26.4.11

Resenha: Capitães da Areia

Capitães da Areia.
  • Autor: Jorge Amado.
  • ISBN: 9788535911695
  • Páginas: 282
  • Editora: Companhia das Letras

Publicado em 1937, pouco depois de implantado o Estado Novo, este livro teve a primeira edição apreendida e exemplares queimados em praça pública de Salvador por autoridades da ditadura. Em 1940, marcou época na vida literária brasileira, com nova edição, e a partir daí, sucederam-se as edições nacionais e em idiomas estrangeiros. A obra teve também adaptações para o rádio, teatro e cinema. Documento sobre a vida dos meninos abandonados nas ruas de Salvador, Jorge Amado a descreve em páginas carregadas de beleza, dramaticidade e lirismo.


O clássico conta a estória de uma grupo de marginais juvenis que usam do cais (mais precisamente o trapiche) como moradia e vivem de roubos, furtos, assaltos, entre outros crimes. O grupo é liderado por Pedro Bala, um jovem com lá seus quinze anos que tomou a liderança por meio de uma briga. Sua esperteza e astúcia lhe foram a favor, e essas eram as características que o destacava do grupo, além da coragem e um certo ar de superioridade.

Ao longo da narrativa, somos apresentados aos diversos personagens que compõem o grupo. O mais perceptível é a diferença existente entre todos os meninos. Aí percebemos que somente a pobreza os une. Nada mais. Pois enquanto um deseja entrar para o seminário, ser padre e largar de vez toda a vida de pecado em que está situado (Pirulito = devoto, cheio de imagens de santos e sempre rezando), outro parece mais é querer sentir o prazer da carne, das drogas e da vida boa (Gato = possui uma amante muito mais velha, trapaceia em jogos) sem sequer mover um dedo.

É de se espantar a fidelidade desses garotos para com o grupo. Eles pensam como uma família, em todos, num conjunto. Muitas vezes os vemos agindo não por proveito próprio, mas sim pelos "irmãos". Parte daquilo que conseguem através dos crimes não fica com eles, e sim para o grupo. Pedro Bala, o líder, é o que mais evidencia isso: está sempre pensando em todos, não somente nele, e sempre coloca as necessidades dos outros em primeiro lugar, como doenças, brigas, fome, entre outras situações.

É nesse ambiente de pura violência que o autor insere Dora e seu irmão, ambos órfãos e ainda muito jovens, entre os Capitães da Areia. Inicialmente, Dora é vista como um objeto qualquer de desejo sexual, pois os garotos estavam acostumados a usar de virgens sem dó nem piedade. É o desejo sexual que supera suas razões, atitudes que os aproximam de meros animais. Mas com o passar do tempo, e com uma certa dose de proteção, a garota começa a ser vista como uma mãe por todos (aliás, quase todos). Podemos ver claramente aí o que o autor quer nos dizer: esses jovens, apesar de marginais, são totalmente desprovidos de amor e carinho, e não é por conta do fato de viverem da violência que os tornam mais propensos a repelirem esses sentimentos - pelo contrário. Em toda a estória, em todos os perfis dos personagens, notamos a carência de amor. Todos eles buscam o amor, cada qual com sua forma. Todos necessitam de cuidados... E por isso Dora passa a ser vista como a mãezinha de todos; ela cuida, ensina, lava, coze, brinca etc., em troca de moradia e comida (ela não vive a vida do crime - até certo ponto - em troca de seus serviços domésticos.)

Mas para Pedro Bala, Dora é vista não como uma figura materna, mas principalmente como uma amante. Surge um romance doce e ingênuo, paradoxalmente ao contexto em que as personagens estão encaixadas. Há uma brusca oposição de sentimentos: Pedro Bala estuprava garotas pelo areial até ele se ver apaixonado por Dora e não saber como agir diante da sexualidade dos dois. Ele passa a querê-la ao seu lado, e a respeitá-la.


Capitães da Areia é um grupo heterogêneo, formado por diversos garotos de diversas personalidades, com suas intransigências básicas, mas cada um tentando superá-las à favor do bem-estar do grupo. Há sentimentos genuínos em meio a sentimentos ignóbeis. São verdadeiros paradoxos que confundem o leitor, e o deixa sem saber qual lado tomar: o da justiça, que condena os criminosos, ou o dos criminosos do grupo Capitães da Areia, que necessitam dessa vida de crimes para sobreviver; é impossível não se comover com a situação deles, nem de se ver "em cima do muro". Uma vez ciente da vida, do caos, e da necessidade dos garotos, não há como julgá-los de forma tão fria e estoica quanto antes.


A escrita é fácil, fluente e recheada de gírias. Com certeza, é o livro mais "fácil" requerido pelo vestibular da Fuvest/Unicamp. E, também, um dos melhores livros nacionais de todos os tempos!

8 comentários:

  1. Eu simplesmente amei esse livro. De todos os livros que o colégio manda ler este com certeza foi o melhor. Mal posso esperar para reler. É muito emocionante.. Nossa.. nem tenho palavras para descrever esse livro. Só uma coisa: vale muito a pena ler *-*

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  2. Oieeee
    Eu lí esse livro há muitos anos, mas me recordo da sensação que tive até hoje, incrível esse livro. É realmente um livro muito bom!!!

    (seu blog tá lindooo)

    Beijooos

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  3. Esse livro é muito bom mesmo!
    Quando tive que ler para uma prova logo pensei que seria um porre. Não tinha gostado muito da sinopse, mas todos me diziam que era muito bom. Tive que ler. Não me arrependo. A história é fantástica. O livro me deixou pensando bastante depois que terminei.
    É uma pena que meus amigos todos não tenham gostado, mas tem gosto para tudo, né?
    Beijos,
    Ana

    www.vivendoentrepaginas.blogspot.com

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  4. Eu não li esse livro, mas assisti uma apresentação sobre ele no ensino médio..
    Parece ser muito bom mesmo, e pelo que eu entendi você acaba torcendo por eles, mesmo sendo criminosos.
    Gostei bastante da sua resenha, sem dúvida lerei, se surgir a oportunidade. ^^

    beeeijoo, Nayanne =*
    http://www.bookaholicworld.com/

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  5. Tenho que admitir, não sou muito fã de clássicos brasileiros =X
    Sou muito mais um classico inglês como Orgulho e Preconceito =X
    Lembro quando era obrigado a ler esses livros na escola, detestava, raramente conseguia acabar algum.
    Mesmo assim reconheço a importância desse tipo
    de leitura!


    Abraço

    Luiz Silva
    www.blogueiroleitor.com.br

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  6. Acredita que eu tenho esse livro mas nunca li?? kkk
    Ganhei de presente da minha coordenadora, mas nunca cheguei a ler, acho que vou tirá-lo da prateleira e dar uma chnace a ele, já que sua resenha me inspirou de verdade!! =)

    bjooos

    kastmaker.blogspot.com

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  7. oie naum li esse livro ainda mas to vendo q er muito interessante.. naum vejo a hora de ler .. bjãoo galera

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  8. Minha mãe tinha esse livro e me deu, nunca tive vontade de ler, mas agora, com esta resenha, acho que vou pegá-lo e lê-lo, pois fiquei muito inspirada!

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