18.6.16

Como eu era antes de você, de Jojo Moyes

Como eu era antes de você, escrito por Jojo Moyes

Editora: Intrínseca
Páginas: 320
ISBN: 9788580573299
Tradução: Beatriz Horta

Aos 26 anos, Louisa Clark não tem muitas ambições. Ela mora com os pais, a irmã mãe solteira, o sobrinho pequeno e um avô que precisa de cuidados constantes desde que sofreu um derrame. Além disso, trabalha como garçonete num café, um emprego que ela adora e que, apesar de não pagar muito, ajuda nas despesas. E namora Patrick, um triatleta que não parece interessado nela. Não que ela se importe.
Quando o café fecha as portas, Lou se vê obrigada a procurar outro emprego. Sem muitas qualificações, a ex-garçonete consegue trabalho como cuidadora de um tetraplégico. Will Traynor, de 35 anos, é inteligente, rico e mal-humorado. Preso a uma cadeira de rodas depois de um acidente de moto, o antes ativo e esportivo Will desconta toda a sua amargura em quem estiver por perto e planeja dar um fim ao seu sofrimento. O que Will não sabe é que Lou está prestes a trazer cor a sua vida. E nenhum dos dois desconfia de que irá mudar para sempre a história um do outro.
Como eu era antes de você foi um livro muito comentado, ainda mais por ter sido adaptado para o cinema, o que atiçou minha curiosidade para lê-lo. Só o que eu sabia, quando o peguei, era que as pessoas choravam por causa de sua história.

Nessa narrativa temos Louisa e Will como protagonistas. Ela meio atrapalhada, vestida com roupas diferentes do usual e com problemas comuns de família. Ele mal-humorado, desiludido e disposto a acabar com o sofrimento no qual sua vida se transformou depois de ficar tetraplégico.

Durante a leitura, é muito fácil nos identificarmos com as personagens e com o romance, são dois personagens que nos atraem e nos fazem querer acompanhar sua história que não começa muito bem, principalmente porque Will não estava disposto a se relacionar com outras pessoas.

Mas aos poucos as diferenças entre eles vão aproximando-os, passamos a conhecer um lado mais humano de Will e um lado mais sofrido de Louisa.

A história segue pela linha dos clichês românticos, mas também foge um pouco deles, porque nem sempre as coisas acontecem como esperamos.

A escrita da autora é bem simples e fácil de acompanhar. Em alguns momentos, eu gostaria que ela tivesse se aprofundado mais, contado com mais detalhes diálogos e momentos que passaram rápido para mim.

Recomendo para quem gosta de romances, de histórias tocantes e de personagens apaixonantes!

O livro tem uma continuação que foi publicada este ano, chamada Depois de Você, e que quero ler também. Mas antes, quero muito assistir ao filme para gastar mais algumas lágrimas. Os trailers já me encantaram e eu acho que a adaptação tem tudo para ser excelente!

14.6.16

Só garotos, de Patti Smith

Só garotos, escrito por Patti Smith


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 240
ISBN: 8535917764
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

Patti Smith se mudou para Nova York com vinte anos, no final dos anos 1960. Enquanto entrava em contato com parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera do 'verão do amor', conheceu sua primeira grande paixão - o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de AIDS, em 1989. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, este livro procura ser um retrato confessional da contracultura americana dos anos 1970. Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição, os dois viveram períodos de transformações - até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens consideradas ousadas começam a ser reconhecidas no mundo da arte.


Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho."Oh, tire uma foto deles", disse a mulher para o marido distraído, "acho que são artistas"."Ora, vamos logo", ele deu os ombros. "São só garotos". 
O livro de Patti Smith é um autobiografia e uma biografia ao mesmo tempo. A autobiografia por excelência é aquele livro em que deve haver uma coincidência entre o nome do autor escrito na capa, o nome do protagonista e a identidade do narrador. Logo, um narrador mais velho que relembra sua vida desde a infância. Tudo isso se cumpre: o livro começa com a infância de Patti em Nova Jersey, suas brincadeiras de soldado com os irmãos, a mãe lhe dizendo que não poderia andar sem camisa como os irmãos homens porque era uma moça, sua adolescência no rock'n'roll e depois sua mudança para Nova York. Entretanto, na cidade grande Patti conhece Robert, aquele que vai ser seu namorado por um tempo mas seu amigo e companheiro de busca pela arte e pela carreira artística pelo resto da vida. Antes de começar a contar sua infância, nas primeiras páginas do livros, ela fala de Robert e quando o viu pela última vez. O livro acaba no mesmo ponto. E os capítulos de sua infância são alternados com a infância de Robert. Assim, o livro "Só garotos" é uma autobiografia dela, a cantora Patti Smith, mas também uma biografia de Robert Mapplethorpe, da geração beatnick, dos anos 60 e 70 e da cidade de Nova York.



