29.3.17

Febre de Enxofre, de Bruno Ribeiro


Febre de Enxofre, escrito por Bruno Ribeiro

Editora: Penalux
Páginas: 274
ISBN: 9788558331173
Yuri Quirino, um poeta desiludido, após se despedir da mulher amada conhece Manuel di Paula, uma criatura estranha que oferece uma oportunidade peculiar de trabalho para ele: escrever sua biografia. Para escrevê-la, Yuri viaja até a cidade natal de Manuel, Buenos Aires, e termina entrando em uma voragem absurda de horror e perdição.
Yuri e Luciana formam um casal improvável. Ele poeta maldito sem perspectiva e que na maior parte do tempo depende do dinheiro do pai para conseguir sobreviver; ela uma jovem bonita e estudante de Direito que vive de maneira tradicional.
O livro se inicia quando Yuri deixa Luciana no aeroporto em Campina Grande, Paraíba, cidade onde ambos vivem até o momento, para que ela pegue o voo até o Rio de Janeiro, cidade onde ela dará continuidade nos seus estudos. Apesar das diferenças entre eles Yuri é completamente apaixonado por Luciane e fica extremamente abalado com o distanciamento físico e afetivo que essa mudança trará.

Ainda no aeroporto Yuri conhece uma figura estranha, Manuel di Paula, que diz ser um grande fã de sua poesia e exatamente por esse motivo gostaria que Yuri escrevesse sua biografia, mas para isso seria necessário que o poeta se mudasse para sua cidade natal, Buenos Aires.
Yuri de início rejeita a proposta do estranho e retorna ao caos de sua vida.

E você imaginou que eu voltaria como relâmpago, daqueles que kamikazes que se imortalizam no céu na forma de cicatriz. Não. Eu retornei tormenta, daquelas que puxam tudo para o ralo, inundando qualquer rastro de rua. Foi o que ela disse, nunca foi tão poeta como neste dia, nem eu que sou poeta o fui alguma vez; beijou minha boca, te amo, também te amo, e partiu. Judas.

Ao retornar à realidade de sua vida sem Luciana o poeta mergulha no caos e depressão. Vivendo sempre no submundo de Campina Grande, rodeado por bêbados, prostitutas, drogados e sem dinheiro Yuri começa considerar a proposta feita por Manuel di Paula, já que ele não tem perspectiva ou alternativas para continuar se sustentando.

Durante o período que acompanhamos a vida do poeta na cidade paraibana percebemos o quanto Yuri é sensível à realidade, como ele gosta de expor e evidenciar a podridão e a crueza da vida. Acompanhamos o seu processo de enlouquecimento e sua única escapatória é se mudar para Buenos Aires.
(...) é preciso ter cuidado com pessoa danificadas, elas sempre arrumam um jeito de sobreviver, e Luciana sobrevivia criando uma carapaça rígida, deixando que seu lado sensível estivesse protegido de estranhos e eventuais danos.  
A partir do momento que ele se muda para a Argentina o livro muda de tom. O Yuri deprimido dá lugar a um mais debochado e escrachado, que apesar de viver sempre no limite consegue enxergar com mais comicidade os problemas que acontecem na sua vida.

Morando na mansão em ruínas de Manuel di Paula Yuri percebe que está novamente sendo engolido pela loucura dos seus pensamentos e, mais ainda, como está sendo sugado pela figura estranha de di Paula.

Enquanto escreve sua biografia Yuri começa a perceber que ele talvez já conheça Manuel e que sua vida está mais ligada à dele do que poderia imaginar.
Nesse momento o leitor é levado pela loucura de Yuri e começa a se questionar se o que ele narra está acontecendo, se é apenas loucura ou se existe algum traço do sobrenatural permeando a história.

Enfim, é um livro que nos faz mergulhar pouco a pouco na loucura do protagonista narrador e somos levados ao submundo que é a mente de um poeta que sente tudo muito latente, as paixões, a podridão e as coisas ruins geralmente não ditas sobre vida.

26.3.17

O bálsamo, de Tereza Custódio

O bálsamo, escrito por Tereza Custódio
Editora: Chiado
Páginas: 270
ISBN: 978-989-51-9411-7
Lara Castro fica órfã de mãe aos cinco anos de idade. A partir daí, começa sua luta incansável na tentativa de se adaptar aos novos modelos familiares. Nessa caminhada cheia de atropelos, desamparo, bullying e abandono emocional, ela vai relatando suas vivências com lápis de cores ora cinza, ora colorido.
Quando adulta, ao cuidar da avó, Lara resgata a família, recuperando um sentimento de pertencimento desse clã perdido na poeira da vida. Demite-se de um trabalho estafante, e adentra em um novo campo profissional como Cuidadora de Idosos. A partir daí, seus horizontes se alargam e ela passa a ver os aspectos frágeis e vulneráveis do ser humano. Vivencia o desgaste emocional familiar, as dificuldades nas relações geracionais decorrentes de doenças crônicas, luto, viuvez, negligência e violência física e mental contra o idoso. Começa a compreender que o ato de cuidar envolve corpo, mente e alma e, portanto, a compaixão, paciência e resiliência se fazem cada vez mais necessárias.
Ao perceber que pessoas idosas quebram paradigmas e estereótipos, se permitindo novas histórias de amor, um novo mundo vai se descortinando, facilitando o processo de cura e redescoberta daquele coração petrificado e daquele corpo intocável. Novos cenários surgem cheio de cores e musicalidade levando Lara a encontrar o bálsamo para curar sua ferida no Hotel Geriátrico Reviver. Será que doutor Raphael Medeiros – Geriatra e Gerontólogo – iria se interessar por uma simples cuidadora?

Sobre o que se trata?

Lara Castro é uma mulher fragmentada pelo seu passado. Marcada pela perda repentina de sua mãe quando tinha apenas cinco anos de idade e por um relacionamento abusivo e extremamente nocivo, ela precisa contar o seu passado para decidir o que quer para a sua vida – e a para a de Jonas também, seu filho de treze anos. Em busca de sua autoconfiança e de um cotidiano digno, é na profissão de cuidadora de idosos que encontrará o seu conforto e através da qual conseguirá dar vazão à sua índole dócil e altruísta. 

