope") e que, às vezes, parece estar implorando para que a história seja adaptada para a telona.

Outro problema que encontrei em algumas partes da narrativa foi o excesso de descrição desnecessária, como, por exemplo, um parágrafo para explicar o ato de colocar chá em uma xícara. Isso não acontece com frequência, mas durante as poucas partes em que ocorreu, fiquei bastante incomodada. Passada esta primeira impressão, as coisas começaram a melhorar e, de repente, não conseguia abandonar a leitura. O que mais me chamou atenção foi o elenco de personagens bem desenvolvidos e bastante críveis. Adorei cada um deles, até aqueles que poderiam ser chamados de "os vilões da história".

De uma forma geral, é uma história muito bonita e bastante envolvente, do tipo que faz o leitor torcer pela felicidade de alguns personagens e ficar feliz com as desventuras nas vidas de outros. É uma leitura que recomendo principalmente àqueles que gostam de uma boa história de amor cheia de suspiros.





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12.2.14

(Imagem: Aqui)
Não sei se sentiram a falta dessa coluna domingo passado. O fato é que decidi passá-la para quarta-feita (ou terça-feira, estou pensando no caso ainda rs) por abordar assuntos mais leves e rápidos, assim não tenho que ficar tanto tempo durante a semana em frente ao computador, e vocês aproveitam algo mais cotidiano durante o dia corrido, o que acham? Domingos daí ficam para resenhas, que são mais longas e demandam um tempo de leitura maior (porque, espero, as pessoas leem todo o post, ou pelo menos parte dele).

A Culpa é das Estrelas é uma leitura de janeiro que ainda não compartilhei com vocês (leia-se: ainda não fiz resenha nenhuma), mas sempre quis trazer três quotes muito bacanas dele.

Os verdadeiros heróis, no fim das contas, não são as pessoas que realizam certas coisas; os verdadeiros heróis são aqueles que REPARAM nas coisas. O cara que inventou a vacina contra varíola não inventou nada, na verdade. Ele só reparou que as pessoas que tinham varíola bovina não pegavam varíola.

Meus pensamentos são estrelas que não consigo arrumar em constelações.

- Tipo: você coloca a coisa que mata entre os dentes, mas não dá a ela o poder de completar o serviço.
- É uma metáfora - falei, hesitante.
Mamãe esperava, quieta.
- É uma metáfora - ele repetiu.
- Você determina seu comportamento com base nas ressonâncias metafóricas...
- Ah, é. - Ele sorriu. O sorriso largo, meio bobo e sincero. - Sou um grande adepto da metáfora, Hazel Grace.

O livro possui muitas sutilezas que indicam alguma crítica do autor. Poucas, confesso, mas essas já me conquistaram. Sempre odiei o cigarro e tenho para mim o ato de fumar algo ignorante, egoísta e auto-destruidor. O autor soube trabalhar com essa questão de maneira tão agressiva e bela, simplesmente adorei.


E vocês, já leram o livro? O que acharam dele?

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9.2.14


 A Menina Que Roubava Livros, por Markus Zusak.

Editora: Intrínseca.
Páginas: 480.
ISBN: 9788598078175
A trajetória de Liesel Meminger é contada por uma narradora mórbida, surpreendentemente simpática. Ao perceber que a pequena ladra de livros lhe escapa, a Morte afeiçoa-se à menina e rastreia suas pegadas de 1939 a 1943. Traços de uma sobrevivente: a mãe comunista, perseguida pelo nazismo, envia Liesel e o irmão para o subúrbio pobre de uma cidade alemã, onde um casal se dispõe a adotá-los por dinheiro. O garoto morre no trajeto e é enterrado por um coveiro que deixa cair um livro na neve. É o primeiro de uma série que a menina vai surrupiar ao longo dos anos. O único vínculo com a família é esta obra, que ela ainda não sabe ler.
Assombrada por pesadelos, ela compensa o medo e a solidão das noites com a conivência do pai adotivo, um pintor de parede bonachão que lhe dá lições de leitura. Alfabetizada sob vistas grossas da madrasta, Liesel canaliza urgências para a literatura. Em tempos de livros incendiados, ela os furta, ou os lê na biblioteca do prefeito da cidade.
A vida ao redor é a pseudo-realidade criada em torno do culto a Hitler na Segunda Guerra. Ela assiste à eufórica celebração do aniversário do Führer pela vizinhança. Teme a dona da loja da esquina, colaboradora do Terceiro Reich. Faz amizade com um garoto obrigado a integrar a Juventude Hitlerista. E ajuda o pai a esconder no porão um judeu que escreve livros artesanais para contar a sua parte naquela História. A Morte, perplexa diante da violência humana, dá um tom leve e divertido à narrativa deste duro confronto entre a infância perdida e a crueldade do mundo adulto, um sucesso absoluto - e raro - de crítica e público.

Sobre o que se trata?

