30.12.10

Resenha: Apátrida, de Ana Paula Bergamasco

  • Editora: Todas as Falas
  • ISBN: 978-85-99721-14-8
  • Páginas: 338
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Leia os três primeiros capítulos online.


Uma pequena vila na Polônia. Uma menina repleta de vida. Um encontro. Vidas Ceifadas. Sonhos Destruídos. Infâncias Roubadas. As recordações da personagem Irena amarram o leitor na História do Século XX. Baseado no estudo dos fatos que marcaram a época, o palco da narrativa é a conturbada Europa pós Primeira Guerra Mundial, culminando com a eclosão da Segunda Grande Guerra e a destruição que ela provocou na vida de milhões de pessoas. A narradora conduz a exposição em primeira pessoa, e remete o leitor a enxergar, através de seus olhos, o cotidiano a que ficou submetida. É um relato humano, sincero e envolvente que revela a passagem da vida infantil feliz da menina, para o tumulto da existência adulta, cheia de contradições.

Apátrida narra uma boa parte da sôfrega vida de Irena, uma mulher forte e persistente nascida na Polônia. A estória é iniciada com um momento da última entrevista dada pela heroína, e vai, aos poucos, nos mostrando como foi a sua infância e adolescência, e as pessoas com quem conviveu. Desde cedo, somos marcados pelo genuíno laço de amor que envolve a família da personagem principal; a luta pela sobrevivência mostra o vínculo dessa família. Depois que nos é apresentado uma importante parte da vida de Irena pré-Guerra, nos é apresentado o romance do livro. Desde pequenina, Irena se enamorou por Jacob, seu amigo judeu filho de um rico médico que passou a estar sempre presente na vida de sua família, ajudando e amparando. Jacob se tornou essencial para a vida da heroína, e esse sentimento tornou-se muito mais concreto com o amadurecer dos dois. Mas Irena não contava com o noivado de seu amado, que lhe justificou devido a sua religião. Era judeu e ela uma católica ortodoxa. Não podiam ficar juntos, e ele sabia disso desde cedo. A vida de Irena ruiu, mas acabou por tomar um rumo. Como gosto sempre de lembrar, "O tempo sempre vai ser o melhor remédio, mas seus resultados nem sempre são imediatos" (Charles Chaplin). Demorou, mas a nossa heroína conseguiu endireitar sua vida e seguir em frente.

Ela então se casa com Rurik, e muda-se para a terra de seu noivo, a Bielorússia. Lá, cria raízes. Forma uma família, tem um filho e desenvolve um amor inesperado pelo marido. Mas tudo isso lhe é tirado por uma ignóbil traíção. A partir desse marco em sua vida, a Segunda Guerra passa a fazer parte de seu cotidiano, e sua vida nunca mais seria a mesma. 

Novamente destruída interiormente e com grandes perdas, Irena volta para os braços de seus familiares, e é no cenário de sua doce infância que nossa heroína passa por uma prévia do que ainda estaria por vir. E é em Varsóvia, capital da Polônia, que a estória continua, mês após mês, enquanto a guerra se alongava por toda a Europa, e o país era tomado por uma onda cada vez maior e sem piedade de barbaridades. Junto de seus falazes gêmeos, Irena encontra seu destino e pior pesadelo: o campo de concentração. Lá terá de enfrentar a morte cara-a-cara e lutar pela vida, de si própria e de seus amados filhos.

Intercalando capítulos do passado e outros do futuro, Ana Paula Bergamasco nos apresenta o palco da Segunda Guerra Mundial ao criar personagens cujas estórias nos levam ao encontro da História; Apátrida nos proporciona uma espetacular aula sobre a Segunda Guerra Mundial e o que ela representou: destruição, desumanidade, crimes e atrocidades. Não pude deixar de pensar que o livro é um ótimo instrumento, apesar do romance, para ser usado em salas de aula do Ensino Médio. Uma vez li "Um Salto Para a Humanidade", da autora Célia Valente, que narra a estória de uma jovem durante a Segunda Guerra Mundial, leitura esta a pedido do meu professor de História do Ensino Fundamental. Eu lembro de ter adorado, e de boa parte de meus colegas (inclusive os que diziam não gostar de ler) também terem elogiado a obra. Imagino que Apátrida seria igualmente recomendado, uma vez que narra com tamanho afinco a rotina dos presos e refugiados em guetos (entre outros lugares), que não perdi a chance de confirmar se os fatos são ou não verdadeiros.

Com grandiosos atos de compaixão e responsabilidade, Irena e tantos outros personagens do livro nos mostram a essencia do ser humano: metade defeitos, e a outra, qualidades. Sim, leitores, não se enganem caso pense que somos constituídos apenas por qualidades, e da constatação dos referidos defeitos só temos a lucrar: aprendemos lições de vida e a enfrentar nossos medos a fim de corrigir nossos defeitos. Alfons, um importante personagem nessa intrincada estória, foi um coronel  alemão muito respeitado e comandante do campo de concentração onde Irena passou vários anos, Auschwitz. Creio que, excetuando Irena, ele foi o personagem com o qual eu mais aprendi. Ele nos ensina a dualidade do caráter humano. Nos mostra que somos, sim, capazes de errar e aprender com esse erro, por mais fatídico que possa ser, direta ou indiretamente. Jan, primeiro filho de Irena, nos demonstra integridade. Ele inspirou meu "eu" sedento por vitórias. Jacob me relembrou que é possível, sim, amarmos de uma forma doce e perpétua, mesmo que o tempo insista em ser o melhor amigo do relacionamento. Ele decidiu por não quebrar as regras e isso me ensinou mais do que possa parecer, mesmo que tenha desistido tarde demais. 