Conhecemos sua infância, seus traumas que surgem neste período, sua adolescência e sua vida de casada. Até então, são várias pessoas destruidoras que apareceram em sua vida, a ponto de tais relacionamentos determinarem uma ausência de afeto que lhe proporcionaram uma autoestima corroída e deficiente. Porém, Lara tem Eva em sua vida, a avó sempre carinhosa. E é esta figura interessante que lhe ajudará na escolha da sua profissão. Por ser tão importante em sua vida, e justamente por necessitar de cuidados e atenção, Eva parece estar em sua vida para lhe dar um rumo, para ser sua guia. 

Minhas impressões

A leitura é fluida, e isto porque a história é gostosa, do tipo que nos acompanha depois de lermos. Torna-se, até, uma espécie de amigo. A impressão que tenho é que acalenta o coração do leitor, justamente porque trata de temas tão significativos como a família e a interação entre gerações. A discussão sobre a importância de se cuidar e proporcionar uma vida digna aos idosos se faz sempre presente, e de diversas formas, seja explícita ou implicitamente.

Outra característica da história que nos é cativante se refere à intertextualidade. Já começamos com a leitura do prefácio, no qual a autora nos revela o porquê do título, extremamente ligado à figura do Sancho Pança e da obra Dom Quixote. Ao destacarmos Dom Quixote, acabamos deixando de lado o fato de que Sancho é seu fiel escudeiro por cuidar sempre dele, e estar sempre ali ao seu lado. Sancho é, pois, a figura de um cuidador, de alguém que providencia uma vida mais afetuosa a outrem, principalmente por sua companhia. Muito se assemelha a este personagem a menina que Eva adotou e criou, a Baía, uma idosa forte e extremamente doce, fiel àquela que a salvou de um destino cruel de desamparo e inanição. E não apenas esta referência literária aparece em O bálsamo, como várias outras, inclusive musicais e históricas. A narrativa de Lara está entremeada pelo contexto histórico por que passou durante sua própria história, e isto é muito bacana de vir à tona. 


Outra questão interessante do livro é a linearidade temporal, ou esta ser tênue, pois o relato de Lara retorna e avança nas memórias quando necessita. Ela não conta do começo ao fim. Ela começa in media res, conta o seu passado e depois retorna ao presente e àquilo que passa a acontecer em sua vida. Por ser um livro de memórias, este fato é muito verossímil porque o tempo psicológico não necessariamente obedece a cronologia habitual. Pelo contrário, eu diria: se tem algo que não pode acontecer neste tipo de narrativa é a linearidade dos fatos. Quanto a isso, cito também a construção dos personagens. Lara amadurece conforme relata aquilo por que passou, ela é complexa – assim como Baía –, e estar a todo momento a par de sua perspectiva nos esclarece isso.

Apesar de o livro necessitar e merecer uma revisão mais atenta e de alguns diálogos serem inorgânicos (com um uso excessivo de vocativos, o que torna a leitura destes trechos truncada e inverossímil), ele foi um companheiro e tanto para o meu sábado! Fiquei emocionada com a história da Lara e com sua forma de enxergar e lidar com o seu próprio cotidiano. Recomendo àqueles que se entusiasmam com dramas familiares e com livros que têm muito a oferecer, enquanto ensinamentos, ao leitor.

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23.3.17

Um mais um, de Jojo Moyes

Um mais um, escrito por Jojo Moyes

Editora: Intrínseca
Páginas: 320
ISBN: 9788580576542
Tradutora: Adalgisa Campos da Silva

Há dez anos, Jess Thomas ficou grávida e largou a escola para se casar com Marty. Dois anos atrás, Marty saiu de casa e nunca mais voltou.
Fazendo faxinas de manhã e trabalhando como garçonete em um pub à noite, Jess mal ganha o suficiente para sustentar a filha Tanzie e o enteado Nicky, que ela cria há oito anos. Jess está muito preocupada com o sensível Nicky, um adolescente gótico e mal-humorado que vive apanhando dos colegas. Já Tanzie, o pequeno gênio da matemática, tem outro problema: ela acabou de receber uma generosa bolsa de estudos em uma escola particular, mas Jess não tem condições de pagar a diferença. Sua única esperança é que a menina vença uma Olimpíada de Matemática que será disputada na Escócia. Mas como eles farão para chegar lá?
Enquanto isso, um dos clientes de faxina de Jess, o gênio da computação Ed Nicholls, decide se refugiar em sua casa de praia por causa de uma denúncia de práticas ilegais envolvendo sua empresa. Entre ele e Jess ocorre o que pode ser chamado de ódio à primeira vista. Mas quando Ed fica bêbado no pub em que Jess trabalha, ela faz questão de deixá-lo em casa, em segurança. Em parte agradecido, mas principalmente para escapar da pressão dos advogados, da ex-mulher e da irmã — que insiste em que ele vá visitar o pai doente —, Ed oferece uma carona a Jess, os filhos e o enorme cão da família até a cidade onde acontecerá o torneio.
Começa então uma viagem repleta de enjoos, comida ruim e engarrafamentos. A situação perfeita para o início de uma história de amor entre uma mãe solteira falida e um geek milionário.
A capa desse livro combina muito com o que podemos esperar da história: o encontro e convívio de cinco personagens únicas e muito diferentes que aprendem a se enxergar, a se respeitar e a se amar.

E definitivamente, em meio a um enredo previsível onde já sabemos o final logo de cara, as personagens ganham destaque e roubam a cena.

Jess é a mãe solteira e trabalhadora que precisa contar cada centavo do seu dinheiro para conseguir pagar as contas do mês. Ela acredita que pessoas boas são recompensadas, mas encara situações que parecem querer mostrar o contrário. Ela conhece seus filhos, sabe das dificuldades que passam por serem diferentes dos outros e sofre por não poder resolver todos os problemas. Ela representa muitas mulheres reais e sua força chega a ser tocante.

