28.12.16

Poemas, de Adonis

Poemas, escrito por Adonis


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 262
ISBN: 8535921249
Tradução: Michel Sleiman
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Na poesia de Adonis, mais do que a polifonia das várias vozes, o leitor poderá encontrar o politeísmo de múltiplas verdades - contra a certeza de um Deus, a verdade plural das musas.


Há muito tempo tinha curiosidade sobre a poesia de Adonis. Li algumas coisas dispersas e fiquei intrigada. Perguntei para linda da Mel se podia pedir um livro de poesia e fazer a resenha sobre ele e, obviamente, maravilhosa e aberta como ela é, aceitou. O problema foi que eu mesma não percebi antes as dificuldades de resenhar um livro de poesias. Não tem resumo da história, não tem lista de personagens, não posso lançar alguns acontecimentos gerais da história para fazer outras pessoas ficarem curiosas. Ao mesmo tempo, não posso tratar de um único poema, não posso tirar o poema do seu contexto, não posso ficar recortando trecho como "olha que bonito" e também não consigo dar conta de todos os poemas do livro. O ponto de partida já é um desfio. Entretanto, Adonis vale o esforço.


O livro da Companhia das Letras poderia servir como uma espécie de apresentação do poeta. Ele começa com um prefácio inspirador feito pelo querido Milton Hatoum que faz um resumo sobre a carreira do autor e seu percurso biográfico: nasceu na Síria, formou-se em filosofia em Damasco, exilou-se em Beirute, mudou-se para Paris, traduziu T.S. Eliot e Robert Foster para o árabe, de Paris fundou diversas revistas que tinha o intuito de dar voz a nova poesia árabe, tem intensas relações com autores ocidentais como Rainer Maria Rilke, Baudelaire, Rimbaud, Henri Michaux, Walt Whitman, além das referências em língua árabe como os poetas sufis, al-Hallaj, Abu-Nuwas e al-Níffari e um cosmopolitismo que se estende ainda para outras língua e culturas, como o persa com referências como Shams ud-Din Mohamed Hafiz e Shiraz. Além disso, Milton Hatoum faz sua leitura e seu elogio a poesia de Adonis, recorta alguns trechos e mostra algumas imagens recorrente dessa poesia que, segundo ele, "tenta desvelar a essência do impossível por meio da alquimia verbal" (p. 16).

Há, depois, um breve comentário de algumas páginas do tradutor Michel Sleiman intutulado "Adonis em português" e em seguida, marcado pela referência 1957-1968 iniciam-se as poesias. Antes dos poemas aparecerem efetivamente, há sempre um título maior que agrupa os poemas de cada seção e uma explicação sobre cada uma dessa partes. Por exemplo, a primeira seção intitulada "Do amor, da morte, do que não acaba" vem marcada logo abaixo pela palavra "seleção" e pela explicação: "esse título, dado pela tradução, é formado com base na seleção de poemas tirados dos capítulos 'Poemas de morte', 'Canções de amor', 'Limites do desespero' e 'Poemas que não acabam', de Primeiros poemas, 1957". Ora, como eu disse, isso é uma estratégia interessante como forma de apresentação do autor, recolher algumas poesias, tendo em mente um projeto ou uma razão que justifiquem tais escolhas, é uma maneira de apresentar um pouco, um tema, um lado de determinado poeta. Entretanto, livros de poesia são como vinis ou k7. Vinis voltaram a moda e as K7 infelizmente não, mas quem conhece esses dois objetos sabe que eles pertencem a um tempo em que um gravação era muito caro, não existia Youtube, MTV ou Spotify, não podíamos ouvir o single no Itunes, tínhamos o vinil e ouvíamos tudo que estava ali, pois as músicas se relacionavam, uma fazia ligação com a outra ou respondia a outra, ou contestava a outra, os discos tinham projetos, narrativas próprias, uma lógica interna. Era importante ouvir as faixas na sequência, do começo ao fim para compreender toda essa narrativa. Livros de poesia até permitem saltos, leituras parciais, repetições, assim como os discos, mas sempre há um projeto maior, um sentido no conjunto que perdemos com esses saltos e recortes. Recortes são complicados. Propaganda, vestibulares, facebooks tendem a recortar versos de poemas para transformá-los em frases de auto-ajuda, frases de efeito, recadinhos românticos ou exemplos didáticos, produzindo aí diversos clichês. Poesia é coisa séria e os poemas merecem respeito. Gostar de um verso, recortá-lo, copiá-lo e colá-lo na parede do quarto não é crime, nem pecado, mas o recorte sempre proporciona um risco de perda, perde-se o contexto, perde-se o trabalho do autor com a forma e o conteúdo, perde a potência de sentido, perde a polissemia para reluzi-lo a uma única leitura. Claramente não é o caso do livro aqui em questão, não há recorte de versos, nem a transformação da poesia de Adonis em frases de efeito. Entretanto, há, de toda forma, recorte de livros de poemas, de conjuntos fechados que mereciam a atenção e dedicação de forma individualizada. Os poemas dessa primeira parte pertencem a divisões diferentes do livro original. O autor não divide o livro em partes e encaixa os poemas aleatoriamente. Existe sempre uma razão para os poemas estarem ali, para o nome de cada uma das partes, da sequência do que vem antes e do que vem depois. Em seguida, há uma seção chama "Folhas ao vento" e trata-se de uma seleção de dezoito das cinquenta unidades de poemas - são pequenas unidades de alguns versos que tem sentido sozinhas, claro, mas não foram colocadas sozinhas, elas existem sozinhas, existem como dezoito, mas com absoluta certeza existem de maneira mais completa as cinquenta juntas. Mais para frente, "Os dias do Sacre", temos os dois primeiros poemas que formam um poema bem longo de motivo épico. Ora, ninguém recorta a Odisséia, a Ilíada, a Eneida ou Os Lusíadas. Então, podíamos ter o mesmo respeito com o querido Adonis e não recortar "Os dias do Sacre".

