28.9.16

Ariana e Arion – As bruxas do Rio #1, de Antonio Sampaio Dória

Ariana e Arion – As bruxas do Rio #1, escrito por Antonio Sampaio Dória
Editora: Ed. do Autor
Páginas: 379
ISBN: 9788592014704
Onde comprar: Site da obra / Facebook - Skoob 
Uma aventura envolvendo Bruxaria, mistério e confrontos entre polícia e traficantes no Rio de Janeiro. Ariana, uma menina de 13 anos, filha do Chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, é sequestrada, sem que se saiba o motivo. Ela é salva, mas as insinuações de que seu pai estaria envolvido com os bandidos a deixa bastante perturbada. Em busca da verdade, Ariana acaba se unindo a Arion, seu colega de escola, que a instiga a lhe dar informações da polícia. Tudo aponta para Branca de Neve, o traficante do morro Dona Marta.
Ariana entra para o Clube das Bruxas, formado pelas colegas Amanda, Andrea, Anabela e Angélica, e depois de encontrar Valkiria, uma bruxa mais velha, começa a pôr em prática os ensinamentos mágicos. Até que ponto a Magia pode interferir na realidade? Enfrentando perigos com Arion, ela tem realmente a necessidade de pôr os feitiços em prática, sem saber onde a busca pela verdade a levará.
Quando você passa dos vinte anos e aos poucos deixa para trás os livros infanto-juvenis, principalmente porque estuda literatura e precisa encarar, em sua maioria, livros clássicos, passa a imaginar que provavelmente não iria aproveitar a leitura de um livro juvenil tanto quanto antes. E essa era a minha mentalidade quando eu decidi ler, depois de muitos anos, um livro do gênero. Peguei Ariana e Arion – As bruxas do Rio para ler sem muita pretensão, confesso que não esperando muito dele, e eis que fui surpreendida de uma forma muito interessante: eu simplesmente adorei este livro, e posso adiantar que o seu único defeito grave é ter me deixado louca para saber o que acontece  pois se trata do primeiro livro de uma série.

Ariana é filha do Chefe da Polícia do Rio de Janeiro e o livro começa já dando pistas de como é o ritmo do livro inteiro: frenético. Muita coisa acontece, e tudo está bem amarrado; tudo tem um porquê de estar ali. Voltando ao raciocínio: logo no primeiro capítulo a protagonista é sequestrada e levada para uma casa no meio de uma floresta. Logo no dia seguinte é resgatada, por (provavelmente) ter tido a sorte de conseguir enviar uma mensagem pelo celular que havia escondido dos sequestradores. Seu pai, com toda a força tarefa da polícia, faz um resgate e, a partir disso, Ariana tenta entender o que aconteceu de fato, e por que o sequestro aconteceu. Na realidade, tenta entender o que ser filha do seu pai tem a ver com o acontecimento traumático. Mas ele é uma pessoa inflexível, difícil de lidar e totalmente autoritário. Além disso, muito impermeável, não dando pistas nem explicações à filha, o que só a faz ficar cada vez mais curiosa.

Ao mesmo tempo, ela tem que lidar com a mudança de escola. Nova neste colégio de freiras, ela entra em contato com três grupos distintos de colegas: as belas, garotas patricinhas e arrogantes, as bruxas, meninas que praticam a bruxaria, e Arion e sua gangue. Logo que as aulas começam, as bruxas a convidam para participar do coven, ou seja, para descobrir a bruxaria e praticar feitiços e contatos com a natureza. Ariana realmente tem uma sensibilidade incomum, e apesar de cética no começo, aos poucos começa e se identificar com a nova religião. Com isso, cria-se uma inimizade forte da parte das belas para com Ariana, pois as bruxas e as bela são grupos rivais  tudo por motivos juvenis, como a disputa por garotos, que são característicos de garotas de apenas 13, 14 e 15 anos. Mas é Arion quem desde o princípio chama a atenção dela, pois ele deixa claro que há algo de estranho no seu sequestro, e que ele quer descobrir toda a verdade por trás dele  e ele está realmente disposto a descobrir a verdade, que parece se relacionar à criminalidade dos morros tanto perseguida pela polícia. Da peculiaridade que Ariana nota no garoto surge uma curiosidade que, aos poucos, mostra-se incomum; este é o ensejo para a discussão da sexualidade sendo descoberta.


Ariana e Arion – As bruxas do Rio realmente me surpreendeu; ele é realmente um livro muito bem escrito. Considerando o seu gênero, e não tentando tirar do livro características que não é de sua proposta, me coloquei novamente no papel de uma adolescente (ou pré-adolescente) e encontrei uma história cativante, repleta de reviravoltas e com temas muito interessantes para se trabalhar, como a religiosidade e a criminalidade, tudo isso sem deixar de lado algumas questões da adolescência que precisam estar presentes numa obra deste gênero. Não são, nem de longe, temas tranquilos para se abordar; a prática da bruxaria, a violência e a sexualidade podem ser polêmicos, ainda mais se misturados a uma faixa etária tão delicada. 