Nicky é seu enteado calado, que se veste diferente e que sofre bullying por fugir dos padrões. Com certeza você também já ouviu falar de alguém assim. Mas apesar disso, ele observa tudo o que acontece e tem um grande coração.

Tanzie é uma menina prodígio que arrebenta em matemática e precisa de oportunidades para desenvolver esse talento. A escola particular parece ser a única saída, mas, para isso, primeiro ela precisa vencer uma Olimpíada de Matemática. A maneira dela de pensar é muito interessante e impressiona o leitor.

Ed é um jovem muito rico que corre o risco de perder tudo. Além disso, ele adorava seu trabalho e agora está afastado dele. Sabe aquelas pessoas que se dedicam exclusivamente a uma única coisa? Pois então, agora sua vida parece ter perdido o sentido. Quando vê a família de Jess precisando de uma carona para a Escócia, ele pensa em fazer uma boa ação para retribuir um favor e fugir de sua própria realidade. No começo pensa em desistir, mas ele não tem muito mais o que fazer no momento. A convivência com pessoas tão diferentes, de um nível sócio-econômico tão mais baixo que o dele vai mostrar para Ed um mundo totalmente novo.

Nolan é o cachorro da família que apesar de ser companheiro não facilita muito a viagem de carro.

Durante a narrativa, temos todos esses personagens convivendo por alguns dias enquanto viajam de carro para a Escócia. Com momentos engraçados, tensos e doces, a leitura flui mais fácil do que a trajetória que eles precisam percorrer para chegar a tempo à Olimpíada de Matemática de Tanzie, para se conhecerem melhor e para perceber o quanto precisam um do outro.

13.2.17

História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante

História de quem foge e de quem fica, escrito por Elena Ferrante



Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 416
ISBN: 8525062502
Tradução: Mauricio Santana Dias

A continuação do aclamado A amiga genial
No terceiro volume da série napolitana, Lenu e Lila partem para os embates da vida adulta. Numa sequência angustiante e sem espaço para a inocência de outrora, Elena Ferrante coloca o leitor no meio do turbilhão que se forma das amizades, das relações sociais e dos interesses individuais. História de quem foge e de quem fica é uma obra de arte a respeito do amor, da maternidade, da busca por justiça social e de como é transgressor ser mulher em um mundo comandado pelos homens.

Já escrevi aqui sobre A amiga genial e História do novo sobrenome. História de quem foge e de quem fica é a continuação, o terceiro livro da Série Napolitana. Você pode ler a resenha, (eu ficaria feliz com a leitura), mas não tente ler o livros fora da ordem. Primeiro porque o livro foi pensando como uma série e devemos certo respeito ao projeto da autora, segundo porque não tem como entender a vida adulta de Elena e Lina pulando a infância que está em A amiga genial e a adolescência de História do novo sobrenome. O terceiro livro segue o contrato estabelecido desde o primeiro volume: uma tabela inicial com os nomes dos personagens, as relações familiares e breves resumos que retomam pontos e acontecimentos anteriores; quem comanda a narração é Elena, iniciando de uma forma que recapitule o desaparecimento de Lila que foi o ponto de partida da narrativa, os principais eventos do passado e a cena final do último volume, que tanto no primeiro, quanto no segundo livro firam tipo os últimos capítulos das novelas.

Amiga genial termina quando as meninas têm 16 anos, A História do novo sobrenome quando têm por volta dos 20 anos, História de quem foge e de quem fica começa aí e termina em torno dos 30 anos. Dom Aquille, o dono do bairro e o ogro das fábulas, começa receber o adjetivo de agiota e sua família de fascistas. As violências que passavam como sustos, espetáculos e estranhamentos aos olhos da infância ganham contornos definidos e passam a ser verdadeiramente encenadas e vividas. Não só a vida adulta traz para existência de Elena e Lina dificuldades, violências emocionais e físicas, mas também o mundo social: o bairro pobre em que nasceram leva a toda Nápoles, Nápoles leva a toda Itália, a Itália leva a toda Europa e a Europa ao mundo - explodem os movimentos estudantis e lutas operárias, Maio de 68 na França entusiasma a todos com promessas de melhores futuros, os artiguinhos de esquerda de Elena se tornam verdadeiros relatos das dificuldades da classe operária nas fábricas da periferia; mas por outro lado, o fascismo, a exploração e a repressão deixam de ser somente a ameaça dos irmãos Solara e tornam-se real nas ruas, no trabalho e em toda parte. Quanto mais Elena e Lina crescem enfrentando a deficiências dos próprios corpos que envelhecem e de suas condições de mulheres, inevitavelmente se ligam a uma resistência social. A luta operária e estudantil para as duas, ainda que seja de maneiras diferentes, é uma resistência às violências e opressões individuais em que são submetidas. Antes defendi que os livros eram sobre a violência, mas não aquela dos grandes esquemas de máfia e gangues, mas da violência escamoteada no cotidiano. No terceiro volume da Série Napolitana, a violência é um produto do tempo histórico que se espalha pelo espaço como doença e que só fomenta a gravidade das violência pequenas escondidas nas relações privadas e nos bairros desimportantes.

Se até então a leitora ou o leitor de Elena Ferrante não tinha se sentido colocado contra a parede pela violência do mundo dos homens, nesse terceiro volume isso é impossível. A vida adulta faz emergir toda a potência da dominação masculina: mulheres enganadas, traídas, iludidas, meninos que tentam negar os pais e são iguais eles, vidas sexuais expostas, violência doméstica, manipulação psicológica, rebaixamento acadêmico, escravidão ao papel de mãe, escravidão ao trabalho doméstico, rótulos, deformações do corpo, a repressão do sexo, o nojo do sexo, a imposição do sexo, a vontade do sexo, o salário mais baixo, a posição menos importante, o desespero de ser diferente e o caminho inevitável de ser igual, . Tanto Elena, quanto Lina são massacradas por todas essas questões. Se o esforço da vida toda de Elena foi fugir do bairro e fugir de ser quem a família esperava que ela fosse , e principalmente, de ser o que a mãe era, fica a dúvida se não era inevitável que mesmo diferente, ela fosse igual, mesmo fugindo, ela permanecesse no subúrbio de Nápoles. O fugir e o ficar de Elena e Lina não são concluídos, não tem um ponto final para termos certezas em afirmar se as mudanças são possíveis ou não. Mas se ainda há esperança para Elena e Lina, não se pode dizer o mesmo para os homens. Não importa o quão diferente tentam ser, não importa o quanto tentam se afastar da violência e da dominação exercida nas figuras de seus pais, eles se tornam sempre os próprios pais, eles voltam sempre aos mesmos lugares de partida.