Liesel Meminger é uma garotinha alemã filha de uma mãe considerada comunista que, por intermédio do governo, é destinada à adoção. A caminho de Molching, onde mora a sua nova família, ela perde seu irmão caçula e tem a sua vida abalada pela Morte. Porém, encontra um consolo ao roubar o livro do coveiro do enterro de seu irmão. Chegando à sua nova vida junto a seus novos pais, Liesel terá que superar mágoas passadas, ao mesmo tempo em que aprende perigosamente sobre a sua situação - ou sobre a situação de todos ao seu redor: A Segunda Guerra Mundial permeia todo o contexto social de Molching, mesmo a cidade não sendo o centro das atenções da guerra.

Em meio a novos sentimentos causados pela súbita perda de dois entes queridos - e pela obrigação de se aproximar de outros dois novos -, pelo cotidiano permeado por uma educação nazista, por acontecimentos desumanos em relação a judeus e por travessuras infantis que, sim, também fizeram parte de seu crescimento, a menina que roubava livros enfrenta um amadurecimento como testemunha de uma guerra cruel. E sempre auxiliada pelo amor às palavras e pelos seus livros roubados (ou não).

Minhas impressões

O enredo do livro não é bem definido, do tipo que dá para ser descrito em poucas palavras (ou mesmo somente descrito, já que só de se tentar essa proeza, spoilers cegariam o leitor desta humilde resenha), pois o livro é construído sobre pilares muito singelos:

Personagens singelos: Eles são civis, em sua maioria. E esta maioria nos desperta sentimentos de pena e de tristeza, pois demonstra para o leitor que são pessoas como nós, porém vivenciando um contexto histórico opressivo do qual não podem fugir. Não tem como não amar os pais adotivos de Liesel, Rosa e Hans Hubermann, por mais normais que sejam, pois qualquer relação afetuosa já se destaca. E Hans consegue ser um pai maravilhoso e, acima de tudo, amoroso e compreensivo. Quase não há palavras para descrever o laço familiar que o autor constrói entre Liesel e Hans. Qualquer descrição é rasa e injusta. Os sentimentos despertados aí são complexos demais. Rudy é aquele "amigo-colorido" de uma fidelidade incrivelmente digna e humana. Apesar de ser um romance infantil e ingênuo, supera a expectativa do leitor. Já Max, o judeu que Hans esconde em seu porão, tornou-se, para mim, o irmão que Liesel perdeu, o que por si só já explica a carga sentimental que envolve essa relação.

Escrita singela: Apesar do autor brincar com as palavras (quase chegando a um concretismo cheio de peripécias), o modo como ele narra é tão bonito e leve, que muitas vezes torna-se poético. A perspectiva da Morte junto das memórias de uma criança é o que transforma esta escrita singela. Aqui, o conteúdo se sobrepõe à escrita (ou são apenas aliados que tornam o livro essa obra maravilhosa?).

História singela: O livro narra acontecimentos episódicos, transmitindo ao leitor detalhes de uma vida ingênua dentro de uma guerra cruel e destruidora. O cotidiano presente no livro serve para mascarar a profundidade existente no contexto de quem vivia naquela época (até mesmo dos alemães), sendo um poço repleto de outras intenções - o autor quis transmitir ao leitor o quão terrível foi a guerra, até mesmo para uma criança que vivia afastada do centro dela. Ou seja, o livro foge do comum (afinal, o que mais existe são livros que narram sobre judeus e o que eles viveram durante o período, não sobre crianças alemãs).

A importância dos livros e das palavras foi inserida de maneira belíssima na história. Desde cedo, e até antes mesmo de aprender a ler e a escrever, Liesel sente uma atração extrema por livros. E com o passar da história, fica claro ao leitor que esta paixão da menina funciona como uma válvula de escape da monotonia, e até como algo maior - que não vou entrar em detalhes, pois envolve o final (mas adianto que é maravilhoso).

Por último, deixo meu apelo àquelas pessoas que abandonaram o livro. Eu mesma dei cinco chances à ele. Só fui conseguir me envolver na singeleza dele na quinta vez que o li, pois a escrita e a história só começam a encantar o leitor depois da página 100, 150, pois o começo é um tanto quanto parado, algo como o relato da adaptação de Liesel à sua nova vida. Sei que muitos não conseguiram continuar com a leitura (segundo o Skoob, 9733 pessoas abandonaram o livro), assim como aconteceu comigo mesma. Ganhei o livro assim que foi publicado aqui no Brasil, em 2007, e só fui concluir a leitura dele este ano. Ou seja, foram longos sete anos. E digo que valeu a pena dar todas essas chances. Este livro é um dos meus preferidos de toda a vida.

Agora, para quem está se perguntando o que eu achei da adaptação cinematográfica, vou apenas me ater a breves comentários no vídeo-resenha que fiz do livro lá no canal do blog no Youtube. São 15 minutos comentando sobre o livro e 5 sobre o que achei do filme...

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