Isso não diminui a beleza do livro. Apesar do risco dos recortes e da seleção, o livro cumpre o papel de despertar o desejo da existência dos livros completos e separados de Adonis. A seleção procura trazer de maneira mais justa possível as árvores de vida e sentido que crescem por sua poesia, a metamorfose da natureza que é também do homem, da experiência e da linguagem, os mitos da Península Arábica que se misturam com os mitos do Ocidente, a busca por um outro lugar de produção da poesia, onde o sentido não está mais dado, mas está em constante e interminável metamorfose e em processo de construção, destruição e reconstrução. Tumba para Nova York, o single internacional de Adonis,  aparece completo trazendo por inteiro sua potência da temática da grande cidade, mas dessa vez a arquitetura da cidade é elaborada por um estrangeiro, um sírio, que conhece Walt Whitman mas que vê ali a violência, o racismo, a "folha-grama" de Whitman virando a "folha-dólar" de Wall Street, asfalto e arranha-céu junto com árvores, serra, sol e Jerusalém. Como há excertos de diversos livros, como já foi apontado, é difícil enumerar tudo o que está contido ali. Há partes mais sociais sobre a condição e a identidade do Oriente, há outras mais existências sobre o amor, a mulher e a morte. Porém, o que me parece maior e que liga todos os pedaços dos livros é a própria linguagem e a poesia como possibilidade de um outro espaço de linguagem. Por isso, atraiu-me especialmente a atenção uma seção nomeada "Guia para viajar pelas florestas do sentido" em que há um empenho de ressignificação do mundo.










É difícil falar de poesia e difícil falar de Adonis. Acho que fiquei muito aquém de uma real compreensão de tudo o que li e falei muito pouco sobre o que senti com a leitura. O livro contém algumas páginas que reproduções a escrita original do poema em árabe. É muito bonito e interessante olhar para isso e parece-me um pouco do que é o próprio processo de leitura da poesia: é olhar para uma outra língua que tem os mais potentes sentidos escondidos em sutis traços e pequenos pontos, pequenos nadas, como disse Manuel Bandeira. 



11.12.16

Te vendo um cachorro, de Juan Pablo Villalobos

Te vendo um cachorro, escrito por Juan Pablo Villalobos



Editora: Companhia das Letras
Páginas: 248
ISBN: 8535926313
Tradução: Sérgio Molina
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Encerrando a trilogia sobre o México, Juan Pablo Villalobos cria um ambiente farsesco em torno de velhos aposentados e tece uma crítica mordaz à vida em sociedade. Aos 78 anos, Teo se muda para um prédio decadente cheio de anciãos. Passa os dias ouvindo as fofocas nos corredores, nutrindo desejos eróticos pela síndica e calculando quantas cervejas pode beber por dia às custas de um pecúlio que deve durar até sua morte. O grande evento do prédio é uma tertúlia literária: os participantes se impõem o desafio de ler os sete tomos de Em busca do tempo perdido, intercalando Proust com aulas de modelagem e ginástica aeróbica. Com este romance, Juan Pablo Villalobos encerra a trilogia sobre o México iniciada com Festa no covil. Mais afiado do que nunca, o autor debruça-se sobre a velhice, o cotidiano e a literatura para tecer uma crítica sagaz sobre a vida em sociedade.
No começo do ano escrevi aqui uma resenha de Festa no Covil. Tentei contar um pouco a minha sensação de estranhamento de pegar aquele livro laranja brilhante, com um título bizarro e encontrar uma narrativa incrível, surpreendente, que tinha, no seu centro, um tema arriscado, mas que era trabalhado de forma cuidadosa para não se tornar maniqueísta. Li Festa no Covil para o clube do livro da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo; um dos participantes comentou que se o livro pertencia a um projeto de abordar o narcotráfico no México por perspectivas diferentes. Festa no Covil era pela perspectiva de uma criança, e segundo o moço, os outros seriam pela perspectiva de um velho e de um cachorro. Bom, guardei essa informação e quando pedi o livro Te vendo um cachorro para Companhia das Letras, esperava, obviamente, novamente me surpreender, mas agora com um cachorro narrando (de alguma forma) a questão do narcotráfico. Expectativa frustrada de novo!!! E positivamente, de novo também!

Como diz a pequena sinopse que coloquei acima, acho que podemos considerar que se há um tema comum na trilogia composta por Festa no Covil, Se vivêssemos num lugar normal e Te vendo um cachorro, então este tema é o México. Te vendo um cachorro é narrado por um velho, e não por um cachorro, que se muda para um prédio decadente habitado somente por velhos e aposentados. Logo quando chega ao prédio, ele se encontra com a Tertúlia Literária, uma espécie de clube do livro dos moradores. Eles pressupõe que o narrador é um artista e se decepcionam rapidamente quando descobrem que ele não passa de um vendedor de tacos aposentado. O narrador mais parece um protagonista do Woody Allen com cores de América Latina. Ele fala muito, opina sobre tudo, ironiza todas as situações e pessoas a sua volta, provoca a tertúlia literária, principalmente a líder deles, também síndica do prédio, Francesca, que cisma que ele está escrevendo um romance. Ele diz o tempo todo, para a tertúlia e para o leitor, que não está.

Ele tem calculado o quanto pode viver de acordo com suas economias, mas principalmente quantas cervejas pode tomar. Passa o livro inteiro tomando cervejas e boa parte dele arrumando maneiras de as conseguir de graça. Digo ele porque numa primeira parte do livro o narrador não é nomeado. Um dia ele decide roubar uma Teoria Estética de Theodor Adorno de uma biblioteca pública, passa usar o livro para afastar telemarketings, vendedores ambulantes e corretor de seguro. Além disso, usa a Teoria Estética para matar as baratas do seu apartamento. Então, numa conversa com a dona da quitanda da rua, eles decidem que estão numa missão e que não deveriam usar seus nomes verdadeiros, e por isso o narrador escolhe ser chamado de Teo, de Theodoro, que persiste como seu nome até o final do livro.