Mas é muito interessante ver como o autor conseguiu relacionar todos eles e desenvolveu uma história tão bem narrada, sendo as únicas pontas sem nó aquelas que o autor deixou para a sequência da série. Como eu disse, este é o único defeito para mim, fora alguns raros errinhos de revisão que podem passar despercebidos. Talvez o maior defeito seja o livro não apresentar em sua capa a informação de que se trata do primeiro livro de uma série. Obtive a informação na ficha catalográfica que existe logo nas primeiras páginas da obra. Mas o fato de eu sentir uma vontade tremenda de continuar a história só revela o quanto fui cativada por ela. E, realmente, o livro parece estar sempre no seu clímax. De resto, a diagramação é muito boa, com uma capa linda e, no final, uma bibliografia que o autor disponibilizou de suas pesquisas sobre os temas que ele trabalhou  que só deixa o livro mais interessante ainda, pois adoro saber que o escritor se dedicou àquilo que propôs discutir em sua obra!

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26.9.16

Respeite o medo, de Ana Cristina Soares

Respeite o medo, escrito por Ana Cristina Soares
Editora: Chiado
Páginas: 167
ISBN: 978-989-51-5295-7
Onde encontrá-lo: Mercado Livre » E-book » Site da autora » Youtube da autora
Sinopse: O cara gente boa namora uma vadia, acha que ela é uma fofinha, mas está enganado. O outro namora uma princesa e nem percebe. A víbora tenta dar um golpe na gordinha-sem-graça e se dá mal, mas nem tanto. Numa festa cheia de maluco-beleza e muitas risadas, as coisas saem totalmente do controle. Não é engraçado. E o pavor inominável, mas antigo que o mundo, espera o tempo que for para vencer.
Raiva, cobiça e inveja. Dome-as, controle-as ou elas vão controlar você. Ressentimento. Fúria. Preguiça. São horríveis, impublicáveis e inconfessáveis mas você também já sentiu. Mas pode continuar fingindo que não. Mas, o medo… o Medo é diferente. O Medo é como a Morte. Frio e implacável. E por isso mesmo, incrivelmente belo. Não ria, não desafie, não se iluda.  Respeite o medo.
Respeite o medo é um livro de contos que propõe histórias marcadas pelo medo. Mas não apenas o medo causado por criaturas das trevas, espirituais e do além; mais do que isso, os contos do livro englobam várias situações que geram o medo, principalmente alguns comportamentos e sentimentos humanos que são, no mínimo, desprezíveis, como a inveja, a vingança e o assassinato  este, algo mais alarmante, mas não mais aterrorizante que os efeitos dos sentimentos citados, já que eles também podem causar muitos danos às pessoas envolvidas. 

São vinte contos que nos causam angústia e desassossegos. Temos o que dá nome à obra, "Respeite o medo", que traz à tona um medo comum na infância e que se ambienta na nossa própria cama. Helena não poderia abrir os olhos para enfrentar a força maligna que insistia em habitar o seu quarto. Não tive como, através da identificação, não ficar pensando nesta história por um bom tempo após terminar de lê-la. E as outras histórias também incomodam neste ponto: elas ressoam, ficam na sua cabeça por algum tempo além do esperado. E, quando menos se espera, lá estamos nós pensando nelas!


Além de explorar o que se passa na cabeça de assassinos, Ana Cristina Soares também traz um ambiente inesperado: o acadêmico, a faculdade. Expõe o que de ruim temos ali também (ou alguns sentimentos possíveis ali), e a descrença só nos atinge até notarmos que este mundo de desavenças e negatividades pode, sim, existir, apesar de não querermos que isso seja verdade.

Os pontos que me incomodaram da obra foram a revisão, que está fraca para o que a obra merece, e o fato do livro não apresentar em sua capa, orelhas ou até mesmo na ficha catalográfica (que praticamente não consta) a informação de que se trata de contos. Creio que, até mesmo para uma boa apresentação e venda do livro, este segundo ponto é muito importante. De resto, acredito que o leitor de contos e de histórias medonhas (e eu diria: muito mais aqueles que gostam de histórias que incomodam) irão adorar o livro  e passar momentos angustiantes com ele.

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20.9.16

As Sete Irmãs, de Lucinda Riley

As Sete Irmãs, escrito por Lucinda Riley

Editora: Novo Conceito
Páginas: 560
ISBN: 9788581635330
Tradução: Elaine Cristina Albino de Oliveira
Agora que Maia e suas irmãs perderam o pai, cada uma delas tem em suas mãos a decisão de buscar ou não a verdade sobre sua família biológica. Maia não resiste ao chamado do passado e é atraída até o Rio de Janeiro, onde, auxiliada pelo escritor Floriano, irá mergulhar em uma história quase centenária.
Nos anos 20, uma paixão devastadora entre uma aristocrata brasileira e um escultor francês é sufocada pelas convenções sociais. Uma pequena placa de pedra-sabão eternizou o amor de Izabela e Laurent, selando o destino de Maia.
A escritora best-seller Lucinda Riley mergulhou na cultura e na história do nosso país para conhecer de perto os mitos e verdades sobre a construção de um dos mais emblemáticos monumentos à nossa fé: o Cristo Redentor. O resultado dessa experiência é uma trama surpreendente e sensual, recheada de elementos exóticos. A partir do momento em que, junto com Maia, aterrissamos no Rio de Janeiro, não vamos nos separar dela enquanto não decifrarmos os segredos de seu passado. E esse é apenas o começo da viagem.
Esse livro caiu nas minha mãos totalmente por acaso! Eu fui pegar um livro emprestado com uma amiga, e ela me disse que tinha acabado de ler o segundo volume dessa coleção (que será formada por sete livros e, por enquanto, tem três deles publicados) e que tinha gostado. Ela perguntou se eu queria, e eu não recuso livro. Ainda bem, porque foi uma grata surpresa!

