4.12.13

Resenha: O mundo de Sofia

O mundo de Sofia, escrito por Jostein Gaarder.

Editora: Companhia das letras
Páginas: 549
ISBN: 9788571644755
Cartas anônimas começam a chegar à caixa de correio da menina Sofia. Elas trazem perguntas sobre a existência e o entendimento da realidade. Por meio de um thriller emocionante, Gaarder conta a história da filosofia, dos pré-socráticos aos pós-modernos, de maneira acessível a todas as idades.

Sobre o que se trata?

Sofia Amundsen é uma norueguesa de apenas 14 anos. Na véspera de seu aniversário, ela começa a receber correspondências um tanto quanto estranhas: a partir de então ela passa a ter  lições de filosofia por cartas, vídeos, conversas e bilhetes. Mais tarde ela descobre que Alberto Knox, um senhor muito peculiar, é que é o autor de tal curso filosófico, e ele passa a ser o seu professor. Mas o mais estranho na vida de Sofia não é a existência de Alberto e do curso de filosofia, mas sim os cartões postais que começa a receber do Líbano, só que endereçados a uma certa Hilde Knag, pessoa totalmente desconhecida para Sofia. E tais cartões vão ficando, à medida que a leitura transcorre, cada vez mais misteriosos e curiosos: parece que todos têm uma conexão com Sofia, pois o remetente sempre citava a garota como sendo intermediária de tais correspondências...

Contando com um curso completo sobre a superfície da filosofia, Sofia aprende sobre os pensamentos da Antiguidade Clássica, da Idade Média, da época Moderna e da atualidade. Passa por Aristóteles, Santo Agostinho, Descartes, Kant, Marx e até Darwin!

E parece que esses dois núcleos se encaixam perfeitamente: a filosofia, que Sofia aprende com o passar dos dias, e o mistério acerca dos cartões postais. Mas como o Líbano pode estar associado à filosofia e à Sofia, sobretudo? 

Minha impressões

O mundo de Sofia me provocou sentimentos antagônicos: uma de suas partes, a filosofia, realmente cumpriu a sua proposta. A didática do autor é realmente muito boa, principalmente ao colocar uma matéria tão difícil (e até incompreensível) na perspectiva de aprendizado de uma garota e na forma de uma conversa "casual". Entre aspas porque aquilo tudo era premeditado por Alberto, porém foge dos habituais livros didáticos que amedrontam qualquer aluno.

Porém, a história secundária, a do mundo de Sofia, apesar de me prender pelo mistério até as últimas páginas (que é praticamente quando há uma revelação), não me cativou e muito menos me satisfez. Digo isso por dois motivos principais:

1: Eu não gostei do final. Esperava mais e algo um pouco mais racional. Sabe quando parece que o autor teve que correr com a explicação e, mais do que isso, inventar algo absurdo para poder encaixar? Não sei, possivelmente o final faça sentido para alguns, porém eu esperava algo muito mais genial e ligado à filosofia, como aconteceu com quase toda a história de Sofia durante o curso.

2: Percebi desde o começo que a química entre os diálogos de Sofia e de Alberto Knax é quase mínima. Parece mesmo que o autor escreveu primeiro o curso de filosofia, depois colocou na forma dos diálogos de Alberto e, finalmente, inseriu Sofia como interlocutora. Porém, tive a impressão de não haver tanta ligação entre a segunda parte (construção dos diálogos de Alberto a partir dos textos filosóficos) e a terceira (inserção da personagem Sofia entre os diálogos de Alberto): me sentia muito constrangida quando a Sofia falava/perguntava algo para Alberto e este não respondia, continuava falando sobre os pensamentos filosóficos. Realmente, parece uma relação mal trabalhada.

Mas o meu objetivo ao começar a ler esse livro era o de aprender filosofia acima de qualquer coisa. É claro que uma história envolvente e satisfatória teria feito eu gostar mais do livro como um todo. Entretanto, não fiquei tão decepcionada com ele, pois realmente me ensinou muita coisa e eu gostei da história secundária até as últimas páginas. Praticamente, somente o final é que estragou o livro. A premissa, no entanto, de um livro que ensine filosofia é cumprida com maestria e, se o leitor está mais interessado em aprender a matéria, sairá contente mesmo que não goste da história.

O que achei bacana é o fato de os sistemas filosóficos ficarem cada vez mais verossímeis e aceitáveis conforme são mais próximos do nosso tempo. Isso foi explicado logo depois que constatei, quando Sofia aprendeu sobre Hegel: o homem é fruto de seu tempo. Nossos pensamentos são impregnados pelo contexto histórico atual, por isso consideramos os pensamentos mais antigos absurdos (ou meramente rasos.)

Outra coisa muito interessante é a inserção (intertextualidade) de muitas outras personagens que conhecemos, como o Ursinho Pooh, a Alice no país das maravilhas, A Chapeuzinho Vermelho... A narrativa se tornou mais suave e engraçada.