A capa azul brilhante, o nome Te vendo um cachorro provocam um contraste imediato, e até uma risada em alguns, quando se olha o índice do livro:

11 - Teoria Estética
125 - Notas de literatura

Títulos muito sérios e técnicos da área de teoria literária para um livro que parece tão pouco sério num primeiro olhar. Inicialmente, ainda podiam ser nomes gerais, contudo a referência a Adorno é confirmada, como já foi falado. Para quem não conhece, trata-se de um intelectual alemão da chamada Escola de Frankfurt que escreveu sobre muitas coisas diferentes, mas todos seus textos têm algo em comum: são conhecidos por serem bem complicados e desafios de leitura. É bastante comum no meio universitário de encontrar professores importantes que admitem as dificuldades dos textos de Adorno. O top da lista pode mudar, mas com certeza a Teoria Estética está entre os livros mais difíceis do autor. Tendo isto em vista, a referência a Adorno saindo da "boca" de alguém tão desbocado debochado quanto Teo, já é engraçado; já usar o livro como maneira de afastar operadores de telemarketings soa como uma ideia genial e promissora, mas também muito cômica. O livro se torna quase que um amuleto para o narrador, até que ele é capturado e feito refém pela tertúlia literária. Teo, como vingança, captura os exemplares de Em busca do tempo perdido que a tertúlia estava lendo e tenta substituir a Teoria Estética por Notas de Literatura. Mas o volume III de Notas de Literatura é muito fino para matar as baratas.

Esses pequenos detalhes já podem dar uma ideia geral do funcionamento da narrativa: além do narrador irônico e provocador, há uma aparência de realismo, de seriedade que vai sendo frustrada aos poucos. As pessoas no prédio fazem exposição de esculturas de passarinhos feitos de miolos de pão, Teo expulsa as baratas do seu apartamento por música cubana, pois aparentemente baratas são conservadoras e de direita, lota um elevador até o teto de baratas, entre outras coisas. O mundo que parece real começa a ficar cheio de acontecimentos absurdos e o leitor tem que trabalhar suas expectativas em torno da verossimilhança. Mas a melhor parte é que tudo isso acontece com muito humor, sem ser de forma forçada ou vulgar.

Entretanto, além da oscilação entre possível e impossível, ficção e crítica literária, há outro movimento em torno desse humor que contrasta com uma melancolia que vem da rememoração: a infância com os conflitos entre o pai, acusado de temperado artístico, e a mãe que tentava saciar a solidão na companhia de cachorros; os cachorros que morreram engolindo meias; a separação do pai; a mãe que tinha certeza da morte; o amor e o desejo frustrados  da adolescência; a perda de tudo; o fim da escola de artes; a vida de taqueiro; a verdade de vender tacos com carne de cachorro; a vontade da arte que ficou frustrada dentro de si.

Num primeiro plano, o humor. Num segundo plano, a melancolia dos dilemas individuais. E mais ali no fundo, uma relação entre os acontecimentos engraçados, as frustrações pessoais e os problema políticos da sociedade mexicana. O livro de Juan Pablo Villalobos é bastante complexo por trás da aparente não-seriedade, além de ser, assim como Festa no Covil, uma leitura surpreendente, ousada e bastante engraçada. 

20.11.16

Conheça o trabalho da Karenina Marzulo


No vídeo especial de hoje eu compartilhei as ilustrações lindíssimas da Karenina Marzulo que está numa campanha de financiamento coletivo para transformar o seu conto poético em livro! A história é repleta de simbolismos e ambientada em cenário surreal (o que muito me lembrou de Alice no país das maravilhas)!
Flaminga ao fazer aniversário ganha uma viagem de presente e em uma floresta acaba por se encontrar. Flaminga é uma menina? É um sentimento? Se reconhece Flaminga?
Ajude Flaminga e os flamingos a virar livro! Saiba como no site do projeto!


Lá tem tudo explicadinho, e podemos contribuir até dia 12/12/2016!

Mas a Karenina preparou um mimo especial para quem conheceu a campanha aqui pelo Literature-se. Se você contribuir, é só informá-la (no e-mail de agradecimento no final da campanha) que fui eu que te contei do Flaminga que receberá um cartão postal


En finir avec Eddy Bellegueule, de Édouard Louis

En finir avec Eddy Bellegueule, escrito por Édouard Louis 


Editora: Seuil
Páginas: 219
ISBN-10: 2021117707
ISBN-13: 978-2021117707
Língua: Francês

"De repente, saí correndo. Era só o tempo de ouvir minha mãe dizer O que o idiota tá fazendo? Eu não queria ficar do lado deles, eu me recusava de compartilhar esse momento com eles. Eu já estava longe, já não pertencia mais ao mundo deles, a carta dizia. Eu fui até o campo e andei uma boa parte da noite, o frescor do Norte, os caminhos de terra, o cheiro das flores muito forte nessa época do ano. A noite toda eu consagrei a elaborar minha nova vida longe "daqui". Na verdade, a insurreição contra meus pais, contra a pobreza, contra minha classe social e seu racismo, sua violência, seus costumes só vieram depois. Pois antes que eu me revoltasse contra o mundo de minha infância, esse mundo se revoltou contra mim. Muito rápido, eu fui, para minha família e para os outros, uma fonte de vergonha e mesmo de nojo. Minha única escolha foi fugir. Esse livro é uma forma de tentar entender" (tradução própria).

Consultei a Mel Ferraz antes de escrever essa resenha, pois se trata de um livro que ainda não foi traduzido para o português. Queria saber se ela achava ruim falar de um livro cujo público se limita devido essa diferença de língua. A Mel, como sempre muito disposta e aberta, me disse que seria interessante falar do livro mesmo assim. Quem sabe isso não possa aumentar as possibilidades de que um dia ele seja traduzido e torne-se mais acessível para leitores brasileiros.

O título poderia ser algo como "Para acabar com Eddy Bellegueule", lançado em 2014 por um moço que atualmente tem 24 anos e atualmente se chama Édouard Louis. Digo atualmente porque ele se chamava Eddy Bellegueule e mudou seu nome pouco antes do livro ser lançado. Auto-biografia ou auto-ficção ou romance, coloquem a etiqueta que mais lhes agrada, pois etiquetas nunca dão conta de tudo e muito menos de um livro como esse. Édouard Louis narra a si mesmo, mas principalmente narra quem ele foi e quem ele decidiu não ser mais, alguém com quem ele decidiu acabar, matar a si mesmo, matar Eddy para que pudesse ser Édouard Louis. Logo, sua mudança de nome na realidade acompanha sua proposta de ficção.