A narrativa foi inspirada na mitologia da constelação das sete irmãs, as plêiades. Nesta história, Pa Salt é um homem muito rico que vive navegando pelo mundo e adotou seis meninas. Quando ele morre (logo no começo da história), deixa para cada uma algumas pistas caso elas queiram buscar sua verdadeira origem.

Nesse primeiro livro, Maia, a irmã mais velha, é tradutora e era a única que ainda vivia na casa do pai, na Suíça. Devido a alguns problemas, Maia tinha resolvido se esconder do mundo até que decidiu ir atrás de seu passado no Brasil.

Só o fato de a narrativa mudar de cenário, sair da Europa e parar no Rio de Janeiro, já fez com que eu ficasse ainda mais envolvida com a leitura. Paralelo a isso, Maia começa a descobrir a história de seus bisavós que ocorre na época da construção do Cristo Redentor.

Essa mistura de romance contemporâneo com ficção histórica foi uma ótima combinação. As personagens do presente e do passado são muito reais, muito cativantes e nos deixam em dúvida qual das duas histórias é a nossa preferida (no meu caso, foi a história do passado). 

Como toda ficção histórica, a narrativa se baseia em fatos reais, mas os mistura com elementos inventados. Ou seja, dá para conhecer bem a história de como o Cristo foi idealizado e criado, mas ela não é totalmente fiel à história real. O Laurent e a Izabela, por exemplo, não estavam lá de verdade quando isso aconteceu.

Para não dizer que só teve pontos positivos, em alguns momentos a história me cansou um pouco pelo fato de que não gosto de personagens sofredoras demais, prefiro aquelas mais fortes, que vão à luta sem ter que se lamentar por algumas páginas antes de tomar essa decisão.

Tirando isso, só tenho elogios. O romance, ou melhor, os romances são lindos e envolventes. Os cenários e a narrativa são muito bem construídos. Além disso, também há um mistério que envolve a morte de Pa Salt, há várias perguntas sem respostas que o envolvem e que ainda não foram esclarecidas nesse livro, mas espero que sejam nos próximos volumes da série. E sim, eu vou continuar lendo a série porque preciso conhecer a história de todas as irmãs!


4.9.16

O Mundo de Vidro, de Maurício Gomyde

O Mundo de Vidro, escrito por Maurício Gomyde

Editora: Porto71
Páginas: 207
ISBN: 9788591184002
Até onde pode ir a paixão de uma pessoa por outra? Como, quando e por que começa? Até que ponto pode-se cometer alguma loucura para fazer parte da vida de alguém? Quais as consequências da paixão avassaladora incompreendida? E quando não se admite a óbvia paixão por outra pessoa? Neste seu primeiro e hilariante romance, Maurício Gomyde conta a história de duas pessoas, Ele e Ela, tentando responder estas aparentemente simples perguntas.
Passeando com extrema facilidade tanto pela linguagem refinada e sutil quanto pela tosca, Maurício Gomyde nos brinda com um livro de leitura fácil e extremamente agradável
O Mundo de Vidro conta a história de um casal (só descobrimos os nomes deles bem no finzinho do livro). Ela, perfeita, inteligente, com bons empregos e um relacionamento feliz. Ele, atrapalhado, sem grandes expectativas, solitário, o retrato de um perdedor.

No romance, ele a vê, se apaixona por ela e faz de tudo para conquistá-la. Inventa qualquer mentira necessária para atingir esse objetivo, enquanto nós vamos acompanhando essas tentativas e a aproximação dos dois.

O livro tem uma linguagem bem simples, os capítulos são curtos e fluem com facilidade. A história é divertida com algumas partes bem engraçadas e, às vezes, um pouco exageradas nessa tentativa da graça. O prefácio é muito original e já dá uma ideia desse lado divertido do livro.

Um aspecto que não gostei muito foram os estereótipos apresentados pelo autor. Um deles já apresentei que são as características dos protagonistas. Além disso, há outros ao longo da história quando aparecem outros personagens (como a amiga feminista extremista dela e o vendedor homossexual que ele conhece) ou na forma como os personagens enxergam determinadas situações.

Eu costumo não gostar de história na qual tudo tem que dar errado antes de algo dar certo e isso aconteceu um pouco durante essa leitura. Em determinados momentos, fiquei com raiva do protagonista que se metia em situações cada vez mais embaraçosas.

Apesar desses pontos, é um romance gostoso de ler e que vai agradar ainda mais as pessoas que gostam desse tipo de humor mais do que eu.

31.8.16

A estepe, de Anton Tchékhov

A estepe, escrito por Anton Tchékhov

Editora: Penguin Companhia
Páginas: 144
ISBN: 8582850182
Tradução: Rubens Figueiredo
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Com A estepe, pela primeira vez Anton Tchékhov, aos 28 anos e já com vasta quilometragem como colaborador de jornais e revistas literárias, tentou produzir uma narrativa mais extensa. Tarefa desafiadora mas, como se lê hoje, bem-sucedida. O subtítulo parece sintetizar a situação central- a viagem de um menino que parte para estudar em outra cidade e, para isso, percorre alguns dias pela vasta estepe russa. Mas também apresenta o caráter múltiplo do texto- um relato da experiência, uma narrativa ficcional, um estudo de tipos humanos, a pintura da natureza, além de retratos das atividades econômicas, das relações sociais e das mudanças de comportamento em curso.

