31.1.14

Resenha: Viagem Sentimental ao Japão

Viagem Sentimental ao Japão, por Paula Bajer Fernandes.
Editora: Apicuri.
Páginas: 235
ISBN: 9788561022945

Há quem fale de livros sem nunca tê-los lido. Há quem fale de viagens sem nunca tê-las feito. A mentira é o alimento das relações humanas, e não poderia ser diferente com a personagem deste intrigante romance de formação: Anette é uma fugitiva obstinada – não das autoridades policiais, mas de algo bem mais severo. Ela viaja para fugir de si mesma. Faz isso sem nunca levantar da sua mesa, em uma agência de viagens. Mente com perfeição e se exibe como uma viajante verossímil. Nova York, Paris, Roma, não importa. Ela inventa e convence que já visitou inúmeros lugares possíveis e imagináveis, fornecendo seus detalhes operacionais e turísticos, tranquilizando qualquer cliente. Nômade unicamente na fantasia, a protagonista terá suas estruturas abaladas com a chegada de um inusitado cliente que deseja viajar ao Japão, região pela qual ela nutre grande admiração e à qual evidentemente jamais ousou ir. 


Viagem Sentimental ao Japão conta a história de Anette que, de repente, precisa arranjar um emprego a pedido de seu pai. Aos 27 anos, formada em Letras e sem nenhum registro em sua carteira de trabalho (até desconfio de que ela não tinha uma antes disso), encontra uma vaga numa agência de turismo e acaba sendo aceita no emprego pelo chefe de nome Marcos Paulo (ou seria Marco Polo? Na imaginação fértil de Anette essa comparação surgiu rapidamente) depois de dizer que viajou o mundo todo. Só que... Ela tem é medo de viajar, e só visitou Santos, sendo que avião estava fora de cogitação.

Porém, Anette é muito inteligente e vive lendo literatura de viagens (até se especializou nisso na faculdade), o que lhe dá um alicerce vívido para suas mentiras, pois o que ela passa a narrar de suas imaginárias viagens convence a todos. 

Tudo muda em sua vida quando um cliente aparece na agência pedindo um roteiro para o Japão. Justo  o Japão, que é o seu fraco, um sonho para ela. Um sonho justamente inalcançável, já que seu receio de viajar a impede de ir muito longe dali. Em meio a planos para lugares exóticos, acontecimentos lúgubres e mais viagens de mentirinhas, Anette viajará pelo mundo em sua própria cabeça ao mesmo tempo que se auto-descobre e reflete a respeito de seus próprios medos. Será que ela conseguirá destruir suas próprias barreiras e conhecer o Japão?


Eu tenho esse livro não apenas como um romance sobre uma trintona que mente para conseguir um emprego. Viagem Sentimental ao Japão é muito mais do que isso. Ele ultrapassa o que é comum na literatura (sobretudo os chick-lits), pois ele alcança o patamar do psicológico. O que o leitor faz durante a leitura é acompanhar as divagações da personagem principal e, apesar de não perceber no começo, servir de testemunha para o amadurecimento de Anette. Por isso, tenho essa história como um caso lúcido de superação.

A escrita da Paula Bajer é a característica que mais se destaca do livro, pois ela usa muitos pontos finais e frases curtas, imprimindo à experiência da leitura um ritmo gostoso e um tom de conversa. Em alguns momentos, torna-se até poética. Outro ponto bacana da história é que Anette transmite ao leitor um pouco de seu conhecimento sobre literatura de viagens, citando bastante várias obras gloriosas desse gênero, como As viagens de Gulliver.

O livro tem poucos personagens (até porque Anette não possui amigos), mas a personagem principal rouba/roubaria a cena de qualquer outro personagem, pois me identifiquei muito com ela. Além disso, ela é carismática, engraçada e nada sutil. Gosto da realidade que há por detrás de sua construção, pois não me agrada tanto os personagens malucos e fora da realidade (leia-se Becky Bloom).

Apesar do desenrolar do livro e do próprio título dele passar a impressão de que haverá romance na história, Anette em momento algum se envolve de modo romântico com uma outra pessoa, o que me surpreendeu bastante. Gosto do livro como um todo, pois o final dele nos deixa imaginando que Anette mudará sua vida diante da mudança por que passou, inclusive transformando a sua postura frente às amizades e aos romances.

A diagramação é realmente muito benfeita. A capa é linda e se encaixa perfeitamente à história: retrata o lado criativo e os receios de Anette (pois as imagens aludem a viagens e a cidades imaginárias através de tons vibrantes e coloridos e também através de tons escuros e frios). O título possui uma explicação, e é intrínseco a algo muito bem trabalhado: as viagens que ler nos proporciona (não somente viagens a lugares, como qualquer outro tipo de "viagem").

Os dois únicos pontos do livro que posso fazer ressalvas são o ritmo um pouco parado (por ser algo mais psicológico, mais como um monólogo da personagem principal, já que o narrador é em primeira pessoa) e a repetição de alguns pensamentos da personagem, como se ela estivesse querendo incutir certas afirmações na sua cabeça (segundo Goebbels, "Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade")

Por isso, indico este livro para quem gosta de leituras diferentes, agradáveis e que transmitem mensagens de superação. É um livro que me tocou bastante, tornando-se uma das minhas leituras preferidas desse mês, provavelmente a preferida.