Isso me parece presente desde o primeiro volume, mas essa consciência do mundo masculino e essa visão tão pessimista com relação aos homens parece de forma gritante no terceiro volume da série. Disto é válido pensar que quando Elena Ferrante começou a se tornar um sucesso mundial, ganhar prêmios e elogios da crítica literária, Ferrante fever como foi chamado o fenômeno, levantou-se a hipótese de que se tratasse de um homem, já que ninguém conhecia sua identidade. Um jornalista italiano se deu ao trabalho de vasculhar os dados pessoais e bancários da autora até descobrir sua verdadeira identidade (obviamente era uma mulher!), descobriu-se que é casada com um escritor italiano já famoso e agora levanta-se a hipótese que seja o marido que escreva os livros e não ela. Aparentemente esses levantadores de hipóteses não leram os livros e não perceberam o quanto o mundo masculino é uma das maiores fontes de violência no interior dos romances de Elena Ferrante. A tentativa de dar o crédito do sucesso da escrita a um homem ou desmerecer a autora diante da valorização de seu marido só mostra o quanto a ficção está correta enquanto diagnóstico da realidade. 

28.12.16

Poemas, de Adonis

Poemas, escrito por Adonis


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 262
ISBN: 8535921249
Tradução: Michel Sleiman
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Na poesia de Adonis, mais do que a polifonia das várias vozes, o leitor poderá encontrar o politeísmo de múltiplas verdades - contra a certeza de um Deus, a verdade plural das musas.


Há muito tempo tinha curiosidade sobre a poesia de Adonis. Li algumas coisas dispersas e fiquei intrigada. Perguntei para linda da Mel se podia pedir um livro de poesia e fazer a resenha sobre ele e, obviamente, maravilhosa e aberta como ela é, aceitou. O problema foi que eu mesma não percebi antes as dificuldades de resenhar um livro de poesias. Não tem resumo da história, não tem lista de personagens, não posso lançar alguns acontecimentos gerais da história para fazer outras pessoas ficarem curiosas. Ao mesmo tempo, não posso tratar de um único poema, não posso tirar o poema do seu contexto, não posso ficar recortando trecho como "olha que bonito" e também não consigo dar conta de todos os poemas do livro. O ponto de partida já é um desfio. Entretanto, Adonis vale o esforço.


O livro da Companhia das Letras poderia servir como uma espécie de apresentação do poeta. Ele começa com um prefácio inspirador feito pelo querido Milton Hatoum que faz um resumo sobre a carreira do autor e seu percurso biográfico: nasceu na Síria, formou-se em filosofia em Damasco, exilou-se em Beirute, mudou-se para Paris, traduziu T.S. Eliot e Robert Foster para o árabe, de Paris fundou diversas revistas que tinha o intuito de dar voz a nova poesia árabe, tem intensas relações com autores ocidentais como Rainer Maria Rilke, Baudelaire, Rimbaud, Henri Michaux, Walt Whitman, além das referências em língua árabe como os poetas sufis, al-Hallaj, Abu-Nuwas e al-Níffari e um cosmopolitismo que se estende ainda para outras língua e culturas, como o persa com referências como Shams ud-Din Mohamed Hafiz e Shiraz. Além disso, Milton Hatoum faz sua leitura e seu elogio a poesia de Adonis, recorta alguns trechos e mostra algumas imagens recorrente dessa poesia que, segundo ele, "tenta desvelar a essência do impossível por meio da alquimia verbal" (p. 16).

Há, depois, um breve comentário de algumas páginas do tradutor Michel Sleiman intutulado "Adonis em português" e em seguida, marcado pela referência 1957-1968 iniciam-se as poesias. Antes dos poemas aparecerem efetivamente, há sempre um título maior que agrupa os poemas de cada seção e uma explicação sobre cada uma dessa partes. Por exemplo, a primeira seção intitulada "Do amor, da morte, do que não acaba" vem marcada logo abaixo pela palavra "seleção" e pela explicação: "esse título, dado pela tradução, é formado com base na seleção de poemas tirados dos capítulos 'Poemas de morte', 'Canções de amor', 'Limites do desespero' e 'Poemas que não acabam', de Primeiros poemas, 1957". Ora, como eu disse, isso é uma estratégia interessante como forma de apresentação do autor, recolher algumas poesias, tendo em mente um projeto ou uma razão que justifiquem tais escolhas, é uma maneira de apresentar um pouco, um tema, um lado de determinado poeta. Entretanto, livros de poesia são como vinis ou k7. Vinis voltaram a moda e as K7 infelizmente não, mas quem conhece esses dois objetos sabe que eles pertencem a um tempo em que um gravação era muito caro, não existia Youtube, MTV ou Spotify, não podíamos ouvir o single no Itunes, tínhamos o vinil e ouvíamos tudo que estava ali, pois as músicas se relacionavam, uma fazia ligação com a outra ou respondia a outra, ou contestava a outra, os discos tinham projetos, narrativas próprias, uma lógica interna. Era importante ouvir as faixas na sequência, do começo ao fim para compreender toda essa narrativa. Livros de poesia até permitem saltos, leituras parciais, repetições, assim como os discos, mas sempre há um projeto maior, um sentido no conjunto que perdemos com esses saltos e recortes. Recortes são complicados. Propaganda, vestibulares, facebooks tendem a recortar versos de poemas para transformá-los em frases de auto-ajuda, frases de efeito, recadinhos românticos ou exemplos didáticos, produzindo aí diversos clichês. Poesia é coisa séria e os poemas merecem respeito. Gostar de um verso, recortá-lo, copiá-lo e colá-lo na parede do quarto não é crime, nem pecado, mas o recorte sempre proporciona um risco de perda, perde-se o contexto, perde-se o trabalho do autor com a forma e o conteúdo, perde a potência de sentido, perde a polissemia para reluzi-lo a uma única leitura. Claramente não é o caso do livro aqui em questão, não há recorte de versos, nem a transformação da poesia de Adonis em frases de efeito. Entretanto, há, de toda forma, recorte de livros de poemas, de conjuntos fechados que mereciam a atenção e dedicação de forma individualizada. Os poemas dessa primeira parte pertencem a divisões diferentes do livro original. O autor não divide o livro em partes e encaixa os poemas aleatoriamente. Existe sempre uma razão para os poemas estarem ali, para o nome de cada uma das partes, da sequência do que vem antes e do que vem depois. Em seguida, há uma seção chama "Folhas ao vento" e trata-se de uma seleção de dezoito das cinquenta unidades de poemas - são pequenas unidades de alguns versos que tem sentido sozinhas, claro, mas não foram colocadas sozinhas, elas existem sozinhas, existem como dezoito, mas com absoluta certeza existem de maneira mais completa as cinquenta juntas. Mais para frente, "Os dias do Sacre", temos os dois primeiros poemas que formam um poema bem longo de motivo épico. Ora, ninguém recorta a Odisséia, a Ilíada, a Eneida ou Os Lusíadas. Então, podíamos ter o mesmo respeito com o querido Adonis e não recortar "Os dias do Sacre".