A estepe, como seu subtítulo já explica, é a História de uma viagem. O enredo se passa nessa paisagem russa da estepe durante o verão: um comerciante que só consegue pensar em seus produtos e em dinheiro, Ivan Ivánitch Kuzmitchóv, na companhia de uma padre, Khristofor Siríiski, e de um ajudante muito jovem que tem obrigações de um adulto e disposições de uma criança, Deniska, leva seu sobrinho, Iegóruchka para uma outra cidade para que o menino possa estudar. A mãe de Iegóruchka amava pessoas cultas e alta sociedade e por isso escolhe se distanciar do filho e pede que o irmão o leve a casa de uma amiga em outra cidade onde ele poderia ter tal oportunidade. Como é bastante frequente nos contos do autor russo, a criança que é o protagonista da história. Iegóruchka está bem infeliz de deixar para trás a mãe, os pães de papoula, a avó que dorme no cemitério debaixo das cerejeiras. Mas sua condição de criança o impede de ter uma escolha própria e usando uma camisa vermelha que contrata fortemente com o marrom da estepe, Iegóruchka é levado para dentro dessa paisagem. 

Durante a viagem, o tio está sempre em busca de Varlámov, um homem que todos parecem conhecer, temer e respeitar, exceto Solomon, o menino judeu que diz que cumpre sua função de lacaio e que a função de cada um é ser lacaio daquele que tem mais dinheiro, por isso todos ali, os viajantes da estepe, seriam lacaios de Varlámov. Depois de conhecer a família de judeus a qual Solomon pertence, Iegóruchka conhece um comboio de viajantes da estepe, homens, como ele percebem e o narrador comenta que isso fazia deles típicos russos, que amam o passado e amavam recordar, mas odeio o presente e odeiam o viver. Entre eles está Dímov, de quem Iegóruchka sente muito ódio e também tem a experiência da sua impotência de criança diante da maldade e das injustiças. 

A paisagem, a estepe, é quase um personagem. Ela tem um comportamento próprio, altera seus barulhos, seus silêncios, seus animais, suas cores e isso altera o percurso dos viajantes. As passagens do livro de descrição da estepe são muito bonitas de tom bastante poético:

(...) pouco a pouco, vêm à memória as lendas da estepe, os relatos dos viajantes, as histórias contadas por uma babá nascida na estepe, e tudo aquilo nós mesmo conseguimos ver e apreender na alma. E então, nos chiados dos insetos, nas figuras suspeitas e nos kurgam, no c"u profundo, na luz da lua, no voo dos pássaros noturnos, em tudo o que vemos e ouvimos, começa a aparecer o triunfo da beleza, a juventude, o florescimento das forças e a apaixonada vontade de viver (...) (p.60). 

Quando contemplamos o céu profundo por muito tempo sem desviar os olhos, não se sabe por que, os pensamentos e a alma se fundem na consciência da solidão. Começamos a nos sentir irremediavelmente sós e tudo que antes achávamos próximo e familiar se torna infinitamente distante e sem valor. As estrelas, que miram do céu há milhares de anos, o próprio céu insondável e a escuridão se mostram indiferentes à vida breve dos homens e oprimem nossa alma com seu silêncio, quando acontece de ficarmos cara a cara com eles e tentamos alcançar seu sentido; então, nos vem ao pensamento a solidão que aguarda casa um de nós na sepultura e a essência da vida parece misteriosa, assustadora... (p.86)

No meio da viagem, Iegóruchka enfrenta uma tempestade que afeta sua disposição física, mas também seus sentimentos com relação àquela paisagem, àquelas pessoas e com a viagem em si. Mas a viagem precisa prosseguir e ela continua sendo, no silêncio da estepe, uma reflexão profunda e também silenciosa das relações sociais e da condição humana. O breve romance de Tchékhov não tem um final chocante como boa parte dos seus contos mais famosos, contudo possuí o mesmo grau profundo de reflexão e uma beleza muito grande no nível da escrita. 

30.8.16

Ardósia, de Nicolás Irurzum

Ardósia, de Nicolás Irurzum
Editora: Multifoco
Páginas: 250
ISBN: 9788579613557
Onde encontrar o livro: Amazon - Biblioteca do Nico
Um de seus habitantes desprezara a bênção de Santa Edwiges. Viroses, dores de corno, joanetes, todo tipo de tragédia cairia sobre as cabeças nativas. A maioria ignora que tais cartas contêm erros grosseiros de ortografia. Gramática inexistente. A população se divide entre brincadeira de mau gosto ou maldição. Na dúvida, o Prefeito marcou a assembleia. Pulso nem sempre agrada o eleitorado. O Delegado, pra lá de exagerado, procura evitar atentados terroristas.

Ambientada em Ardósia, a obra traz à tona diversos dramas da vida interiorana paulista, com personagens interessantes e que possuem, cada qual, uma característica única. Há alguns núcleos que representam a população de uma cidadezinha de poucos habitantes; eles se entrelaçam justamente por viverem num ambiente que proporciona o encontro. Temos o casal Eva e Jesuíno, donos de um bar no centro da cidade e pais de Idônea e Ilícito, nomes intrigantes que, na realidade, poderiam facilmente ser trocados, já que a menina é cheia de ideias mirabolantes e maldosas, e o garoto um completo ingênuo. Este é o núcleo que mais me arrancou risadas e sorrisos, mas também temos um grupo de amigos Gil, Roni e Léo, todos diferentes um do outro, mas sempre juntos e fiéis.