A autora conta como seu grande desejo sempre foi ser poeta e não cantora. Ela escrevia poemas e desenhava. Robert era mais dado às artes plásticas, desenhava, fazia colagens, intervenções, colares e fotografias. Ambos queriam viver dedicados à arte e isso lhes custou dias e noites de fome e escassez. Viviam com muito pouco dinheiro e pouquíssimos bens pessoais, se alimentavam de comida pronta daquelas máquinas que ficam em lojas e estações de metrô, reaproveitavam tudo o que encontravam, pois não tinham dinheiro para o próprio material de arte. Viveram em diversos bairros e exploravam o espaço da cidade, os cafés, o Central Park, Brooklyn, Coney Island, Village Gate, Fifith Avenue, Twenty-third Stret, Forty-Second Street, Eighteenth Street, com seus jovens beatniks, protitutas, artistas, anarquistas, com as greves, com os ratos e tudo o que NY nos anos 70 pode suscitar na imaginação.

A ligação de Patti Smith com a literatura transborda em todas as páginas do livro. Além das referências musicais como Dylan, Stones, Edith Piaf, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Billy Holiday, Mile Davis e referências como Marcel Duchamp, Andy Warhol, o livro está repleto de referências literárias que a inspiraram como Faulkner, Goethe, Baudelaire, Louisa May Alcott, Jack Kerouac, Jean Genet, Marcel Proust, Gérard de Nerval, Oscar Wilde e sua inspiração maior, Arthur Rimbaud. Há diversas partes sobre sua paixão desmedida por Rimbaud que incluem duas viagens para Paris, uma delas somente para encontrar a inspiração de Rimbaud pelas ruas e escrever sobre ele.


Estas mil alusões artísticas e literárias complementam as descrições dos trabalhos que ela e Robert faziam. Seus impulsos artísticos estavam desde horas de trabalho desenhando e escrevendo, até a forma que se vestiam, compondo personagens para transitar pela cidade. Todas as descrições do livro esculpem a imagem de uma geração de "garotos" que se contrapunham a ordem estabelecida, que queriam ser "anti-burgueses", embora muitos deles "aburguesaram", como a própria autora diz. Uma geração afetada por doenças e pelas drogas, mas dedicada a arte.

A profusão artística em que Patti Smith se inseria, se sentar num café e ter Jimi Hendrix e Janis Joplin nas mesas ao lado, ainda que ela não fosse conhecida porque não passava de uma menina qualquer de 22 anos levaram com que, aos poucos, transformasse seus poemas em canções. Ela caminhou para música e Robert caminhou para fotografia, as capas dos seus primeiros cds foram feitas por ele.

O livro é maravilhoso e inspirador, além de ser muito bonito trazendo inúmeras fotos preto branco que ilustram a relação de Patti e Robert e o trabalho artístico dos dois. Muitas pessoas não gostam de biografias ou autobiografias por não trazerem mais nada além de informações da vida da pessoa. De alguma maneira, isso faz parte do próprio gênero literário que se propõe a contar a vida de alguém. Entretanto, o livro de Patti Smith é muito além de uma autobiografia, é um livro sobre a cidade de Nova York, sobre o poder da arte e sobre uma geração que acreditava nesse poder.