Isso não diminui a beleza do livro. Apesar do risco dos recortes e da seleção, o livro cumpre o papel de despertar o desejo da existência dos livros completos e separados de Adonis. A seleção procura trazer de maneira mais justa possível as árvores de vida e sentido que crescem por sua poesia, a metamorfose da natureza que é também do homem, da experiência e da linguagem, os mitos da Península Arábica que se misturam com os mitos do Ocidente, a busca por um outro lugar de produção da poesia, onde o sentido não está mais dado, mas está em constante e interminável metamorfose e em processo de construção, destruição e reconstrução. Tumba para Nova York, o single internacional de Adonis,  aparece completo trazendo por inteiro sua potência da temática da grande cidade, mas dessa vez a arquitetura da cidade é elaborada por um estrangeiro, um sírio, que conhece Walt Whitman mas que vê ali a violência, o racismo, a "folha-grama" de Whitman virando a "folha-dólar" de Wall Street, asfalto e arranha-céu junto com árvores, serra, sol e Jerusalém. Como há excertos de diversos livros, como já foi apontado, é difícil enumerar tudo o que está contido ali. Há partes mais sociais sobre a condição e a identidade do Oriente, há outras mais existências sobre o amor, a mulher e a morte. Porém, o que me parece maior e que liga todos os pedaços dos livros é a própria linguagem e a poesia como possibilidade de um outro espaço de linguagem. Por isso, atraiu-me especialmente a atenção uma seção nomeada "Guia para viajar pelas florestas do sentido" em que há um empenho de ressignificação do mundo.










É difícil falar de poesia e difícil falar de Adonis. Acho que fiquei muito aquém de uma real compreensão de tudo o que li e falei muito pouco sobre o que senti com a leitura. O livro contém algumas páginas que reproduções a escrita original do poema em árabe. É muito bonito e interessante olhar para isso e parece-me um pouco do que é o próprio processo de leitura da poesia: é olhar para uma outra língua que tem os mais potentes sentidos escondidos em sutis traços e pequenos pontos, pequenos nadas, como disse Manuel Bandeira. 



11.12.16

Te vendo um cachorro, de Juan Pablo Villalobos

Te vendo um cachorro, escrito por Juan Pablo Villalobos



Editora: Companhia das Letras
Páginas: 248
ISBN: 8535926313
Tradução: Sérgio Molina
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Encerrando a trilogia sobre o México, Juan Pablo Villalobos cria um ambiente farsesco em torno de velhos aposentados e tece uma crítica mordaz à vida em sociedade. Aos 78 anos, Teo se muda para um prédio decadente cheio de anciãos. Passa os dias ouvindo as fofocas nos corredores, nutrindo desejos eróticos pela síndica e calculando quantas cervejas pode beber por dia às custas de um pecúlio que deve durar até sua morte. O grande evento do prédio é uma tertúlia literária: os participantes se impõem o desafio de ler os sete tomos de Em busca do tempo perdido, intercalando Proust com aulas de modelagem e ginástica aeróbica. Com este romance, Juan Pablo Villalobos encerra a trilogia sobre o México iniciada com Festa no covil. Mais afiado do que nunca, o autor debruça-se sobre a velhice, o cotidiano e a literatura para tecer uma crítica sagaz sobre a vida em sociedade.
No começo do ano escrevi aqui uma resenha de Festa no Covil. Tentei contar um pouco a minha sensação de estranhamento de pegar aquele livro laranja brilhante, com um título bizarro e encontrar uma narrativa incrível, surpreendente, que tinha, no seu centro, um tema arriscado, mas que era trabalhado de forma cuidadosa para não se tornar maniqueísta. Li Festa no Covil para o clube do livro da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo; um dos participantes comentou que se o livro pertencia a um projeto de abordar o narcotráfico no México por perspectivas diferentes. Festa no Covil era pela perspectiva de uma criança, e segundo o moço, os outros seriam pela perspectiva de um velho e de um cachorro. Bom, guardei essa informação e quando pedi o livro Te vendo um cachorro para Companhia das Letras, esperava, obviamente, novamente me surpreender, mas agora com um cachorro narrando (de alguma forma) a questão do narcotráfico. Expectativa frustrada de novo!!! E positivamente, de novo também!