Este é um livro que se auto classifica como uma coletânea de contos, mas eu descobri muito mais: há uma certa linearidade temporal e uma sequência no enredo que me fizeram pensar em crônicas, não exatamente em contos. Pois as histórias não se acabam naqueles curtos capítulos; elas continuam. E muito do clima do interior conseguiu ser transmitido através deste formato.

Há um meio certo de começar a crônica por trivialidade. É dizer: Que calor! que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outra sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue; está começada a crônica. - Machado de Assis

E, como se pode ler através deste fragmento de um texto do genial Machado de Assis, pode existir muita trivialidade nas crônicas. Em Ardósia, muito do que acontece é comum e típico de cidades pequenas. Nicolás Irurzum conseguiu representar muito bem o seu objeto de escrita. Pois Ardósia torna-se não uma mera cidade, mas a personagem principal de sua obra. E, o mais importante (ou interessante?) a se perguntar é: você conhece Ardósia?

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29.8.16

Neblina, Adalgisa Nery


Neblina, escrito por Adalgisa Nery

Editora: Record
Páginas: 208
ISBN: 9788503012676
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
O segundo romance de Adalgisa Nery, publicado pela primeira vez em 1972, tem como protagonista uma mulher que sofre uma complicação cirúrgica e fica acamada e emudecida. Fragilizada por essas dificuldades, essa personagem se mostra poética e incisiva ao mostrar o profundo desprezo pela própria família, que tenta se aproveitar de sua condição. Aqui, vemos o talento de Adalgisa para narrativas mais longas aflorar, em um texto verdadeiro, cuidadoso e original.
A narradora do livro, após sofrer uma complicação cirúrgica, tem sua vida comum interrompida. Impossibilitada de se locomover e falar, ela vê sua família - mãe, pai e irmã, cobertos por uma neblina, somente o marido aparece por inteiro para a narradora - tentando se desvencilhar de sua incômoda presença.
No início de sua doença sua mãe ainda se preocupa em tentar conversar, reanimá-la, mas com o passar do tempo o desejo de tentar manter uma rotina normal."Ela", como é identificada no livro, torna-se um peso morto para os familiares, que passam a tratá-la como um objeto incômodo; nem mesmo a chamam mais pelo nome.

A doente narra, da perspectiva da poltrona onde repousa em seu quarto, a mesquinhez cada vez mais intensa de sua família.
Após anos acamada e muda, sem o mínimo sinal de melhora e sem poder contar com a sua força de trabalho, a família se vê em dificuldades financeiras e decidem tomar uma atitude definitiva em relação à doente.

A primeira proposta vem do seu marido, que considera a situação insustentável, e acredita que o melhor seja enviá-la para um hospício público. A sugestão foi discutida e aceita pela mãe, que só pensa nas contas, pela irmã, que não quer que os vizinhos descubram que mantem uma louca em casa e o marido, que propôs, pretende ficar solteiro, o pai, porém, é um homem bom, apesar da sua resignação, não aceita o acordo. A família entra num consenso e "Ela" passa a habitar um quartinho dos fundos inutilizado para que o quarto que agora habita seja alugado para complementar a renda da família.

Um casal passa, então, a habitar o antigo quarto da doente, que é escondida de ambos os inquilinos a todo custo.
Por um descuido da mãe a inquilina acaba descobrindo que existe uma pessoa acamada morando no quartinho dos fundos e passa a fazer visitas diárias à doente, que tem sua vida transformada pelo casal.

A inquilina começa, aos poucos, visitar o quarto da enferma e os minutos dos primeiros dias transformam-se em longas horas de visitas, mesmo que a doente nunca responda à conversa da visitante. O inquilino passa também a fazer parte das visitas com a esposa e, ambos muito bondosos, trazem uma nova luz à vida da narradora. As conversas são sempre muito poéticas, carregadas de lirismo sobre a vida, o amor, a morte.

"O amor é cansaço, é insegurança, é desconfiança e, principalmente, uma análise secreta e permanente entre duas pessoas que se amam. Quanto mais se ama, maior é a separação entre duas criaturas por força dessa análise que um faz contra o outro. Para manter o amor, com esse nome, é necessário aplicarmos o lirismo como uma espécie de defesa que conduz os nossos sentimentos às bordas da alma, onde há conjugação do universo com a ação do homem. Fora disso resta apenas o desejo passageiro que as pessoas confundem com o amor."

Com o passar do tempo "ela" começa a falar. Frases longas, devaneios poéticos, para depois ficar muda novamente. Os inquilinos entendem a postura da doente e passam a trazer amigos para as discussões: médicos, jornalistas, advogados, escritores. Todas essas pessoas passam a frequentar o pequeno quarto da acamada num bairro suburbano.

Tentando tirar vantagem dos visitantes ilustres, a irmã acredita que os vizinhos ficarão com inveja de pessoas diplomadas frequentarem sua casa e acredita ganhar prestigio com isso. O marido, para causar ainda mais inveja na vizinhança, compra um carro para que todos possam ver como a vida da família melhorou.