Isto pode parecer interessante para alguns, mais do mesmo para outros. Entretanto, as primeiras linhas do livro já deixam claro a força de tal desconstrução/construção de identidade:

"De minha infância eu não tenho nenhuma lembrança feliz. Não quero dizer que, durante esses anos, eu nunca tenha experimentado um sentimento de felicidade ou alegria. Simplesmente o sofrimento é totalitário: tudo o que não entra no seu sistema, ele faz desaparecer" (tradução própria).

Não há aqui espaço para meias-palavras. Admitir o sofrimento é já em si um problema, pois pode trazer à tona culpas e vergonhas. É exatamente esse o caminho do texto: admitir o sofrimento, narrar a dor, admitir que a dor é algo com que nunca se acostuma, para ressignificar as culpas e as vergonhas.

O narrador conta dos sofrimentos de sua infância que eram causados, especialmente, pelo fato de ele ser homossexual. Na realidade, ele era um menino que não correspondia aos padrões e aos comportamentos esperados dos meninos do meio social em que ele vivia. Em sua casa moravam 7 pessoas com uma renda de 700 euros por mês: seu pai, como a maioria dos homens da minúscula cidadezinha do norte da França, era operário de uma fábrica, forte, duro, violento, inflexível, o chefe da casa e da família, o provedor, o dono da palavra final; sua mãe, dona de casa, mas que também cuidava de velinhos, o que causou um problema quando ela começou a ganhar mais do que o marido, tinha ficado grávida aos 16 anos, queria um filho que fosse um Don Juan entre as mulheres e uma filha que passeasse com ela para fazer compras; era a mulher que sempre defendia o marido, independente do comportamento violento que ele pudesse ter. Além dos pais havia seus irmãos, todos numa casa minúscula, marcada pela umidade, janelas quebradas, falta de água quente, falta de comida e pelo barulho da televisão.

O caminho: ir a escola, a única da cidade, ir ao ensino médio, o único da cidade, ir trabalhar na fábrica, como os homens da cidade faziam, casar-se com uma mulher e ir ao bar beber com os amigos, como o pai e o irmão mais velho faziam. Um futuro conhecido. O problema do menino Eddy é que ele apresentava "ares afeminados" que não correspondiam ao que seu pai, seu irmão e esses outros homens da fábrica e do bar achavam que um homem deveria ser. Isto lhe proporcionou, além da repreensão e da rejeição da própria família, violência física e vergonha nos anos de escola. Mas para ele mesmo, Eddy, ele devia ter um problema, ele era um problema. O que era certo na família, na escola e na cidade também era o certo para ele e ele não era certo, havia algo "errado" em si que ele tentava mudar, tentava imitar o comportamento dos outros, jogar futebol, andar entre os homens, namorar meninas, assistir televisão o dia todo, mas no final era sempre traído pelo próprio corpo que o levava para o oposto de tudo isso. Além da relação com os outros, havia a decepção com si próprio, de ser para si mesmo incorrigível.

No mesmo tom direto das primeiras linhas, o resto do livro segue explícito em contar a dor e a violência que eram físicas, mas também aquelas ligadas a imposição de um padrão e de um futuro pré-estabelecido, a vergonha, a impossibilidade de certas identidades, o medo, a frustração consigo mesmo, a dor de ser obrigado a fingir ser diferente do que realmente é e de se sentir estranho, sozinho, errado e anormal. Não é uma história bonitinha para rir. Não é também uma história sobre um menininho especial e diferente que não se encaixava num mundo de pessoas grosseiras e más. Trata-se das violências dos discursos, dos lugares, dos padrões. Eddy é a vítima, mas todos os são. A história não é uma vingança contra todos aqueles que o fizeram sofrer na infância. Também não é para matar o menino Eddy, no sentido de condenar o mundo que o fez e que o criou. Mas o livro todo é a tentativa de refletir sobre as violências que compõem os ambientes e os discursos que habitamos e como é possível construir uma identidade em meio a tal violência. Pensar na identidade não é só ser igual ou diferente, não é um jogo em que o diferente é o especial e mais inteligente, protagonistas de livros e filmes de hollywood. É isso que faz a o livro de Édouard Louis tão especial: uma semelhança intensa e dolorosa com a complexidade da realidade, em que não há uma divisão entre maus e bons; onde a dor, o sofrimento e a violência são as experiências mais fortes e mais importantes.


Logo, não é uma leitura leve e de risadas. Mas, assim como o narrador descreve sua infância, não significa que não há momentos de felicidade. Contudo, o que dá sua força e o que faz com que esse texto seja merecedor de uma tradução para o português é justamente a reflexão sincera e profunda sobre as possibilidades de ser e não ser. 

15.11.16

A lista de Brett, de Lori Nelson Spielman

A lista de Brett, escrito por Lori Nelson Spielman

Editora: Verus
Páginas: 364
ISBN: 9788576862390
Tradutora: Ana Death Duarte

Brett Bohlinger parece ter tudo na vida – um ótimo emprego como executiva de publicidade, um namorado lindo e um loft moderno e espaçoso. Até que sua adorada mãe morre e deixa no testamento uma ordem: para receber sua parte na gorda herança, Brett precisa completar a lista de sonhos que escreveu quando era uma ingênua adolescente.
Deprimida e de luto, Brett não consegue entender a decisão de sua mãe. Seus desejos adolescentes não têm nada a ver com suas ambições de agora, aos trinta e quatro anos. Alguns itens da lista exigiriam que ela reinventasse sua vida inteira. Outros parecem mesmo impossíveis. Com relutância, Brett embarca numa jornada emocionante em busca de seus sonhos de adolescência.
O livro A lista de Brett é daqueles que já começa com um choque: Elizabeth, a mãe de Brett, acaba de morrer. Brett fica arrasada e já nos primeiros parágrafos do livro podemos notar como a relação das duas era bonita e o quanto se amavam.

No dia de abrir o testamento, Brett já imaginava o que faria como presidente da empresa de cosméticos de sua mãe, na qual já trabalhava no departamento de marketing.