5.6.16

Grito, de Godofredo de Oliveira Neto


Grito, escrito por Godofredo de Oliveira Neto

Editora: Record
Páginas: 160
ISBN: 9788501107015
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Construído de forma que a performance e a teatralidade ocupem um lugar central, Grito é o epílogo da octogenária Eugênia e sua relação com o jovem e ambicioso Fausto. Em 21 atos, a narrativa é marcada pelo embate entre as esferas do real e do imaginário. Godofredo de Oliveira Neto experimenta formatos e problematiza a linguagem, conduzindo a partir da perspectiva da ex-atriz de teatro uma trama que transita entre o mundo da criação e da encenação.
O cenário é o bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, e a narradora é a octogenária Eugênia, atriz de teatro aposentada que relata em 21 atos a forma que encontrou de continuar tendo a arte como o ponto central de sua vida mesmo afastada dos palcos.
Fausto traz alegria diariamente para este apartamentozinho pequeno onde vivo com os meus personagens passados e presentes, imaginados e recriados todas as noites depois de um cálice de vinho por recomendação do médico.
Seu palco imaginário é a sala de seu vizinho de prédio, Fausto, um jovem de 19 anos, aspirante a ator e, segundo Eugênia, dono de uma beleza ímpar. 

Fausto e Eugênia vivem uma relação de cumplicidade e paixão ao teatro. Os ensaios dão a Eugênia novamente um sentido para sua existência, enquanto Fausto absorve todo o conhecimento e experiência que a atriz com seu gabarito podem oferecer.

A partir dos estreitamentos dos laços a relação passa da cumplicidade à posse por parte de Eugênia e transcendem a condição de mestre e aprendiz. A idosa acredita que ela basta à vida de Fausto e que pode suprir todas as suas necessidades. Passa a não aceitar qualquer relação, seja amorosa, profissional ou de amizade, na vida do jovem e usa da internet para investigar os passos do jovem ator e interferir caso ache necessário.
Penso que os amigos criados por Fausto no ambiente efêmero de trabalho vêm com o propósito de preencher a solidão. Vizinhos já ouviram sua voz grandiloquente representando outra pessoa, como se estivesse conversando com amigos. No fundo, ele só tem a mim como amiga e cúmplice de sua arte.
O relato de Eugênia transita entre a realidade e a fantasia, entre suas encenações e sua pacata vida de aposentada e leva o leitor a questionar a veracidade do que a atriz narra. Será aquele trecho parte de alguma peça ou algo que realmente aconteceu na vida de Eugênia e Fausto? Essa dúvida permeia toda a narrativa, que é pungente assim como a intensidade desse relacionamento.

O livro é audacioso e nos leva a um final totalmente inesperado, tão imersos ficamos ao ler os relatos da atriz. Além disso, todo o romance é composto por referências à arte, ao teatro e aos livros e ao final dele sentimos a necessidade de ler tudo o que levou Eugênia àquele trágico final.
"O amor é mera lascívia do sangue e simples complacência do desejo." O Hildebrando, meu falecido marido, costumava repetir essa frase, mas dita pelo Fausto a exclamação ganha uma dramaticidade impressionante. O espaço do trezentos e dezoito vira poesia,
O teatro também é a base para a construção dos personagens. Além da clara referência a Fausto de Goethe, obra que Eugênia já leu e releu à exaustão, também temos referência ao Dr. Fausto de Thomas Mann e, sobretudo, Otelo de Shakespeare.

3.6.16

O Melhor de Mim, de Nicholas Sparks

O Melhor de Mim, escrito por Nicholas Sparks
Editora: Arqueiro
Páginas: 272
ISBN: 9788580413342
Tradução: Fabiano Morais
Depois de se apaixonarem na adolescência, Dawson Cole e Amanda Collier foram separados pelas diferenças sociais. Passados 25 anos, eles voltam a se encontrar na pequena cidade em que nasceram.
Amanda está casada há mais de 20 anos, teve quatro filhos, desistiu da profissão que sonhara ter e enfrenta graves problemas no relacionamento com o marido, um dentista que vem se entregando a doses cada vez maiores de álcool desde que a terceira filha do casal morreu, vítima de câncer.
Após causar um acidente e ficar quatro anos preso, Dawson passa a trabalhar em uma plataforma de petróleo. Quando não está embarcado, vive em uma casinha simples e isolada, onde lê, cuida das tarefas domésticas e restaura seu Mustang 1969. Desde que terminou com Amanda, nunca mais se apaixonou.
Agora, de volta à sua cidade natal por um fim de semana, os dois serão confrontados com o passado e com tudo o que suas vidas poderiam ter sido.
Eles, que romperam o relacionamento apesar de se amarem muito, irão perceber que já não são as mesmas pessoas da juventude. Porém essa descoberta, em vez de afastá-los, reforçará o amor que jamais deixaram de nutrir um pelo outro. Mas como permitir que esse sentimento aflore, sem destruir a família de Amanda? Será que um amor verdadeiro pode reescrever o passado?
Já tinha assistido a vários filmes baseados nas obras de Nicholas Sparks, mas esse foi meu primeiro contato com um livro desse autor tão conhecido.