E assim segue a narrativa dela, contrapondo reflexões profundas acerca da vida, da morte, de Deus e, por outro lado, cercada pela mesquinhez de sua família.

"Há muita beleza no sofrimento, e já o fato de reconhecermos o sofrimento, a desfiguração dos sentimentos humanos é um aspecto do belo no mal que a vida mostra em seus pontos extremos. Não será belo compadecer-nos da alma de um criminoso? Não será belo imaginar uma mulher trazer em seu ventre um filho, desejando para esse filho todas as melhores coisas da existência humana e depois, mais tarde, após inúmeros sacrifícios, dores e trabalhos cansativos, vê-lo um homem dirigido pelo mal sem mesmo saber as razões que o levaram a atos condenáveis? O sofrimento estremece a alma com maior violência que a felicidade."

Toda a narrativa do livro é imersa nessa atmosfera de quase realidade da acamada, que acredita não fazer mais parte dessa vida, nessa neblina que cobre sua lucidez. O livro é muito poético, os devaneios da narradora são repletos de frases bonitas, profundas embora grande parte do que ela diz não seja palpável. Enfim é um livro muito bonito, mas ao mesmo tempo é bastante angustiante estar vendo esse mundo tão difícil e opressor sob o ponto de vista de uma pessoa que já não quer fazer parte dele.

21.8.16

Trono de Vidro, de Sarah J. Maas

Trono de Vidro, escrito por Sarah J. Maas

Editora: Galera Record
Páginas: 392
ISBN: 9788501401380
Tradução: Bruno Galiza / Lia Raposo / Rodrigo Santos e Mariana Kohnert
Nas sombrias e sujas minas de sal de Endovier, uma jovem de 18 anos está cumprindo sua sentença. Celaena é uma assassina, a melhor de Adarlan. Aprisionada e fraca, ela está quase perdendo as esperanças quando recebe uma proposta. Terá de volta sua liberdade se representar o príncipe de Adarlan em uma competição, lutando contra os mais habilidosos assassinos e larápios do reino. Endovier é uma sentença de morte, e cada duelo em Adarlan será para viver ou morrer. Mas se o preço é ser livre, ela está disposta a tudo
Em Trono de Vidro, a personagem principal não é uma princesa ou uma mocinha meio atrapalhada, é uma assassina: Celaena Sardothien. Apesar disso, ela é tão humanizada na história que não tem como não sermos cativados e torcermos por ela.

Na narrativa, o príncipe Dorian vai buscá-la em Endovier, lugar em que ela está presa há um ano trabalhando em uma mina de sal, para que ela participe de uma competição para se tornar a assassina do rei. Celaena odeia o rei, mas como essa é a única chance de ela conseguir sua liberdade, ela topa o desafio.

Ela é levada para o castelo no qual passa por treinamentos e desafios para que se torne a campeã. Além disso, acompanhamos o surgimento de laços afetivos com Chaol, o guarda responsável por ela, que inicialmente não confiava nem um pouco na assassina, e com Dorian, o príncipe.

A fantasia toda é muito bem construída, tanto o cenário quanto as personagens. Ao longo da narrativa, vamos nos aproximando de Celaena e entendendo-a melhor, assim como Dorian e Chaol. Ficamos envolvidos pela competição, pelo triângulo amoroso e por alguns mistérios que rondam o castelo.

Celaena é uma personagem forte. Apesar de passar por situações difíceis, ela deixa a insegurança de lado e usa de suas habilidades (que não são poucas) para atacar e se defender.

O único ponto que me incomodou um pouco foi que, em alguns momentos, achei a escrita um pouco enrolada, discorrendo longamente sobre um assunto que eu já tinha entendido o suficiente.

O final deixa um gosto de quero mais. Fiquei com vontade de continuar acompanhando as personagens no segundo livro da série: Coroa da Meia-noite (e nos próximos também, o quinto livro deve ser lançado nos Estados Unidos ainda este ano).

16.8.16

A história do novo sobrenome, de Elena Ferrante

A história do novo sobrenome, escrito por Elena Ferrante

Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 470
ISBN: 8525061220
Tradução: Mauricio Santana Dias
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Neste segundo romance da chamada série napolitana, veremos suas duas protagonistas, Lila e Elena, crescerem, e com elas todas as dores e as delícias de sua juventude em meio a um mundo repleto de caminhos que se abrem enquanto portas se fecham - se a sabedoria, o crescimento e o amor são possibilidades, eles ocorrem em um cenário limitado por uma disposição social por vezes cruel. Neste maravilhoso romance de formação de duas meninas, certamente o leitor vai se surpreender ainda mais com as possibilidades do universo de Elena Ferrante - esse mundo árido, tenso, delicado, profundo e, sobretudo, humano.