Entretanto, não é bem isso o que acontece. Seus irmãos pegam sua parte da herança, mas não Brett. No testamento, sua mãe diz que encontrou uma lista de sonhos que a filha escreveu aos 14 anos e diz que ela só receberá sua parte da herança se cumprir todos os itens no prazo de um ano.

Vocês podem imaginar o quanto Brett ficou feliz com essa exigência, não é? Agora, com 34 anos, nada daquilo fazia parte de sua vida e ela não entendia o propósito de sua mãe ao colocá-la nessa cilada.

O livro conta então a jornada de Brett em busca de seus antigos sonhos, uma jornada de reencontro e descoberta de si mesma. Não tem como não querer fazer uma lista de sonhos ao fim do livro e torcer para que eles tragam momentos especiais, ainda que às vezes sejam caminhos difíceis de seguir.
"Assuma os riscos e veja onde você aterrissa, pois são eles que fazem a jornada valer a pena."
A narrativa é deliciosa. Vamos acompanhando Brett, torcendo para que ela cumpra suas metas, prevendo alguns acontecimentos e sendo surpreendidos por outros.

Uma das coisas que gostei no livro é que a autora dá a possibilidade de vários romances, vão surgindo pares ideais para a protagonista e a gente torce por um, depois muda para o outro, volta para o anterior, mas no final ficamos em dúvida e não sabemos qual o caminho que a história vai tomar.

Recomendo esse livro que além de ser uma leitura muito prazerosa, nos encoraja a lutar por aqueles sonhos que deixamos escondidos.
"Mas há um limite para o que as fadas madrinhas podem fazer. Eu acho que cada um tem o poder de realizar os próprios desejos. Só precisamos encontrar coragem para isso."

23.10.16

Mary Poppins, de P. L. Travers

Mary Poppins, escrito por P. L. Travers

Editora: Harper Collins
Páginas: 192
ISBN: 9780007286416
A história se passa em Londres, na Rua das Cerejeiras. A família Banks procura desesperadamente uma babá para seus filhos Michael, Jane e os gêmeos John e Bárbara, que são temperamentais e teimosos. Eis então que os ventos do Leste sopram e Mary Poppins chega para por ordem na bagunça, com seu jeitinho muito especial.
Mary Poppins é um clássico da literatura infantil inglesa que vem conquistando crianças (e adultos) por mais de 80 anos. 

A história que virou musical da Broadway, musical da Disney e que vai ser relançada no cinema ano que vem, nos traz uma babá nada convencional que chega com o vento do leste e promete trazer muita fantasia e situações inexplicáveis para as crianças da família Banks.

Cada capítulo traz uma personagem nova e inusitada que já conhece Mary Poppins de algum lugar e que encanta as crianças, como um tio que flutua quando está feliz, animais que falam e parecem humanos e uma das estrelas da constelação das Sete Irmãs. Ao final do capítulo, as crianças nunca sabem se aquilo de fato ocorreu ou se foi só um sonho, e Mary Poppins nunca confirma nada.

O livro foge bem da realidade, é preciso estar com a razão desligada e a imaginação a postos para aceitar as personagens e situações que aparecem na narrativa.

Apesar de trazer tanta magia para a vida das crianças, Mary Poppins não é aquela babá boazinha, meiga e carinhosa que eu estava esperando. Pelo contrário, ela fala pouco e na maioria das vezes está chamando a atenção das crianças, nunca responde as perguntas que eles lhe fazem e ainda fica brava quando eles perguntam muito. 

Fiquei pensando o que fez com que Michael, Jane e os bebês gêmeos gostassem tanto dela e cheguei à conclusão de que ela trouxe vida ao mundo deles. As crianças pouco se relacionavam com os pais (muito pouco mesmo), ficavam totalmente entregues às babás. Mary Poppins fez com que elas se divertissem com momentos mágicos e foi isso que as conquistou.

Além disso, apesar do que é dito no livro, não achei as crianças terríveis. A não ser em uma situação ou outra, achei que elas eram bem obedientes e seguiam as regras estabelecidas.

Vale a pena conhecer esse clássico infantil que nos faz acreditar no impossível ao longo de suas páginas.

13.10.16

O dia que um músico ganhou o Nobel de Literatura

Então chegou o dia em que um músico foi laureado com o Nobel de Literatura. 2016 tem sido um ano interessante, inclusive por Bob Dylan agora ser a única pessoa que ganhou o Oscar, o Grammy, o Globo de Ouro e o Nobel. E ninguém pareceu achar estranho ele ganhar até mesmo uma citação no Pulitzer de 2008 ("por seu profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de poder poético extraordinário").


Para início de conversa, desenhemos o óbvio: Bob Dylan é um grande artista, ninguém parece estar negando isso. Mas parece que muitos estão negando a possibilidade de música ser, sim, literatura. E esta não seria uma possibilidade bem plausível? Afinal, Odisseia e Ilíada não foram compostos para serem cantados?

Sim, a notícia é polêmica, por conta das questões que ela suscita. Minha cabeça ainda está atordoada com a quantidade de questionamentos que vieram à tona hoje, e que já existiam, porém separadamente e sem um meio tão caótico e tão repentino. Pois esta quinta-feira veio para colocar no centro do palco o papel da literatura e o jogo de piadas "o que é o que é..."

O que é o que é, caro leitor...
A música?
A poesia?
A literatura?
... Arte?
Distintas?
Congruentes?
Unidas?

Pois isso tudo só deixa claro um dos principais motivos da literatura ser tão deixada em segundo plano, tão menosprezada pela sociedade regida pelos lucros das exatas, tão vista como simplesmente um hobby e um passatempo: a humanidades não tem uma resposta certa, bem como toda essa questão de merecimento ou não do prêmio Nobel de Literatura por um artista que é reconhecido como músico, e também como escritor. 

Quando alguém fala de Dylan, fala de um músico. Mas também podemos, ocasionalmente, ouvir alguém incluindo a informação de que "ah, mas ele também é pintor, ator e escritor". A Wikipedia nunca deve ser fonte de confiabilidade, mas aqui ela será útil pelo fato de ser composta pelo imaginário popular, até:

Bob Dylan (nome artístico de Robert Allen Zimmerman; Duluth, 24 de maio de 1941) é um compositor, cantor, pintor, ator e escritor norte-americano. (Fonte)

O que quero destacar é: compositor e escritor não fazem a mesma coisa, mesmo que um tenha a finalidade de musicar o seu texto? Posso estar no meio do muro por me considerar de humanas no meio de um furacão de humanas, mas pelo menos tenho resposta para essa pergunta. E ela me parece evidente.

