16.7.12

Resenha: Til

Til, de José de Alencar.
Editora: Martin Claret
ISBN: 9788572328432
Páginas: 222



Publicada pela primeira vez em 1872, Til pertence, ao lado de O gaúcho, O sertanejo e O tronco do Ipê, ao regionalismo de José de Alencar e retrata o interior paulista. Nesse romance, a idealização da natureza, a narrativa leve e o subjetivismo da linguagem criam uma atmosfera suave, em que a inocência dos personagens centrais contrasta com a trama emaranhada e sanguinolenta. A beleza da natureza, tão valorizada e enaltecida pelos contemporâneos de Alencar, divide lugar com a brutalidade da realidade regional. Til é o apelido de Berta, moça “pequena, esbelta, ligeira, buliçosa” que se envolve nas mais intricadas tramas, sempre buscando ajudar os que precisam. Trata-se do ideal de heroína: doce, meiga, caridosa, mas também de coragem e impetuosidade únicas na literatura brasileira. Capaz de enfrentar jagunços, Berta não mede esforços ao buscar a realização de seus intentos. Violências, misté-rios e triângulos amorosos constituem esta complicada e bela história.


Primeiro de tudo, tentarei destruir a barreira que há diante de clássicos, principalmente os pedidos pela Fuvest.
Quando nos permitimos entreter pelo livro, pela história do autor e por toda a sua escrita, o que antes nos parecia chato e monótono desvenda-se belo e muito bem esculpido.
Antes de tudo, quando se vai ler livros desse tipo, você precisa derrubar aquele preconceito cultural que carrega do seu tempo, de seus costumes e de seus ideais. O que estamos lendo, principalmente quando histórias antigas, dificilmente terão as mesmas características do que vivenciamos hoje. Depois, precisa se adequar ao movimento literário ao qual se encaixa o livro, ou ainda ao contexto de escrita em que o autor estava inserido.

Somente assim poderá apreciar esse tipo de leitura tão rica em conhecimento e cultura (e isso inclui apreciar mesmo que de forma crítica e negativa). 


Resenha:                                                                                                                                                     
Til é um livro bem lapidado, com seu propósito encaixado ao Romantismo, com uma escrita primorosa (e complicada, sim, pois o contexto é outro, lembra-se? E afinal, o que é fácil e que nos proporciona intensa cultura? Até mesmo conhecer bandas e suas discografias, seus ideais, é difícil!), personagens física e psicologicamente muito bem trabalhadas e um enredo verossímil que prende a atenção e a curiosidade do leitor.


Trata-se de um  ambiente cheio de drama e segredos que será desvendado com o passar da narrativa. Tudo gira em torno da personagem principal, Berta, uma adolescente bonita e altruísta, de origem pouco conhecida por todos (e até por ela mesma), adotada por Nhá Tudinha, viúva e mãe de Miguel, o típico mocinho romanesco, um caipira. Vivem em Santa Bárbara, um vilarejo cortado pelo rio Piracicaba, na região de Campinas. Lá há a fazenda das Palmas, de grande importância regional e herdada por Luis Galvão, uma espécie de anti-herói, um personagem passivo na história que transcorre no momento presente. Ele é casado com dona Ermelinda, com quem teve gêmeos, Linda e Afonso, e divide a criação de seu sobrinho, um adolescente violento, emocionalmente instável e com distúrbios mentais chamado Brás. Os gêmeos são muito amigos de Berta e Miguel, com quem vivem juntos, brincando e partilhando momentos alegres e cheios de romances juvenis. 


Berta, ainda, cuida de uma velha negra enlouquecida que vive perto de onde mora, Zana, abandonada num mundo doentio que a garota sempre quisera descobrir; Também toma para si a difícil tarefa de tentar ensinar  algo a Brás, que vê na moça graça e a quem dá ouvidos. Aos poucos ela consegue lhe ensinar uma reza e a associação dos sons do alfabeto, um avanço lentíssimo, porém muito comemorado por ela. Vem daí o seu apelido, e também nome do romance: Til é o único acento que desperta em Brás um sentimento benéfico. Ele vê no sinal o símbolo da graciosidade e surpreendentemente o adora. Desse modo, Berta possui "uma inspiração" (palavras retiradas do livro): associa a si própria ao acento, e a partir daí pede ao garoto que a chame apenas pelo apelido, impelindo-o a um maior interesse pelo aprendizado.