A história do novo sobrenome é a continuação de A amiga genial e ambos romances pertencem a uma série de quatro livros denominada como série napolitana. A amiga genial introduz a história de Elena e Lina, duas meninas de uma bairro periférico da cidade de Nápoles que se conhecem na escola fundamental e acabam cultivando uma relação duradoura que oscila constantemente entre amizade, amor, conflitos e disputas. O primeiro livro se inicia com Elena, a narradora, recebendo do filho de Lina a notícia que a mãe desapareceu. Este fato que se passa já na velhice das duas protagonistas desencadeia a rememoração de Elena de todo o percurso de tal amizade. A amiga genial se concentra na infância das meninas, como se aproximaram, como construíram uma amizade que velava uma constante competição na escola que conforme elas crescem se estende para outras esferas de convívio e o livro termina quando elas têm 16 anos. Ainda que adolescentes, suas experiências já começam a configurar problemas e vivências de adultos e é nesse ponto que começa A história do novo sobrenome

Assim como o primeiro livro, este segundo romance apresenta antes da história uma listagem dos inúmeros personagens, famílias e profissões que adentram o enredo. Já no interior do texto, mas ainda nas primeiras páginas, há uma breve recuperação dos principais eventos passados em A amiga genial, pois é realmente imprescindível ter em conta toda a história do primeiro livro para compreender o segundo.

Dom Achille, aquele que as crianças chamavam de ogro das fábulas, o homem que era o centro da violência e poder no bairro, pois na verdade tratava-se um agiota envolvido no mercado negro, é assassinado ainda no primeiro livro e seu lugar é ocupado por seu filho Stefano. Este parece totalmente diferente do pai, não mal-trata nem ameaça os demais moradores, se envolve positivamente com todos e parece enriquecer devido a sua boa gestão na charcuteria da família. Entretanto, a lógica do bairro é a violência e o poder só pode ser mantido através da reprodução desta. No segundo livro, a imagem positiva de Stefano é o tempo todo tensionada com a lembrança do violento pai. Dom Achille ressurge através de Stefano e a violência encontra novas maneiras de se reproduzir. Esta tensão entre os jovens e os pais, entre a lógica cristalizada do bairro e a ruptura de tais violências é o conflito de diversos personagens, inclusive das protagonistas. Lina, que sempre parecera ambiciosa e especial demais para aquela mesma vida, parece aceitá-la. Entretanto, assim como acontece com Stefano, A história do novo sobrenome não completa as expectativas, no bom Stefano parece ressurgir o mau Dom Achille, mas esses dois lados são o tempo todo tensionados. A Lina que parece resignada ao papel de subserviência das mulheres daquele ambiente tradicional entra em tensão com a lembrança da menina brilhante, terrível e inflexível de A amiga genial. Rino, o irmão de Lina, que desafiava constantemente o pai Fernando, se parece mais e mais com ele. Pasquale, o jovem comunista que criticava e questionava todo aquele ambiente, ainda que no lado político oposto é tão violento quanto os donos do bairro. Ada, a menina que lutava contra a loucura da mãe Melina, causada por um infeliz envolvimento amoroso, se coloca na mesma posição de subserviência diante de um amor falso e impossível. Nino Sarratore, a paixão de infância de Elena, o menino que enfrentava o pai, o menino cujo projeto de vida era ser o oposto do sempre mal intencionado Donato Sarratore,  mostra que não é tão superior ao pai quanto se esforça por parecer. Já Elena, a narradora, enquanto o lugar onde nasceu aponta para quem ela deve ser, suas escolhas apontam para o caminho oposto e ela sempre parece ir para esta segunda direção, sempre se afastando da imagem dos pais. Logo, sua tensão se constrói entre negar e até esnobar a família e os amigos, perder seu lugar de pertencimento, e mostrar que pode existir caminhos melhores e menos violentos, mas que ela nunca consegue pertencer verdadeiramente porque sua condição de mulher e sua origem humilde a impedem. 

O conflito central do livro se passa na praia. Em A amiga genial a paisagem da praia já havia sido importante, pois era onde se dava o momento de maior felicidade da narradora, assim como o espaço de descoberta do amor e do desejo sexual. Em A história do novo sobrenome, a praia ocupa inicialmente o mesmo centro de felicidade e de prazer da juventude, mas é transformado depois num espaço de repressão e sofrimento, especialmente causados pelo amor e pelo desejo sexual. O prazer e a dor se misturam, assim como a beleza da paisagem do mar mediterrâneo e a violência cruel do poder dos homens sobre as mulheres, dos ricos sobre os pobres e também dos afetos. Se em A amiga genial Lina e Elena presenciavam e já sofriam violências físicas e simbólicas por serem mulheres, ainda que passasse pelo filtro da infância, em A história do novo sobrenome isso é constante e central. E o livro mostra bem como esse tipo de violência não é somente uma agressão física no espaço doméstico, mas também a impossibilidade de ter as mesmas conquistas, os mesmo reconhecimentos e as mesmas possibilidades de escolhas que um homem. E nos personagens masculinos, este é um dos parâmetros principais para indicar o rompimento ou a perpetuação com a lógica dos pais, com a lógica do bairro, da violência e da tradição.

Além do título ser ressignificado e ampliado em sentido nas últimas páginas do livro, exatamente como no primeiro volume da série, A história do novo sobrenome também continua a lógica de A amiga genial no fato que as últimas linhas elevam a história ao grau máximo de tensão que não é resolvido e estende expectativas para o próximo volume. Assim, a narrativa de Elena Ferrante é viva, fluída, envolvente e sobretudo articulada em tensões e grande temas que deixam o leitor preso nas experiências de Elena e Lina. 