Uma outra ressalva que tenho que fazer é quanto à importância do prêmio. Se por um lado um músico pode ser considerado escritor enquanto compositor (e, realmente, Dylan é compositor e escritor, apesar do destaque - até mesmo da própria comissão do Nobel - ir para suas composições, ditas - e realmente sendo - poéticas), o prêmio Nobel de Literatura é o mais importante prêmio da área, e está envolto em mudança, status e poder. Um escritor premiado, principalmente com um Nobel, com certeza se tornará mais conhecido, mais lido e ganhará uma circulação incomum (para não mencionar o poder financeiro). O peso disso é grande porque a literatura não é a área com maior prestígio; o mercado editorial vive capengando por um motivo, e a dica está no cerce deste furdúncio também. Como podem ver, há muito a se discutir antes de apedrejar, seja aqueles que estão a favor da decisão ou não. Resta sabermos se será a Companhia das Letras ou a Cosac Naify que irá publicá-lo a partir de amanhã.

É um prêmio importante, mas também já cogitou laurear Donald Trump e até Adolf Hitler, neste último caso mudando de ideia por motivos também óbvios. É a velha questão de quem indica, de quem discute, de quem bate o martelo. Quem? Países nórdicos. Uma Academia formada por suecos. Não é surpreendente o fato do poder de decisão e de fala serem atribuídos àqueles que não são os marginalizados.

Sim, tem muita coisa óbvia neste angu, inclusive o fato, querido amigo que discordará ou não, de que a literatura não é apenas um bando de pessoas sem importância que entre uma conta e outra, entre um ganha-pão ou outro, sentam para escrever um punhado de linhas - ou versos.

Este tipo de debate acerca das humanidades sempre é bem-vindo, e esta pode ser, a princípio, a sua melhor consequência para nós. Mas vamos discutir, ok?

12.10.16

Voltar para casa, de Toni Morrison

Voltar para casa, escrito por Toni Morrison

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 136
ISBN: 8535927123
Tradução: José Rubens Siqueira
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Quando Frank Money volta da Guerra da Coréia com mais cicatrizes do que as visíveis no corpo, encontra um mundo racista e desfigurado. Durante os anos de sua ausência, sua irmã Ycidra sobreviveu como pôde a uma sociedade machista e opressiva, em que as mulheres são sistematicamente abandonadas pelos maridos e muitas vezes mutiladas sem piedade. Ao se reencontrarem na pequena cidade de Geórgia, onde nasceram, os irmãos revisitam memórias da infância, e Frank retoma sua experiência traumática no campo de batalha para redescobrir a força e a coragem que já não acreditava ter. Um romance estarrecedor sobre a forte ligação entre irmãos, a ressignificação de um passado violento e a volta para casa.

Com quatro anos Frank se muda com a família para um povoadinho insignificante, que nem chega a ser uma cidade, chamado Lotus na Geórgia. Ali vão viver de favor na casa do avô. Frank dormia num balanço do lado de fora da casa, mesmo quando chovia, o tio dormia em duas cadeiras encostadas na parede e os pais dormiam no chão junto da pequena Ycidra. Ycidra, ou Ci, nascida na viagem até Lotus, ganhou esse nome estranho porque sua mãe gostava do som que ele formava quando pronunciado. Entretanto, isso não significou que a mãe ou pai tivessem qualquer afeto pela menina recém-nascida. Na verdade, a mãe, o pai e o tio tinham cada um dois empregos, trabalhavam dezesseis horas por dia, quando chegavam em casa, as crianças eram só fonte de aborrecimento. O avô era uma figura apagada e submissa a esposa que odiava todos os membros da família por terem roubado seu sossego e o espaço de sua casa. Ela, Lenore, odiava principalmente Ci, "filha da sarjeta", corrigia, repreendia e mal tratava a menina o máximo que podia. Nesse ambiente áspero, o único consolo de Ci era Frank que cuidou dela como os pais deveriam ter cuidado. Frank a acalmava quando sentia medo, quando era mal tratada, guardava numa caixinha suas bolas de gude favoritas e dentinhos de leite de Ci, um menino e um pai ao mesmo tempo. 

Além de Ci, a única coisa que aliviava as infelicidades de Frank eram seus colegas Mike e Stuff. E foi com a companhia deles que Frank foi servir ao exército na Coréia para fugir daquela vida sem sentido e sem afeto da Geórgia. A guerra não dá sentido a vida, mas oferece algum objetivo, emoção e ousadia. Entretanto, uma vez que se esteve na guerra, a guerra estará sempre com você. Frank vive com os tormentos das lembranças, a dor de matar, o medo de ser morto, a culpa por ter sobrevivido, a culpa por ter matado, a dor da parda dos amigos, a culpa por não ter podido salvá-los, a culpa por não ter morrido com eles e impossibilidade de contar a alguém o que foi viver a guerra. Mesmo quando Frank conhece Lily, com quem tudo parecia ficar melhor, o tormento da guerra nunca passa, sempre volta, atenua e acentua esporadicamente, mas nunca se ressignifica. 

Frank recebe uma carta dizendo que Ci precisava dele, que ela estava morrendo. É nesse ponto que o livro começa: uma viagem, o meio do caminho até Atlanta para resgatar Ci e depois até Lotus, casa, lar, "Home" (título em inglês). Assim como Ulysses (Odisséia), Frank tem que voltar para casa depois da guerra. Mas muito diferente de Ulysses, Frank não quer voltar para casa, Frank não carrega o heroismo da guerra, mas todo seu horror. Não há Penélopes na Geórgia. As histórias de Frank e Ci nada têm das aventuras e conquistas de Ulysses. Frank leva o peso da guerra. Ci leva o peso das injustiças sociais, raciais e de gênero. Ulysses significa astúcia. Frank e Ci têm ironicamente o sobrenome Money. A história de Ulysses será sempre contada. Pode-se também contar muitas coisas sobre Estados Unidos nos anos 50, mas Frank e Ci são aqueles que normalmente não entram na história e pagam o preço da História. Como a narradora lembra, aquilo que as pessoas ricas chamaram de Depressão, as pessoas pobres chamavam de vida. 