Tenho esse livro há anos, comprei quando ainda existia Blockbuster aqui na minha cidade, então já se percebe que o livro ficou abandonado na prateleira por muitos anos. O porquê disso é pura e simplesmente a complexidade que ainda reside no fato de aprender filosofia, mesmo que sob uma forma mais cativante. Por conta desta dificuldade, comecei a ler o livro duas vezes quando mais nova e não consegui terminá-lo em ambas. Esse ano dei novamente mais uma chance em setembro, mas como o conteúdo ainda é maçante e reflexivo (no sentido de ter que parar de ler para poder pensar a respeito), li metade e parei, só terminando-o no mês passado, novembro. Então o que digo é, esteja preparado para uma leitura lenta, gradual, mas enriquecedora. Como diria Brás Cubas (personagem de Machado de Assis): "o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar".

Bônus: Leia o post que fiz sobre o livro: Quote da semana - O mundo de Sofia.

13 comentários:

  1. Oi Mallory lendo sua resenha me sinto até culpada de ter largado o livro ainda em suas primeiras páginas. Eu senti que a leitura seria lenta e massante e por isso abri mão de entender um pouco mais sobre filosofia. Não é um assunto que me agrada e a forma como foi abordada, mesmo com a tentativa do autor de tratar do assunto de forma casual e mais compreensível, não me prendeu.
    Talvez em um momento em que eu esteja mais madura, me sinta mais preparada.

    Beijos
    Caline
    mundo-de-papel1.blogspot.com.br

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    1. Este livro não agrada a todos, devo dizer isso. E dizer também que você deve procurar ler livros que te agradem, não persistir em algo que possivelmente te fará ter a sensação de perda de tempo, ou momentos ruins com a leitura. Leia o que te faz bem :)

      Beijos

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  2. Olá!
    Nossa, esse é um livro que sempre penso "preciso ler" e acabo nunca o pegando para começar a leitura.
    Achei interessante seu ponto de vista, porque, de fato, pelo que pude perceber ouvindo as pessoas falarem sobre ele, há controvérsias.
    Adoro filosofia, tenho que pensar em lê-lo logo!
    Beijos

    Meu Meio Devaneio

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    1. É daquele tipo "nunca tenho a oportunidade, mas sempre quis ler", né? Tenho váários nessa lista rs
      Sim, o livro divide muito os leitores. Tem uns que amam, outros que odeiam...
      Se gosta de filosofia deve dar um chance, tenho certeza que irá gostar. Mesmo que só pela parte "filosófica" dele :)
      Beijos

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  3. Eu não sei se leio esse livro. Vejo muitas opiniões diferentes sobre ele e acho que não faz muito o meu gosto.

    Blog Prefácio

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    1. Olha, essa era uma das minhas preocupações antes de lê-lo, viu? Mas também serviu para me deixar ainda mais curiosa e descobrir a minha opinião.
      Mas se não faz muito o seu estilo, acho que deveria ler livros que tenha mais certeza de que te agradará :)

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  4. Mell, tenho vontade de ler esse livro depois de ter estudado Filosofia na faculdade. Eu nunca havia gostado tanto da matéria até encontrar uma professora que realmente mudou minha forma de pensar. E que bom! Tenho o livro (ganhei este ano da minha avó), mas com a quantidade de afazeres da faculdade, não tive tempo nem de ler o que precisava para me manter em dia com as Editoras parceiras, então acho que você já imagina meu trabalho, rs.
    Gostei de ver sua opinião e gostei de saber que preciso estar preparada. Realmente é assim: você precisa estar preparado para ler algo. :P
    Beijos.

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    1. Ai, nem me fale, Babi! Fiquei com TANTO receio de começar a lê-lo justamente no mês mais crítico do vestibulando. Mas deu certo, foi super tranquilo e sem pressa. O problema mesmo é o trabalho, a faculdade, e as outras obrigações, como os livros de parcerias. Mas nada demais também, um dia você terá tempo para ele, e saberá apreciá-lo, ainda mais agora que já estudou a matéria :) Até porque tenho certeza de que está lendo livros incríveis, o dia desse chega ;)
      E, realmente, cada tipo de leitura exige um certo preparo inicial!
      Beijos

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  5. Interessante.
    Eu gosto muito de livros filosóficos, porém este ainda está na fila.
    Parece muito bom, e os diálogos devem ser legais.
    O que eu não imaginava é que era engraçado, juro, isso eu não sabia!
    Adorei!!

    Bjkas

    Lelê Tapias
    http://topensandoemler.blogspot.com.br/


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  6. Gostei muito da resenha. Ainda não consegui ler esse livro, mas o lerei em breve.

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  7. Gostei muito da forma que você escreveu a resenha! parabéns!!!

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  8. Mell, vi a resenha desse livro no seu blog e gostei do que li. Estou em busca de livros com conteúdo enriquecedor/ou formador de opinião e "O mundo de Sofia" fez com que eu me apaixonasse por filosofia. É um livro meio massante e demorei 1 mês e 1 semana para terminar a leitura. Eu adorei o mistério envolvido nele, pois achamos uma coisa que na verdade é totalmente diferente. Só o fim que é fraco, mas recomendo muito está leitura. Obrigada pela dica :D

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  9. O mundo de Sofia é meu livro favorito, apesar de, assim como vc, sentir q faltou algo no final, mas nao que este nao faça sentido. Tambem discordo de q nao ha empatia entre Sofia e Alberto, ha e muita! eles ficam cada vez mais próximos ao longo do livro,, ate o final, onde entendem p mundo onde estao. Para mim, e um livro redondo e maravilhoso.

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