A história é um romance entre Dawson e Amanda que foram completamente apaixonados na adolescência, se reencontraram 25 anos depois e se descobriram ainda apaixonados.

Apesar de ser um romance, um gênero geralmente muito previsível, esse não é o caso dessa narrativa. Ainda que alguns elementos possam ser "adivinhados" ao longo da leitura e que haja vários clichês nas frases românticas, o autor consegue colocar uma dose de surpresas, fazendo com que esperemos por algumas coisas que não acontecem como tínhamos previsto.

Com essas surpresas, a história em si deixa o leitor curioso para saber o que acontecerá com Dawson e Amanda e se eles ficarão juntos apesar das dificuldades. 

Comigo foi isso o que aconteceu, a narrativa me prendeu, mas não gostei muito da linguagem utilizada e da forma como ela foi escrita. O que me incomodou foi a sensação de que não há espaço para mim, o leitor, no livro. Não consigo explicar exatamente esse sentimento, mas é assim que me senti, como se eu não precisasse compreender determinadas ações e nem relacionar informações e acontecimentos, porque tudo já era me dado pronto. Além disso, as descrições de lugares ou situações que não eram necessárias para o desenvolvimento da narrativa também me incomodaram um pouco.

Por fim, não gostei tanto da leitura, mas acredito que o livro funcione para leitores que gostem de romances cheios de declarações de amor e momentos românticos entre os personagens.

31.5.16

Peter Pan: A Origem da Lenda, de J. M. Barrie


Peter Pan: A Origem da Lenda, escrito por J. M. Barrie

Editora: Universo dos Livros
Páginas: 96
ISBN: 9788579309205
Tradução: Suria Scapin
Criada no início do século XX, a lenda encantadora do Peter Pan tornou-se, com o passar do tempo, um símbolo da eterna infância e do imaginário infantil na divisa com o mundo dos adultos. Em uma edição inédita no Brasil, a editora Universo dos Livros apresenta a origem do clássico que marcou gerações!
Embarque nesta fantástica jornada, onde você desbravará junto ao “menino que não queria crescer” a zona esquecida dos Jardins de Kensington, local onde a lenda tomou forma. Conheça também as incríveis fadas que lá habitam, bem como as outras espécies de seres míticos.
Para quem gosta da história do Peter Pan, esse livro é delicioso, porque conta justamente sobre o surgimento desse personagem que encanta crianças há várias gerações.

A ideia de não crescer é tentadora, mas saber que inicialmente essa criança era comum, como qualquer outra, faz com que tudo se torne ainda mais mágico e ainda mais possível dentro do mundo da fantasia. E se você acha que o que ele fez não poderia ser feito por crianças normais é porque, segundo o narrador, talvez você não conheça tão bem sobre as crianças normais e tenha se esquecido de como você era nessa idade.

No livro, acompanhamos Peter sair de casa pela janela com apenas sete dias de vida, voar e ir morar nos Jardins de Kensington em Londres, frequentado por muitos pais (incluindo o narrador da história) com seus filhos. Nesse parque, a realidade e a fantasia se misturam de forma gritante e, ao mesmo tempo, sutil. Fadas e crianças ocupam o mesmo espaço, apesar de não se encontrarem com frequência.

Para quem leu Peter Pan, vai encontrar aqui o mesmo narrador, a mesma voz, o mesmo tom divertido usado para relatar os acontecimentos cheios de impressão pessoal.

Um ponto a ser destacado são as descrições feitas de cada espaço dos Jardins de Kensington, dos personagens e das situações. Tudo é contado de forma tão detalhada que podemos caminhar pelo parque juntamente com o narrador. Entretanto, ao mesmo tempo que isso me conquistou, pode fazer com que outros tipos de leitores achem que as descrições deixam a narrativa um pouco cansativa.

Apesar de ser um livro infanto-juvenil, acho que ele é adequado para qualquer idade, aliás, assim como Peter Pan, não acredito que as crianças consigam entender todas as sutilezas do autor e até a "dureza" com que ele trata alguns temas.