Apátrida encerra meu ano de uma forma especial, reflexiva. É uma autêntica fonte de lições de vida, e recomendo para qualquer um que possui maturidade. Foi a resenha mais difícil que já fiz em minha vida até o momento, creio, e por se tratar de um livro ótimo que, apesar dos erros de revisão (infelizmente, não foi publicada a versão final), nos transmite diversos sentimentos. Meu exemplar está lotado de tags marcando passagens, o que por si só já mostra a importância do que Ana Paula Bergamasco escreve. Ela possui um genuíno dom para a escrita e estou ansiosa por um próximo livro da mesma.

Aguardem a próxima entrevista para a coluna Entrevistando um Autor, que será com a querida Ana Paula Bergamasco.
(Procurando a minha nota para o livro? Ela está ali, oh, à direita, marcada num post-it roxo;)

14 comentários:

  1. Uau, que notão!
    Já estava curiosa pelo livro, agora quero lê-lo ainda mais!!!
    Feliz Ano Novo, Mell!
    Beijo

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  2. Hey, Mellory!

    Eu to com esse livro aqui, mas ainda não pude ler!
    Estou louca pra começar!
    Adooooro temas que abordam a Segunda Guerra.
    Ansiosíssima! *__*

    Super 2011 pra vc!
    Beijo grande!

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  3. Amooo livros que se passam durante a grande guerra, durante o Holocausto.. são histórias que têm muita bagagem de sentimentos para transmitir, geralmente sentimentos de dor, sacrifícios, negações mas que são superados por pessoas fortes. Pessoas que perderam, sofreram e passaram pelos portões da ironia da vida...
    Uma linda história, não vejo a hora de poder ler este livro. Eu gosto de ler tais livros com mais calma e tal, porque temos muitos dados históricos reais mesmo no caso do livro ser ficção!
    *-*

    Beijos Mell!
    xoxo

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  4. Eu já ouvi falarem muito bem sobre o livro! Ela parece ser bem emocionante e como você disse, reflexivo. Queria poder ler! Quem sabe eu não consiga ler em 2011? :D Feliz Ano novo, beijos.

    Bruno - minhaestante.com

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  5. MELL!!!! FELIZ ANO NOVO NENA!!!
    *-*

    Mais um dia que nasce, um primeiro passo, um longo caminho.
    Um desafio, uma oportunidade e um pensamento:
    Que nesse ano sejamos, Todos, Muito Felizes!!!!

    Beijos flor!
    xoxo

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  6. Ahhhhh! sabe q eu vi um video teu e vc é tão fofaa!!! mas ae nem peguei o end do blog... q bom q vc me achou :D e seu blog é lindo, delicado como eu tinha certeza q seria... parabéns...
    Um ótimo 2011 pra vc
    e minha voz é triste!!! :D

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  7. ahhh e o nome do livro do Tolkien q a tosca aqui não disse direito é: Mestre Gil de Ham :D
    http://www.skoob.com.br/livro/708-mestre-gil-de-ham

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  8. Oi,

    Estou passando para conhecer o seu blog.
    Já li várias resenhas de Apátrida e estou super curiosa para ler esse livro.

    Um feliz 2011 pra você.
    bjs
    Tais
    http://www.leitorafashion.com.br

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  9. Não gostava muito de livros que tem como plan ode fundo a segunda guerra, porém depois que li A Menina que Roubava Livros começei a achar o tema interessante!
    Essa é mais uma resenha que elogia esse livro!! Só leio resenhas positivas sobre ele!!
    Tenho vontade de ler!!


    Abraço

    Luiz Silva
    blogueiroleitor.blogspot.com

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  10. Oooi, Mell.
    Caramba, falam tanto desse livro, sempre quis MUITO ler, e ainda mais tendo essa capa incrível!
    Adorei demais a resenha. Fiquei ainda com mais vontade de ler. Adoro histórias que tem guerras como cenário, e do jeito que você falou parecer ser tão profundo e bem escrito. Fiquei curiosa, vou correr atrás, haha.

    E vim de novo agradecer seu comentário lá no meu post. Fico feliz que tenha gostado das músicas. Eu aaaadoro aquele estilo e AMO MUUUUITO 30 Secs cara. Eles são muito sensacionais, sem contar que o Jared é um pitel dos maiores HAHAHA.
    E quanto a sugestão de fazer um tour pela minha prateleira pode ficar esperta, já já está por vir HAHA.

    Beeeeijão Mell, boa semana e feliz 2011 :DDD
    Rah.

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  11. Nossa, Sei como sao as resenhas complicadas. Quando lemos um livro muito bom, nao sabemos enfim como podemos expressa-lo. Mas parabens, fizeste uma bela resenha.
    Quando eu tiver tempinho vou le-lo tambem.

    Feliz 2011,

    Lilia Reis

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  12. Estou com muita vontade de ler esse livro e a cada resenha que eu leio a vontade aumenta. Com certeza pretendo lê-lo em 2011.
    Adorei a resenha *--*

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  13. Fiquei muito contente com sua resenha porque me senti da mesma forma. O livro é maravilhoso *-*
    Tirando o problema da revisão que também apontei, fiquei super contente de ter tido a oportunidade de lê-lo.

    Adorei seus comentários ;D

    Beijocas!
    Juh Oliveto
    Livros & Bolinhos ~

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  14. Agradeço-lhe muito pela agradável resenha. Digo-lhe que Alfons foi um dos mais complexos personagens que tive que elaborar. Pelo duelo entre o bem e o mal. Entre o justo e o injusto. E sempre, pela capacidade humana de perdoar e de se regenerar.
    Um grande abraço e eu vi sua reportagem no Guarujá News. Muito obrigada!

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