Como diz a pequena sinopse que coloquei acima, acho que podemos considerar que se há um tema comum na trilogia composta por Festa no Covil, Se vivêssemos num lugar normal e Te vendo um cachorro, então este tema é o México. Te vendo um cachorro é narrado por um velho, e não por um cachorro, que se muda para um prédio decadente habitado somente por velhos e aposentados. Logo quando chega ao prédio, ele se encontra com a Tertúlia Literária, uma espécie de clube do livro dos moradores. Eles pressupõe que o narrador é um artista e se decepcionam rapidamente quando descobrem que ele não passa de um vendedor de tacos aposentado. O narrador mais parece um protagonista do Woody Allen com cores de América Latina. Ele fala muito, opina sobre tudo, ironiza todas as situações e pessoas a sua volta, provoca a tertúlia literária, principalmente a líder deles, também síndica do prédio, Francesca, que cisma que ele está escrevendo um romance. Ele diz o tempo todo, para a tertúlia e para o leitor, que não está.

Ele tem calculado o quanto pode viver de acordo com suas economias, mas principalmente quantas cervejas pode tomar. Passa o livro inteiro tomando cervejas e boa parte dele arrumando maneiras de as conseguir de graça. Digo ele porque numa primeira parte do livro o narrador não é nomeado. Um dia ele decide roubar uma Teoria Estética de Theodor Adorno de uma biblioteca pública, passa usar o livro para afastar telemarketings, vendedores ambulantes e corretor de seguro. Além disso, usa a Teoria Estética para matar as baratas do seu apartamento. Então, numa conversa com a dona da quitanda da rua, eles decidem que estão numa missão e que não deveriam usar seus nomes verdadeiros, e por isso o narrador escolhe ser chamado de Teo, de Theodoro, que persiste como seu nome até o final do livro.

A capa azul brilhante, o nome Te vendo um cachorro provocam um contraste imediato, e até uma risada em alguns, quando se olha o índice do livro:

11 - Teoria Estética
125 - Notas de literatura

Títulos muito sérios e técnicos da área de teoria literária para um livro que parece tão pouco sério num primeiro olhar. Inicialmente, ainda podiam ser nomes gerais, contudo a referência a Adorno é confirmada, como já foi falado. Para quem não conhece, trata-se de um intelectual alemão da chamada Escola de Frankfurt que escreveu sobre muitas coisas diferentes, mas todos seus textos têm algo em comum: são conhecidos por serem bem complicados e desafios de leitura. É bastante comum no meio universitário de encontrar professores importantes que admitem as dificuldades dos textos de Adorno. O top da lista pode mudar, mas com certeza a Teoria Estética está entre os livros mais difíceis do autor. Tendo isto em vista, a referência a Adorno saindo da "boca" de alguém tão desbocado debochado quanto Teo, já é engraçado; já usar o livro como maneira de afastar operadores de telemarketings soa como uma ideia genial e promissora, mas também muito cômica. O livro se torna quase que um amuleto para o narrador, até que ele é capturado e feito refém pela tertúlia literária. Teo, como vingança, captura os exemplares de Em busca do tempo perdido que a tertúlia estava lendo e tenta substituir a Teoria Estética por Notas de Literatura. Mas o volume III de Notas de Literatura é muito fino para matar as baratas.

Esses pequenos detalhes já podem dar uma ideia geral do funcionamento da narrativa: além do narrador irônico e provocador, há uma aparência de realismo, de seriedade que vai sendo frustrada aos poucos. As pessoas no prédio fazem exposição de esculturas de passarinhos feitos de miolos de pão, Teo expulsa as baratas do seu apartamento por música cubana, pois aparentemente baratas são conservadoras e de direita, lota um elevador até o teto de baratas, entre outras coisas. O mundo que parece real começa a ficar cheio de acontecimentos absurdos e o leitor tem que trabalhar suas expectativas em torno da verossimilhança. Mas a melhor parte é que tudo isso acontece com muito humor, sem ser de forma forçada ou vulgar.

Entretanto, além da oscilação entre possível e impossível, ficção e crítica literária, há outro movimento em torno desse humor que contrasta com uma melancolia que vem da rememoração: a infância com os conflitos entre o pai, acusado de temperado artístico, e a mãe que tentava saciar a solidão na companhia de cachorros; os cachorros que morreram engolindo meias; a separação do pai; a mãe que tinha certeza da morte; o amor e o desejo frustrados  da adolescência; a perda de tudo; o fim da escola de artes; a vida de taqueiro; a verdade de vender tacos com carne de cachorro; a vontade da arte que ficou frustrada dentro de si.

Num primeiro plano, o humor. Num segundo plano, a melancolia dos dilemas individuais. E mais ali no fundo, uma relação entre os acontecimentos engraçados, as frustrações pessoais e os problema políticos da sociedade mexicana. O livro de Juan Pablo Villalobos é bastante complexo por trás da aparente não-seriedade, além de ser, assim como Festa no Covil, uma leitura surpreendente, ousada e bastante engraçada. 

20.11.16

Conheça o trabalho da Karenina Marzulo


No vídeo especial de hoje eu compartilhei as ilustrações lindíssimas da Karenina Marzulo que está numa campanha de financiamento coletivo para transformar o seu conto poético em livro! A história é repleta de simbolismos e ambientada em cenário surreal (o que muito me lembrou de Alice no país das maravilhas)!
Flaminga ao fazer aniversário ganha uma viagem de presente e em uma floresta acaba por se encontrar. Flaminga é uma menina? É um sentimento? Se reconhece Flaminga?
Ajude Flaminga e os flamingos a virar livro! Saiba como no site do projeto!


Lá tem tudo explicadinho, e podemos contribuir até dia 12/12/2016!