Sem querer dar spoiler, não gostei muito do final. Achei que não precisava acabar daquele jeito, talvez alguns parágrafos antes já seria o suficiente, mas ainda assim adorei a leitura do livro como um todo.

Por fim, a edição do livro está linda! É um livro curtinho e cada capítulo possui uma ilustração do Big Ben no início e algumas outras folhas decoradas, além da capa que está maravilhosa!

30.5.16

As Afinidades Eletivas, de J. W. Goethe

As Afinidades Eletivas, escrito por J. W. Goethe

Editora: Penguin Companhia
Páginas: 328
ISBN: 8563560921
Tradução: Tércio Redondo
Eduard e Charlotte formam um casal elegante e aristocrático que vive numa propriedade rural idílica, porém perigosamente próxima do fastio. Mas a relativa paz de sua existência é posta à prova quando a presença de dois visitantes - o Capitão e Ottilie - faz despertarem reservas magmáticas de atração sexual e amor proibido. Com o título inspirado pelo princípio da química a respeito de certos elementos que são atraídos para outros, e com uma temática calcada na própria biografia sentimental (e conflituosa) de Goethe, este romance é um dos triunfos supremos do romantismo. Permanece, mais de duzentos anos depois de sua publicação original, como um estudo profundo sobre amor e destino. Esta edição, com uma nova tradução fluente e elegante de Tércio Redondo, e introdução do britânico R. J. Hollingdale, um dos maiores especialistas em literatura e filosofia alemãs, permite conhecer (ou revisitar) a obra que é uma das pedras fundamentais do romance do século XIX.

O romance de J. W. Goethe traz como núcleo central o casal Eduard e Charlotte. O narrador conta que eram apaixonados um pelo outro, mas ambos eram casados com outras pessoas. O destino e a fortuna acabou deixando-os viúvos em períodos próximos, possibilitando, assim, que se casassem. Cultivavam uma relação bastante harmoniosa quando Eduard consulta a esposa sobre a possibilidade de trazer um amigo, o capitão, para morar com eles por um tempo, pois o este amigo se encontrava numa situação complicada e ele gostaria muito de ajudá-lo. Charlotte reluta um pouco para aceitar, entretanto ela recebe uma carta do pensionato onde se encontravam sua filha (do outro casamento) e a filha de uma amiga que ela cuidava que dizia que esta última estava com alguns problemas. Charlotte julga conveniente que a menina, Otille, venham morar com eles por um tempo. Assim, como ambas partes buscavam a mesma coisa, Charlotte e Eduard concordam mutuamente receber o capitão e Otille em seu castelo.



A edição alemã de As Afinidades Eletivas
Otille se revelou uma menina doce e prestativa, além de uma aprendiz empenhada. O capitão, por sua vez, mostrou-se o melhor dos hóspedes, pois começou usar seus inúmeros talentos para ajudar Charlotte nas obras de melhoramento do jardim. Quando tocavam música juntos, Charlotte no piano era muito melhor do que Eduard na flauta, porém ela fazia o papel de um bom maestro e boa dona de casa, acompanhando o ritmo do marido mesmo que fosse fora do compasso. Já quando vai tocar com Otille, esta parecia ter absorvido os mesmo erros de execução de Eduard, logo ficavam perfeitos tocando juntos. E o mesmo acontecia com o capitão e Charlotte; ele era tão bom no violino quanto ela no piano e juntos eram maravilhosos músicos. Esta é uma das belezas do livro do Goethe, a relação dos personagens com a música e com a natureza é paralela a suas relações com o amor. Isso denuncia então que Eduard acaba se apaixonando por Otille e Charlotte pelo capitão. Os dois amores são recíprocos. Mas como poderiam corresponder se Eduard e Charlotte estavam presos ao casamento?

Cada personagem lida com a situação de forma diferente. Enquanto Eduard se entrega ao amor romântico e quer se valer de todos os meios da época para anular o casamento, Charlotte pensa que o amor deve ser contido porque não há maneiras de sair de tal situação. E é em torno dessa questão que a toda a narrativa se desenvolve: é possível anular o casamento? É possível permitir o amor? Quem vencerá? O casamento ou o amor?