10 comentários:

  1. Amei a capa, a sinopse e suas impressões. Parece ser um livro bem diferente e interessante. Fiquei com vontade de conhecer a história da Anette.

    Beijão
    Sun Rises Here

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  2. Oi Mell! Não tinha ouvido ainda falar desse livro, mas depois de tudo o que você disse, fiquei bem curiosa para lê-lo!

    Beijo enorme,
    May :*
    {tagarelando.net}

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  3. Uow, que lindo! A capa colorida toda ~psicodélica~ já me chamou atenção de cara, haha.
    O nome também é muito gracinha. E agora, depois da sua resenha, entendi que tem tudo a ver com Anette. Que coisa linda parece ser essa história (principalmente se tiver um final feliz pra ela hehe). <3
    O fato de se tratar sobre viagens e leitura também me encanta, e também adoro personagens assim fora do comum, rs. :)

    Sua resenha arrasa como sempre Mellzinha. *-*
    Beijo grande!
    Ju
    www.nuvemliteraria.com

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  4. Oi, Mel! Nossa AMEI essa capa! Sério!

    E a história me pareceu MUITO interessante. Sendo nacional, então, sempre acho válido dar uma atenção e carinho especiais para os nacionais. Tem muita coisa boa espalhada e oculta por aí de nossos escritores ;)

    Fato que esse livro já foi para lista de desejados!

    Beijoos
    Um Metro e Meio de Livros

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  5. Oi, Mell!

    Eu assisti ao vídeo onde você comentou sobre esse livro e agora passei por aqui pra conferir a resenha escrita. Confesso que o título não me chamaria atenção não, mas pelo o que você falou no vídeo eu fiquei interessada. Quando você diz que é um livro muito 'psicológico', isso despertou o meu interesse. Gosto disso. Quando no decorrer da história conseguimos acompanhar o amadurecimento da personagem.

    Isso dos pontos finais também era algo presente em um livro que li recentemente, Clube da Luta. Isso dá um ritmo bom pra leitura mesmo.

    É muito bom quando nos identificamos com a personagem. A leitura fica tão íntima, né? Adorei a resenha, Mell. E achei muito interessante a análise/conclusão que você citou em relação a capa do livro.

    Beijos!
    Ps: não sei se te falei (ou se você já viu rs), mas coloquei no banner do seu blog na nossa página de blogs parceiros. Nessa página ficam os blogs que eu gosto e tento visitar com frequência. Não é nada de troca de banners, espero que não tenha problema ter te linkado lá. :)

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  6. Oi, Mell!

    Eu assisti ao vídeo onde você comentou sobre esse livro e agora passei por aqui pra conferir a resenha escrita. Confesso que o título não me chamaria atenção não, mas pelo o que você falou no vídeo eu fiquei interessada. Quando você diz que é um livro muito 'psicológico', isso despertou o meu interesse. Gosto disso. Quando no decorrer da história conseguimos acompanhar o amadurecimento da personagem.

    Isso dos pontos finais também era algo presente em um livro que li recentemente, Clube da Luta. Isso dá um ritmo bom pra leitura mesmo.

    É muito bom quando nos identificamos com a personagem. A leitura fica tão íntima, né? Adorei a resenha, Mell. E achei muito interessante a análise/conclusão que você citou em relação a capa do livro.

    Beijos!
    Ps: não sei se te falei (ou se você já viu rs), mas coloquei no banner do seu blog na nossa página de blogs parceiros. Nessa página ficam os blogs que eu gosto e tento visitar com frequência. Não é nada de troca de banners, espero que não tenha problema ter te linkado lá. :)

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  7. Mell, você se superou nessa resenha. Perfeitamente escrita! Parabéns.
    Eu amo livros que mexam com o psicológico (já comentei isso?) e o fato de acompanharmos o amadurecimento da personagem me deixou absurdamente interessada na leitura.
    Acho que no fundo, todos mentimos para nós mesmos em alguns momentos da vida, até como uma forma de auto preservação, mas quando essas mentirinhas se tornam maiores que as verdade, o caminho é perigoso.
    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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  8. Adoro livros que "puxam mais" para o lado psicológico! Não conhecia essa história, nem sua respectiva capa linda!

    Vi seu vídeo de livros que você recebeu de parcerias e as parcerias que vc fechou com o blog, parabéns!! Fiquei morrendo de inveja (no bom sentido, vc recebeu livros lindos demais!).

    Bjs

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  9. Eu não tinha me interessado muito pelo livro ao ler o título, mas depois de ler sua resenha, mudei de opinião. Parece mesmo ser muito bom e com certeza pretendo ler.
    Beijos.

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  10. Mell, mais uma vez você me deixa com vontade de ler um livro. Normalmente, não leio esse tipo de livro, mas não é porque eu não goste, é simplesmente porque...não leio. Vai entender.
    Mas, esse ano ando tão sem paciência para o que eu normalmente leio que estou a fim de ler outros tipos de livros e esse me parece bem interessante, justamente por ser uma história mais psicológica e sobre amadurecimento de personagens. Vou adicionar à minha interminável wishlist literária :)

    Ótima resenha :)

    Beijos

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