Essa narradora é quem nos permite transitar pelo passado enquanto acompanhamos o caminho de regresso de Frank, assim como nos permite, ao mesmo tempo, ver Ci, Lily e Lenore. Contudo, cada capítulo é precedido por um capítulo menor em que aparece a voz dos personagens também. É nesse emaranhado de vozes e de tempos que podemos entender a necessidade de regressar a Geórgia e de ressignificá-la. O voltar para casa nos Estados Unidos dos anos 50, em um dos estados mais marcados pela escravidão, de um homem negro que carrega consigo a violência, a pobreza e a guerra, de uma mulher negra que leva no corpo feridas do racismo e do machismo, de um homem que perdeu suas possibilidades de experiências e que está sempre isolado em suas culpas e de uma mulher que teve o corpo mutilado, não na guerra da Coréia, mas em outras guerras menores que ocorrem na "mecânica mínima da vida", esse voltar para casa não é como o de Ulysses, não há aqui o lar afetivo, confortável e acolhedor do senso-comum. Por isso a ideia de lar precisa ser ressignificada, precisa ponderar sobre a violência que também existe nesse lar, para que Frank e Ci possam construir um novo significado, uma nova razão para estarem vivos, algo que a família, Lotus, o estado da Geórgia ou os Estados Unidos nunca lhes deu

2.10.16

O Romance Inacabado de Sofia Stern, de Ronaldo Wrobel


O Romance Inacabado de Sofia Stern, escrito por Ronaldo Wrobel

Editora: Record
Páginas: 256
ISBN: 9788501107497
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Autor de Traduzindo Hannah, livro finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, Ronaldo Wrobel constrói um thriller instigante neste novo romance. Na trama, o protagonista Ronaldo vive com a avó, Sofia Stern, em Copacabana. Ela é uma refugiada da guerra: nasceu na Alemanha em 1919 e veio para o Brasil às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Quando Ronaldo encontra um diário da avó perdido no apartamento, percebe que as histórias de sua juventude revelam paixões, traições e conflitos. Ele decide trazer os fatos à tona e embarca numa viagem para preencher as lacunas do relato.

Ronaldo vive com a avó Sofia Stern num apartamento em Copacabana. Sua vida segue pacata até que um dia a avó, já senil, desaparece. Procurando por todo bairro sem sucesso Ronaldo decide colocar um anúncio do seu desaparecimento num site de buscas por pessoas desaparecidas. Inesperadamente Ronaldo a encontra no próprio bairro, vestida como as prostitutas - e coberta de joias - em um cabaré local.

Sofia, alemã e judia, veio refugiada para o Brasil durante o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial e, apesar da forte ligação com o neto, não revela detalhes do seu passado na Alemanha. Essa mulher incomum, envolta em mistério, também era desconhecida pelo seu único neto.
"Netos raramente conhecem os avós. Podem até ser seus cúmplices e amá-los de verdade, mas quase nunca suspeitam de mistérios que não tiveram condições de desvendar. Avós são esfinges porque ali mora mais do que alguém. Ali mora o tempo. Com minha idade, vovó já havia enfrentado vilões históricos, atravessado o Atlântico e se casado com o homem a quem daria uma filha em 1954. Uma epopeia!"
Ronaldo encontrou no quarto da avó um diário com anotações estranhas e um anel com a inscrição SS - tropa de elite do período de Hitler - da época em que ela morava na Alemanha, porém ela se recusava a contar ao neto sobre o período anterior à sua chegada ao Brasil.

Logo depois do episódio do sumiço uma juíza alemã entrou em contato com Ronaldo graças aos dados fornecidos no site de buscas por desaparecidos. Na Alemanha corria um processo sobre uma grande fortuna em joias e sua avó era a provável herdeira dos bens, porém era necessário que ambos viajassem para a Alemanha para reclamar a fortuna. A partir desse momento o livro passa a ter um ritmo bastante acelerado, sendo bastante difícil de se separar da história.

Na Alemanha ele descobre que a avó vivia uma vida incrivelmente incomum, agitada e jamais imaginada por ele. As joias pertenciam a uma grande amiga de Sofia, Klara, e foram deixadas de herança para Sofia Stern. Obviamente diversas Sofia Stern e herdeiros apareceram para reclamar a fortuna, porém não haviam provas suficientes para comprovar que eram a Sofia Stern em questão.
Vovó carregava culpas lancinantes desde a juventude na Alemanha. Quantas delas infundadas?
Klara e Sofia se conheceram na escola. A primeira pobre mas de ascendência ariana, a segunda rica porém judia. Sua amizade desde o início enfrentou barreiras, entretanto as duas tinham uma ligação muito forte, que foi quebrada anos mais tarde devido às circunstâncias.

Mesclando presente e passado, somos apresentados à verdadeira Sofia Stern. Menina de origem judia, rica, que perdeu tudo o que tinha no período que precedeu a Segunda Guerra, inclusive o pai. Sem alternativa de sobrevivência sua única opção foi se apresentar em carabés em troca de dinheiro ou comida.
Em que momento a perda acontece? Sim, existe o milímetro a partir do qual o amor se esvai, a queda é fatal, a jornada é impossível. Que milímetro é esse? Qual é o nome da unidade que põe fim ao sentimento, à esperança, à razão, à memória? Quando se dá o último espasmo, o adeus sem glória daquela lembrança inútil que agonizava na véspera do esquecimento, resignada ao momento preciso que nos aguarda a todos?
A partir desse momento a trama ganha recortes inesperados pelo leitor e muita coisa acontece. Acredito que o ideal seja não entregar nada de como se desenvolve a história de Klara e Sofia e nem a história das joias, pois esse é o grande plot do livro. O que posso afirmar é que esse é um livro para ser devorado, a curiosidade faz com que seja difícil de ser deixado de lado.