Diferente do famoso Os sofrimentos do jovem Werther em que a atmosfera meio sombria, as exagerações, os sentimentos, a angústia estão colocados desde início, e diferente de Fausto em que a primeira cena já se passa num quarto escuro de trabalho onde Fausto começa a se lamentar, "Ai de mim! Da filosofia/ Medicina, jurisprudência, e mísero eu! da teologia,/O estudo fiz, com máxima insistência./Pobre simplório, aqui estou/ E sábio como dantes sou", em As Afinidades Eletivas a atmosfera é leve, harmoniosa e livre de rebuscamentos. Os sofrimentos do jovem Werther é um livro da fase pré-romântica de Goethe e As Afinidades Eletivas é um livro da fase neoclássica. Logo, aparentemente o desequilíbrio de um livro e a harmonia de outro estão explicados pelos diferentes caminhos estéticos que o autor buscou. A atmosfera equilibrada e o próprio tom da narrativa que faz lembrar a tranquilidade de um jardim combinam com a fluidez do texto, que nada lembra o texto difícil e enigmático de Fausto. Contudo, essa harmonia é colocada em questão na própria narrativa e os mesmos problemas de Werther, a civilização, por exemplo, voltam para As Afinidades Eletivas mas de outra maneira.


Além de ser bem agradável de ler e possuir personagens cativante, ou pelo menos marcantes, esse romance possui um final extraordinário, surpreendente de se ler, pois desafia toda a dicção que o livro assumira até ali. Além disso, o final, como todos os finais de Goethe, suscita inúmeras possibilidades de reflexão sobre a natureza, sobre o ser humano e sobre a civilização. 

Essa Menina - De Paris a Paripiranga, Tina Correia

Essa Menina - De Paris a Paripiranga, escrito por Tina Correia

Editora: Alfaguara
Páginas: 271
ISBN: 9788556520036
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Romance de estreia de Tina Correia, Essa Menina traduz a cultura popular nordestina numa narrativa comovente
Durante muito tempo, ninguém soube o verdadeiro nome de Esperança. Para todos, ela era Essa Menina. Decidida a reunir num livro as memórias de sua infância, ela desperta a criança curiosa que vivia a escutar a conversa dos adultos. Ao descrever as festas, as comidas e as brincadeiras no quintal, revela ao leitor, ainda que sob a perspectiva infantil, os anseios, fragilidades e sonhos dos que estavam à sua volta.
Os grandes eventos políticos dos anos 1930 a 1960 são o pano de fundo dessas dramáticas e emocionantes histórias. Ora testemunha, ora protagonista, é a menina de olhos grandes e curiosos quem nos conduz por essa narrativa quase mítica, ambientada no interior do Nordeste.

O livro de estreia professora Tina Correia nos conta em primeira pessoa a história de Esperança no sertão nordestino a partir da década de 30. Apelidada de Essa Menina, por acreditar que esse era seu verdadeiro nome de tanto ouvir seu avô tratá-la dessa forma com os demais, sua vida simples e pacata de menina nordestina tem sua rotina alterada devido aos fatos políticos da época.

- Essa Menina, minha vida daria um romance. Se eu te contasse as coisa que acontece comigo...

Essa frase sempre era dita por sua amiga Das Dores. Embora acreditasse que sua vida monótona e sem importância não daria material para um livro quando criança, Essa Menina conta a sucessão de fatos que a levaram a Paris.

Os fatos mais bonitos narrados por Esperança são os que constituem sua relação familiar, sendo seu avô o principal alvo de ternura. A inocência da infância, as fantasias de menina, tudo isso constitui um relato muito bonito e emocionante de uma menina que cresceu numa realidade dura num período de grande repressão.

Uma das passagens mais bonitas do livro é quando Essa Menina descobre que o doce "feito de estrelas", que ela realmente acreditava que sua tia colhia estrelas do céu para servi-la, era na verdade feito de carambola.

Era tanta ternura à minha volta que no dia em que flagrei minha tia cortando as carambolas para fazer o doce, em vez de desapontamento, senti que meu amor por eles aumentava. Naquela noite, olhando o céu cheio de estrelas, chorei emocionada, fazendo jus à pecha de "manteiga derretida". Percebi que só mesmo as pessoas com o estofo do carinho seriam capazes de transformar o ato prosaico de cortar carambolas em um conto de fadas, preenchendo com fantasia os espaços vazios da minha cabecinha. 