Mas é em Jão Fera (o Bugre) que a análise psicológica (fato marcante do realismo machadiano) e o entretenimento do leitor se culminam. Um jagunço descrito como um matador de aluguel, a quem Alencar atribui características e, principalmente, atitudes animalescas (marcas de uma zoomorfização da personagem) e que desperta em Berta um sentimento confuso: não sente medo do homem, mas também fica horrorizada com sua maldade. Ele é a chave que abre as portas para o leitor descobrir todos os segredos por trás da origem de Berta, do vínculo dele e da garota com Luis Galvão e da intenção obstinada de Ribeiro (Barroso) em matar o fazendeiro.

Aspectos importantes do livro:                                                                                                                     
Narrador: em terceira pessoa e onisciente (que tudo vê, tudo sabe). Em vários momentos se intromete, interfere e aparece em primeira pessoa, comentando os fatos; Isto porque o livro foi primeiramente publicado em forma de folhetins (em jornais), sendo necessário, para o autor, retomar com o leitor capítulos antes lidos.


Tempo: o livro é dividido em duas partes. Na primeira há apenas o tempo presente da narrativa. Já na segunda parte há uma mescla entre flashbacks do tempo passado (capítulos que desvendam o mistério do drama) e capítulos do tempo presente.


Caraterísticas do movimento romântico são gritantes no livro: a natureza é reverenciada (em alguns pontos reflete os sentimentos das personagens), escrita poética e idealização de algumas personagens (principalmente as principais).

Classificado como romance regionalista, pois retrata os tipos, os costumes e o ambiente do interior (aqui, interior de São Paulo).

Quote:                                                                                                                                                          

A palavra é estreita para dar passagens às mágoas amassadas no coração, quando se arremessam no primeiro ímpeto e de um só jato. (pág. 181)


7 comentários:

  1. Adorei a resenha, ando lendo muita literatura brasileira ultimamente e recentemente fiz uma resenha de um livro de José de Alencar também, Lucíola. Só que, diferente de você, eu não coloco muitos detalhes da obra, como a que escola literária pertence, características da sociedade da época, pois como costumo fazer isso para as aulas de literatura, prefiro falar da história em si nas minhas resenhas. Mas gosto das suas resenhas bem detalhadas, são muito boas.
    Beijos
    chic-lisboa.blogspot.com

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  2. Li alguns livros do José de Alencar, mas nunca li esse. Gosto da maneira que ele escrevia. Amo Lucíola.
    Espero ter a oportunidade de ler Til.

    Beijos,

    Carissa
    http://artearoundtheworld.blogspot.com

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  3. Gostei muuuito da resenha! Quando for ler o livro já vou ter mais noção e tal. ^^ E concordo com você, é preciso saber sobre o contexto histórico de quando o livro foi escrito.
    Vai prestar vestibular pra que? :P

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  4. Nossa...Nossa...

    Adorei o seu blog e, principalmente sua resenha. Ficou Show! Estarei sempre por aqui!

    Beijos Beijos

    Lanny
    http://leituraeoutrostantos.blogspot.com

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  5. Oi Mellory!
    O blog Nadando em Livros presenteou você com um selo/meme!
    Confere lá: http://nadandoemlivros.blogspot.com.br/2012/07/selos.html
    Beijos!

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  6. Estou fazendo uma lista de clássicos para ler, porque acho importante conhecer um pouco sobre este tipo de literatura.
    Ainda não tinha visto nada sobre "Til", mas gostei dos comentários feitos por você.

    beeeijos,
    Jéssica

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  7. Estou fazendo uma lista dos clássicos que desejo ler, porque acho importante e interessante conhecê-los.
    Ainda não tinha visto ninguém falar sobre "Til", mas gostei dos comentários feitos por você.

    beeeijos,
    Jéssica

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