Outro fator que fez com que eu gostasse do livro é por se tratar de uma história de Segunda Guerra não tradicional. Existem muitos livros sobre o período que tem histórias homogêneas, sempre focando no Holocausto. Nesse caso a temática é outra, dando um ar de novidade numa temática batida.

28.9.16

Ariana e Arion – As bruxas do Rio #1, de Antonio Sampaio Dória

Ariana e Arion – As bruxas do Rio #1, escrito por Antonio Sampaio Dória
Editora: Ed. do Autor
Páginas: 379
ISBN: 9788592014704
Onde comprar: Site da obra / Facebook - Skoob 
Uma aventura envolvendo Bruxaria, mistério e confrontos entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro. Ariana, uma menina de 13 anos, filha do Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, é sequestrada, sem que se saiba o motivo. Ela é salva, mas as insinuações de que seu pai estaria envolvido com os bandidos a deixa bastante perturbada. Em busca da verdade, Ariana acaba se unindo a Arion, seu colega de escola, que a instiga a lhe dar informações da polícia. Tudo aponta para Branca de Neve, o traficante do morro Dona Marta.
Ariana entra para o Clube das Bruxas, formado pelas colegas Amanda, Andrea, Anabela e Angélica, e depois de encontrar Valkiria, uma bruxa mais velha, começa a pôr em prática os ensinamentos mágicos. Até que ponto a Magia pode interferir na realidade? Enfrentando perigos com Arion, ela tem realmente a necessidade de pôr os feitiços em prática, sem saber onde a busca pela verdade a levará.
Quando você passa dos vinte anos e aos poucos deixa para trás os livros infanto-juvenis, principalmente porque estuda literatura e precisa encarar, em sua maioria, livros clássicos, passa a imaginar que provavelmente não iria aproveitar a leitura de um livro juvenil tanto quanto antes. E essa era a minha mentalidade quando eu decidi ler, depois de muitos anos, um livro do gênero. Peguei Ariana e Arion – As bruxas do Rio para ler sem muita pretensão, confesso que não esperando muito dele, e eis que fui surpreendida de uma forma muito interessante: eu simplesmente adorei este livro, e posso adiantar que o seu único defeito grave é ter me deixado louca para saber o que acontece  pois se trata do primeiro livro de uma série.

Ariana é filha do Chefe da Polícia do Rio de Janeiro e o livro começa já dando pistas de como é o ritmo do livro inteiro: frenético. Muita coisa acontece, e tudo está bem amarrado; tudo tem um porquê de estar ali. Voltando ao raciocínio: logo no primeiro capítulo a protagonista é sequestrada e levada para uma casa no meio de uma floresta. Logo no dia seguinte é resgatada, por (provavelmente) ter tido a sorte de conseguir enviar uma mensagem pelo celular que havia escondido dos sequestradores. Seu pai, com toda a força tarefa da polícia, faz um resgate e, a partir disso, Ariana tenta entender o que aconteceu de fato, e por que o sequestro aconteceu. Na realidade, tenta entender o que ser filha do seu pai tem a ver com o acontecimento traumático. Mas ele é uma pessoa inflexível, difícil de lidar e totalmente autoritário. Além disso, muito impermeável, não dando pistas nem explicações à filha, o que só a faz ficar cada vez mais curiosa.

Ao mesmo tempo, ela tem que lidar com a mudança de escola. Nova neste colégio de freiras, ela entra em contato com três grupos distintos de colegas: as belas, garotas patricinhas e arrogantes, as bruxas, meninas que praticam a bruxaria, e Arion e sua gangue. Logo que as aulas começam, as bruxas a convidam para participar do coven, ou seja, para descobrir a bruxaria e praticar feitiços e contatos com a natureza. Ariana realmente tem uma sensibilidade incomum, e apesar de cética no começo, aos poucos começa e se identificar com a nova religião. Com isso, cria-se uma inimizade forte da parte das belas para com Ariana, pois as bruxas e as bela são grupos rivais  tudo por motivos juvenis, como a disputa por garotos, que são característicos de garotas de apenas 13, 14 e 15 anos. Mas é Arion quem desde o princípio chama a atenção dela, pois ele deixa claro que há algo de estranho no seu sequestro, e que ele quer descobrir toda a verdade por trás dele  e ele está realmente disposto a descobrir a verdade, que parece se relacionar à criminalidade dos morros tanto perseguida pela polícia. Da peculiaridade que Ariana nota no garoto surge uma curiosidade que, aos poucos, mostra-se incomum; este é o ensejo para a discussão da sexualidade sendo descoberta.


Ariana e Arion – As bruxas do Rio realmente me surpreendeu; ele é realmente um livro muito bem escrito. Considerando o seu gênero, e não tentando tirar do livro características que não é de sua proposta, me coloquei novamente no papel de uma adolescente (ou pré-adolescente) e encontrei uma história cativante, repleta de reviravoltas e com temas muito interessantes para se trabalhar, como a religiosidade e a criminalidade, tudo isso sem deixar de lado algumas questões da adolescência que precisam estar presentes numa obra deste gênero. Não são, nem de longe, temas tranquilos para se abordar; a prática da bruxaria, a violência e a sexualidade podem ser polêmicos, ainda mais se misturados a uma faixa etária tão delicada. 

Mas é muito interessante ver como o autor conseguiu relacionar todos eles e desenvolveu uma história tão bem narrada, sendo as únicas pontas sem nó aquelas que o autor deixou para a sequência da série. Como eu disse, este é o único defeito para mim, fora alguns raros errinhos de revisão que podem passar despercebidos. Talvez o maior defeito seja o livro não apresentar em sua capa a informação de que se trata do primeiro livro de uma série. Obtive a informação na ficha catalográfica que existe logo nas primeiras páginas da obra. Mas o fato de eu sentir uma vontade tremenda de continuar a história só revela o quanto fui cativada por ela. E, realmente, o livro parece estar sempre no seu clímax. De resto, a diagramação é muito boa, com uma capa linda e, no final, uma bibliografia que o autor disponibilizou de suas pesquisas sobre os temas que ele trabalhou  que só deixa o livro mais interessante ainda, pois adoro saber que o escritor se dedicou àquilo que propôs discutir em sua obra!

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