Essa Menina nos conta seu dia a dia na escola, sua relação com os amigos do seu vilarejo e um pouco da dura e triste realidade de cada um deles. Apesar da fome sempre à espreita e da miséria fazer parte do cotidiano daquela cidadezinha, existe uma ajuda mútua, uma comunidade que realmente se ajuda e faz com que a existência se torne suportável.

Contra as perspectivas da maioria das crianças do sertão Esperança consegue ter uma melhoria de vida através dos estudos. Depois de completar seu Ensino Médio consegue ingressar no Magistério para se tornar professora, talvez a única profissão acessível às mulheres da época.

Apesar da melhoria no orçamento da casa uma situação não mudava na sua vida: o fato do seu pai ser constantemente preso. Sem saber o por quê e o quê significavam aquelas prisões na época, a constante presença de homens estranhos e soldados rondando a casa da família era o principal motivo de preocupação da família. Somente mais tarde Essa Menina compreendeu o motivo que assombrou a sua infância: seu pai era comunista.

A perseguição aos comunistas durante o governo Vargas constitui grande parte da narrativa de Esperança embora ela não soubesse exatamente o que acontecia. Não só seu pai foi perseguido, mas diversos homens da pequena cidade eram silenciados, espancados e mortos sem que a população entendesse o que acontecia, afinal eram homens bons, pais de família.

Esse fato foi de fundamental importância na vida de Esperança. Cada vez mais engajada politicamente e lhe deu a determinação para que ela não se conformasse em levar uma vida comum no sertão nordestino. Graças aos amigos do seu pai aprendeu latim, francês e italiano, e esse incentivo na infância para que adulta ela estudasse Letras e conseguisse se mudar para Paris.

Toda a história de Essa Menina é muito bonita e simples. Emociona e revolta em alguns momentos, mas, infelizmente, sinto que algo falta na sua narrativa para que esse fosse um grande livro.

Uma das minhas decepções foi com o fato de no início da narrativa a narradora dissesse que sua realidade, por vezes, se assemelhava ao "realismo mágico", mas não existe nada no livro que evoque ao realismo mágico, os acontecimentos são comuns, sem qualquer toque de fantasia. Além disso sinto que o final do livro foi um pouco apressado. Percorremos sem pressa a infância de Esperança, mas a conclusão de sua história, sua adolescência, seu início da vida adulta, incluindo sua viagem à Paris, é feita às pressas.

É um bom livro que proporciona uma boa leitura, mas infelizmente peca em alguns momentos. A emoção transmitida pela menina na sua infância vai se esvaindo conforme sua idade avança.

10.5.16

A consciência de Zeno, de Italo Svevo

A consciência de Zeno, escrito por Italo Svevo. 

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 400
ISBN: 852092378X
Tradução: Ivo Barroso
Pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial, Italo Svevo começou a elaborar A consciência de Zeno , sua obra-prima. Graças ao conhecimento que tinha das teorias psicanalíticas, o romancista desenvolveu uma análise psicológica de extrema profundidade mediante a representação interior da neurose do narrador-protagonista, e lançando mão de técnicas narrativas bem modernas, conseguiu transmitir ao leitor o poder sugestivo do pensamento e das recordações.

O romance começa com o prefácio de um médico, Dr. S, que se identifica como o médico que é citado no livro diversas vezes de forma pouco elogiosa. Ele conta que sugeriu ao seu paciente nas sessões de psicanálise que escrevesse uma autobiografia como parte do seu tratamento e que o resultado só não foi melhor porque o paciente curou-se. E o médico acrescenta "publico-as (as memórias do paciente) por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento". Esse médico chantagista e esse prefácio cômico já dão início ao tom de toda leitura de A consciência de Zeno.

Zeno é uma versão europeia de um Brás Cubas (Memórias Póstumas de Brás Cubas) e um Leonardinho (Memórias de um sargento de milícias). Totalmente mimado, incompetente para tudo, não termina nada, não toma decisões sozinhos, obedece as convenções burguesas e é bem seguro na posição de patriarca. Ele confessa seus delitos e se auto inocenta, só age em benefício próprio, quando ajuda alguém se vangloria de seu imensurável altruísmo ou deixa escapar uma segunda intenção por trás. Após o prefácio, há o preâmbulo em que ele fala sobre a atividade da escrita proposta pelo médico e em seguida se abre o primeiro capítulo, o fumo, sua doença que precisa ser tratada. Além do vício no cigarro, sua vida é cheio de promessas de últimos cigarros e ele não consegue se livrar nunca nem do cigarro, nem das constantes promessas que vai parar. O segundo capítulo é sobre sua relação com o pai. O terceiro capítulo sobre como foi seu casamento. O quarto sobre sua amante. O quinto sobre a sociedade comercial que faz com o cunhado. Assim se articulam os eixos centrais da obra e também nos quais se articulam a sociedade burguesa patriarcal do final do século XIX e do início do século XX: a doença, o pai, o casamento, a amante e o dinheiro. A segunda parte do romance, consideravelmente mais curta, parece mais um diário, se divide em três datas quando Zeno já está velho e a primeira guerra mundial já se iniciou.