2.8.16

A amiga genial, de Elena Ferrante

A amiga genial,  escrito por Elena Ferrante


Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 331
ISBN: 9788525060600
Tradução: Mauricio Santana Dias

'A amiga genial' é narrado pela personagem Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela. As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo o medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes. Elena se dedica à escola e Raffaella se une ao irmão Rino para convencer seu pai a modernizar sua loja. Com a chegada da adolescência, as duas começam a chamar a atenção dos rapazes da vizinhança. Outras preocupações tornam-se parte da rotina; ser reconhecida pela beleza, conseguir um namorado, manter-se virgem até encontrar um bom candidato a marido.

A amiga genial é intrigante desde o nome da autora impresso na capa: Elena Ferrante é o pseudônimo de alguém que permanece oculto há mais de vinte anos. Ela só concede entrevistas por e-mail, só seus editores sabem quem ela é, não recebe prêmios e diz que não pode fazer mais nada por seus livros além de escrevê-los. Seus livros foram elogiados na Itália e em outros países do mundo e, mesmo assim, a autora mantém sua verdadeira identidade escondida. Diante de um período literário em que parece dominar as auto-ficções, ou seja, uma mistura estanha de auto-biografia e ficção em que o personagem parece sempre querer lembrar o autor, até seus nomes são iguais e suas histórias de vida se assemelham, mas os escritores afirmam categoricamente que seus personagens são completamente inventados; diante do hábito que os amantes da literatura tem de procurar os escritores dentro do livros; diante da frequência de perguntas como "como suas experiências próprias se relacionam com a história?"; diante de tudo isso, Elena Ferrante vai na via oposta e põe tais hábitos do avesso: mesmo que haja um esforço para encontrar semelhanças entre a autora de A amiga genial e sua narradora e protagonista, pois ambas se chamam Elena, ambas nasceram em Nápoles, ambas têm o dom da escrita, Elena Ferrante é um pseudônimo, um nome inventado, e em vez de sua personagem se assemelhar com sua autora real, sua autora se torna ficcional como sua personagem. Se trocadilhos são permitidos, a genialidade de A amiga genial começa aí.

Trata-se de uma série de quatro livros conhecida como Tetralogia Napolitana em que A amiga genial é o primeiro e A história do novo sobrenome o segundo volume, ambos publicados no Brasil pela Biblioteca Azul/Editora Globo. Depois de superar o estranhamento por de trás da identidade da autora indicada na capa, o segundo estranhamento também vem antes do texto, pois há uma lista de personagens e pequenos resumos sobre eles como em peças de teatro. O nome do personagem e indicações como, o sapateiro, o confeiteiro, o mecânico, são frequentes em teatro mas não em romances. Entretanto, tal ficha pode ajudar no decorrer da leitura, pois a história apresenta um número bastante elevado de personagens, o que pode causar um problema para memorizar o nome e a constituição de cada família. A história se passa em Nápoles, mas não em toda Nápoles, mas num bairro. O bairro tem sua lógica própria, suas regras próprias e todos devem obedecê-las se querem pertencer ou ao menos sobreviver a esse lugar. Um episódio bizarro com Lila desperta na narradora Elena toda sua infância e adolescência vivida nesse bairro ao lado dessa aamiga. Lila ou Lina ou Raffaella Cerullo, filha do sapateiro, é uma menina terrivelmente inteligente, bastante violenta e maldosa quando quer e naturalmente genial. Lenu ou Lenuccia ou Elena Grego, a narradora, a filha do contínuo da prefeitura, é uma menina esperta, competitiva, influenciável e estudiosa que torna-se a melhor amiga de Lila, ainda que sempre descreva esta como cruel. Em A amiga genial o relato começa na infância e continua pela adolescência até os 16 anos das meninas que vão crescendo numa atmosfera de violência e reprodução da violência, em o dono do bairro, homem maldoso da infância, o ogro das fábulas vai se definindo como agiota, mafioso e contrabandista conforme as meninas tomam conhecimento do mundo. As famílias, sempre definidas pelas profissões, vivem numa relação de comunidade, pobreza compartilhada, competição, fofoca, escândalos. As meninas frequentam a mesma escola fundamental, onde se tornam amigas, mas sempre competindo entre elas. Contudo, a escola se torna um problema permanente, pois a escola coloca em dúvida quem é a amiga genial.


O livro funciona em torno do acontecimento. Sem fluxo de consciência, reflexões filosóficas ou digressões. Tudo é acontecimento, o que o torna muito envolvente. Mas a genialidade de A amiga genial, novamente se trocadilhos não são condenados, está que a violência, as tensões não estão nas coisas grandes, mas no menor, no cotidiano, no naturalizado. Tudo no livro é da ordem do menor, tudo se passa no bairrinho, com pessoas medíocres, entre duas meninas adolescentes. Entretanto é nessa vida menor, nos sapatos, no livro de poesia, no dono da charcuteria, no filho do mecânico, no andar manco que se configuram a violências, os esquemas, a ganância, as tensões sociais, a opressão e todos os dilemas da existência social e individual como o impasse entre negar o bairro e pertencer ao bairro, negar os pais ou ser quem os pais são. E quando tudo parece razoável, na última linha Elena Ferrante, ou quem quer que seja, arranca um grito de desespero do leitor, pois o mínimo detalhe eleva a tensão ao máximo e tudo se torna muito ruim, não em um piscar de olhos, mas de uma palavra para outra. A única solução para aliviar a tensão e o espanto com a história e a euforia diante da qualidade do livro é agradecer que o segundo volume já está publicado em português e começar a lê-lo.

 
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