Mas a Karenina preparou um mimo especial para quem conheceu a campanha aqui pelo Literature-se. Se você contribuir, é só informá-la (no e-mail de agradecimento no final da campanha) que fui eu que te contei do Flaminga que receberá um cartão postal


En finir avec Eddy Bellegueule, de Édouard Louis

En finir avec Eddy Bellegueule, escrito por Édouard Louis 


Editora: Seuil
Páginas: 219
ISBN-10: 2021117707
ISBN-13: 978-2021117707
Língua: Francês

"De repente, saí correndo. Era só o tempo de ouvir minha mãe dizer O que o idiota tá fazendo? Eu não queria ficar do lado deles, eu me recusava de compartilhar esse momento com eles. Eu já estava longe, já não pertencia mais ao mundo deles, a carta dizia. Eu fui até o campo e andei uma boa parte da noite, o frescor do Norte, os caminhos de terra, o cheiro das flores muito forte nessa época do ano. A noite toda eu consagrei a elaborar minha nova vida longe "daqui". Na verdade, a insurreição contra meus pais, contra a pobreza, contra minha classe social e seu racismo, sua violência, seus costumes só vieram depois. Pois antes que eu me revoltasse contra o mundo de minha infância, esse mundo se revoltou contra mim. Muito rápido, eu fui, para minha família e para os outros, uma fonte de vergonha e mesmo de nojo. Minha única escolha foi fugir. Esse livro é uma forma de tentar entender" (tradução própria).

Consultei a Mel Ferraz antes de escrever essa resenha, pois se trata de um livro que ainda não foi traduzido para o português. Queria saber se ela achava ruim falar de um livro cujo público se limita devido essa diferença de língua. A Mel, como sempre muito disposta e aberta, me disse que seria interessante falar do livro mesmo assim. Quem sabe isso não possa aumentar as possibilidades de que um dia ele seja traduzido e torne-se mais acessível para leitores brasileiros.

O título poderia ser algo como "Para acabar com Eddy Bellegueule", lançado em 2014 por um moço que atualmente tem 24 anos e atualmente se chama Édouard Louis. Digo atualmente porque ele se chamava Eddy Bellegueule e mudou seu nome pouco antes do livro ser lançado. Auto-biografia ou auto-ficção ou romance, coloquem a etiqueta que mais lhes agrada, pois etiquetas nunca dão conta de tudo e muito menos de um livro como esse. Édouard Louis narra a si mesmo, mas principalmente narra quem ele foi e quem ele decidiu não ser mais, alguém com quem ele decidiu acabar, matar a si mesmo, matar Eddy para que pudesse ser Édouard Louis. Logo, sua mudança de nome na realidade acompanha sua proposta de ficção.

Isto pode parecer interessante para alguns, mais do mesmo para outros. Entretanto, as primeiras linhas do livro já deixam claro a força de tal desconstrução/construção de identidade:

"De minha infância eu não tenho nenhuma lembrança feliz. Não quero dizer que, durante esses anos, eu nunca tenha experimentado um sentimento de felicidade ou alegria. Simplesmente o sofrimento é totalitário: tudo o que não entra no seu sistema, ele faz desaparecer" (tradução própria).

Não há aqui espaço para meias-palavras. Admitir o sofrimento é já em si um problema, pois pode trazer à tona culpas e vergonhas. É exatamente esse o caminho do texto: admitir o sofrimento, narrar a dor, admitir que a dor é algo com que nunca se acostuma, para ressignificar as culpas e as vergonhas.

O narrador conta dos sofrimentos de sua infância que eram causados, especialmente, pelo fato de ele ser homossexual. Na realidade, ele era um menino que não correspondia aos padrões e aos comportamentos esperados dos meninos do meio social em que ele vivia. Em sua casa moravam 7 pessoas com uma renda de 700 euros por mês: seu pai, como a maioria dos homens da minúscula cidadezinha do norte da França, era operário de uma fábrica, forte, duro, violento, inflexível, o chefe da casa e da família, o provedor, o dono da palavra final; sua mãe, dona de casa, mas que também cuidava de velinhos, o que causou um problema quando ela começou a ganhar mais do que o marido, tinha ficado grávida aos 16 anos, queria um filho que fosse um Don Juan entre as mulheres e uma filha que passeasse com ela para fazer compras; era a mulher que sempre defendia o marido, independente do comportamento violento que ele pudesse ter. Além dos pais havia seus irmãos, todos numa casa minúscula, marcada pela umidade, janelas quebradas, falta de água quente, falta de comida e pelo barulho da televisão.

O caminho: ir a escola, a única da cidade, ir ao ensino médio, o único da cidade, ir trabalhar na fábrica, como os homens da cidade faziam, casar-se com uma mulher e ir ao bar beber com os amigos, como o pai e o irmão mais velho faziam. Um futuro conhecido. O problema do menino Eddy é que ele apresentava "ares afeminados" que não correspondiam ao que seu pai, seu irmão e esses outros homens da fábrica e do bar achavam que um homem deveria ser. Isto lhe proporcionou, além da repreensão e da rejeição da própria família, violência física e vergonha nos anos de escola. Mas para ele mesmo, Eddy, ele devia ter um problema, ele era um problema. O que era certo na família, na escola e na cidade também era o certo para ele e ele não era certo, havia algo "errado" em si que ele tentava mudar, tentava imitar o comportamento dos outros, jogar futebol, andar entre os homens, namorar meninas, assistir televisão o dia todo, mas no final era sempre traído pelo próprio corpo que o levava para o oposto de tudo isso. Além da relação com os outros, havia a decepção com si próprio, de ser para si mesmo incorrigível.

No mesmo tom direto das primeiras linhas, o resto do livro segue explícito em contar a dor e a violência que eram físicas, mas também aquelas ligadas a imposição de um padrão e de um futuro pré-estabelecido, a vergonha, a impossibilidade de certas identidades, o medo, a frustração consigo mesmo, a dor de ser obrigado a fingir ser diferente do que realmente é e de se sentir estranho, sozinho, errado e anormal. Não é uma história bonitinha para rir. Não é também uma história sobre um menininho especial e diferente que não se encaixava num mundo de pessoas grosseiras e más. Trata-se das violências dos discursos, dos lugares, dos padrões. Eddy é a vítima, mas todos os são. A história não é uma vingança contra todos aqueles que o fizeram sofrer na infância. Também não é para matar o menino Eddy, no sentido de condenar o mundo que o fez e que o criou. Mas o livro todo é a tentativa de refletir sobre as violências que compõem os ambientes e os discursos que habitamos e como é possível construir uma identidade em meio a tal violência. Pensar na identidade não é só ser igual ou diferente, não é um jogo em que o diferente é o especial e mais inteligente, protagonistas de livros e filmes de hollywood. É isso que faz a o livro de Édouard Louis tão especial: uma semelhança intensa e dolorosa com a complexidade da realidade, em que não há uma divisão entre maus e bons; onde a dor, o sofrimento e a violência são as experiências mais fortes e mais importantes.


Logo, não é uma leitura leve e de risadas. Mas, assim como o narrador descreve sua infância, não significa que não há momentos de felicidade. Contudo, o que dá sua força e o que faz com que esse texto seja merecedor de uma tradução para o português é justamente a reflexão sincera e profunda sobre as possibilidades de ser e não ser. 

15.11.16

A lista de Brett, de Lori Nelson Spielman

A lista de Brett, escrito por Lori Nelson Spielman

Editora: Verus
Páginas: 364
ISBN: 9788576862390
Tradutora: Ana Death Duarte

Brett Bohlinger parece ter tudo na vida – um ótimo emprego como executiva de publicidade, um namorado lindo e um loft moderno e espaçoso. Até que sua adorada mãe morre e deixa no testamento uma ordem: para receber sua parte na gorda herança, Brett precisa completar a lista de sonhos que escreveu quando era uma ingênua adolescente.
Deprimida e de luto, Brett não consegue entender a decisão de sua mãe. Seus desejos adolescentes não têm nada a ver com suas ambições de agora, aos trinta e quatro anos. Alguns itens da lista exigiriam que ela reinventasse sua vida inteira. Outros parecem mesmo impossíveis. Com relutância, Brett embarca numa jornada emocionante em busca de seus sonhos de adolescência.
O livro A lista de Brett é daqueles que já começa com um choque: Elizabeth, a mãe de Brett, acaba de morrer. Brett fica arrasada e já nos primeiros parágrafos do livro podemos notar como a relação das duas era bonita e o quanto se amavam.

No dia de abrir o testamento, Brett já imaginava o que faria como presidente da empresa de cosméticos de sua mãe, na qual já trabalhava no departamento de marketing.

Entretanto, não é bem isso o que acontece. Seus irmãos pegam sua parte da herança, mas não Brett. No testamento, sua mãe diz que encontrou uma lista de sonhos que a filha escreveu aos 14 anos e diz que ela só receberá sua parte da herança se cumprir todos os itens no prazo de um ano.

Vocês podem imaginar o quanto Brett ficou feliz com essa exigência, não é? Agora, com 34 anos, nada daquilo fazia parte de sua vida e ela não entendia o propósito de sua mãe ao colocá-la nessa cilada.

O livro conta então a jornada de Brett em busca de seus antigos sonhos, uma jornada de reencontro e descoberta de si mesma. Não tem como não querer fazer uma lista de sonhos ao fim do livro e torcer para que eles tragam momentos especiais, ainda que às vezes sejam caminhos difíceis de seguir.
"Assuma os riscos e veja onde você aterrissa, pois são eles que fazem a jornada valer a pena."
A narrativa é deliciosa. Vamos acompanhando Brett, torcendo para que ela cumpra suas metas, prevendo alguns acontecimentos e sendo surpreendidos por outros.

Uma das coisas que gostei no livro é que a autora dá a possibilidade de vários romances, vão surgindo pares ideais para a protagonista e a gente torce por um, depois muda para o outro, volta para o anterior, mas no final ficamos em dúvida e não sabemos qual o caminho que a história vai tomar.

Recomendo esse livro que além de ser uma leitura muito prazerosa, nos encoraja a lutar por aqueles sonhos que deixamos escondidos.
"Mas há um limite para o que as fadas madrinhas podem fazer. Eu acho que cada um tem o poder de realizar os próprios desejos. Só precisamos encontrar coragem para isso."

23.10.16

Mary Poppins, de P. L. Travers

Mary Poppins, escrito por P. L. Travers

Editora: Harper Collins
Páginas: 192
ISBN: 9780007286416
A história se passa em Londres, na Rua das Cerejeiras. A família Banks procura desesperadamente uma babá para seus filhos Michael, Jane e os gêmeos John e Bárbara, que são temperamentais e teimosos. Eis então que os ventos do Leste sopram e Mary Poppins chega para por ordem na bagunça, com seu jeitinho muito especial.
Mary Poppins é um clássico da literatura infantil inglesa que vem conquistando crianças (e adultos) por mais de 80 anos. 

A história que virou musical da Broadway, musical da Disney e que vai ser relançada no cinema ano que vem, nos traz uma babá nada convencional que chega com o vento do leste e promete trazer muita fantasia e situações inexplicáveis para as crianças da família Banks.

Cada capítulo traz uma personagem nova e inusitada que já conhece Mary Poppins de algum lugar e que encanta as crianças, como um tio que flutua quando está feliz, animais que falam e parecem humanos e uma das estrelas da constelação das Sete Irmãs. Ao final do capítulo, as crianças nunca sabem se aquilo de fato ocorreu ou se foi só um sonho, e Mary Poppins nunca confirma nada.

O livro foge bem da realidade, é preciso estar com a razão desligada e a imaginação a postos para aceitar as personagens e situações que aparecem na narrativa.

Apesar de trazer tanta magia para a vida das crianças, Mary Poppins não é aquela babá boazinha, meiga e carinhosa que eu estava esperando. Pelo contrário, ela fala pouco e na maioria das vezes está chamando a atenção das crianças, nunca responde as perguntas que eles lhe fazem e ainda fica brava quando eles perguntam muito. 

Fiquei pensando o que fez com que Michael, Jane e os bebês gêmeos gostassem tanto dela e cheguei à conclusão de que ela trouxe vida ao mundo deles. As crianças pouco se relacionavam com os pais (muito pouco mesmo), ficavam totalmente entregues às babás. Mary Poppins fez com que elas se divertissem com momentos mágicos e foi isso que as conquistou.

Além disso, apesar do que é dito no livro, não achei as crianças terríveis. A não ser em uma situação ou outra, achei que elas eram bem obedientes e seguiam as regras estabelecidas.

Vale a pena conhecer esse clássico infantil que nos faz acreditar no impossível ao longo de suas páginas.

 
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