Trata-se, logo, de como a experiência de guerra de 1914 que colocou em dúvida todos os valores políticos e sociais da sociedade do século anterior, pois o livro é escrito após a guerra. Existe na narrativa um questionamento constante das convenções sociais que são sempre postas como naturais. Entretanto, esse questionamento é feito com muito humor, pois Zeno não é o cara que questiona ou duvida de tais convenções, mas que se utiliza dela da maneira mais intensa, mostrando como elas eram/são problemáticas, e por vezes, violentas. Zeno têm amantes, chama os filhos de macacos, tem acessos de raiva e descontrole, tem desejo de matar algumas pessoas e mesmo assim é visto sempre como um homem ótimo e completamente adequado àquilo que um homem do seu tempo deve ser. Essa mau caráter à la Brás Cubas tem ainda muita sorte à la Leonardinho, pois tudo o que ele faz, mesmo de ruim, é acobertado, perdoado, diminuído. Outro caráter particular da obra é seu espaço, pois Zeno, assim como o próprio Svevo, nasce e mora na cidade de Trieste, que pertencia ao Império Austro-Húngaro, tinha um dialeto próprio e vira pose italiana após a guerra. No romance, Zeno mostra como troca entre o dialeto, o italiano e o alemão a depender da situação. Assim, além das convenções sociais a guerra colocou em questão relações de pertencimento identitário também.

A relação com a psicanálise é, como fica claro desde o prefácio, muito forte. O título fala da "consciência de Zeno", mas o romance caminha mais para o "inconsciente de Zeno". Então, conforme o próprio Zeno vai narrando sua vida, como roubava dinheiro do pai para comprar cigarros, como o pai o achava um avoado, como numa mesma noite pediu três moças em casamento, como ele próprio afastou a amante de si sem querer, como ele e o cunhado só faziam besteiras nos negócios e criaram prejuízos enormes, o leitor participa ativamente da interpretação de que maneira isso é real ou não, de que maneira suas atitudes eram conscientes ou inconscientes, como as relação interpessoais parecem muito mais complexas do que a maneira banal com que ele as descreve, etc. Não é um livro de realidade fixa, imutável, é um livro que precisa de um leitor ativo para duvidar das supostas "realidades" contadas por esse narrador.

Profundo nas questões que mobiliza, um final in-crí-vel, passível de inúmeras interpretações, muito cômico e bem-humorado. Svevo era muito amigo de James Joyce e, ainda que na Itália o livro tenha caído rapidamente no silêncio, fora dali o romance foi bem acolhido graças a Joyce que via em Svevo um dos grandes nomes da literatura moderna. E o Sr. Joyce tinha razão sobre muitas coisas.

1.5.16

Terra amaldiçoada, de Douglas Lobo

Terra amaldiçoada, de Douglas Lobo
Publicação independente
Páginas: 146
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Demitido de seu emprego em São Paulo, Fabrício Machado retorna a sua terra natal, no interior do Piauí. Ali, espera reavaliar sua vida para decidir o rumo a seguir. Logo, porém, ele descobre que o ambiente rural arcaico onde cresceu está em extinção. O progresso chegou, ameaçando sua fazenda, sua família e todo um modo de vida.
Quando uma série de assassinatos começa a ocorrer, Fabrício desconfia que uma presença maligna assombra sua terra. Uma força aterrorizante que não cessará de matar até que se vingue do mundo que a criou.

Porque mais do que falar sobre literatura independente, é bom falar de literatura independente de boa qualidade. Terra amaldiçoada é de um gênero que eu praticamente nunca tinha lido, o terror, e faz parte do cenário underground da literatura nacional. Sim, porque além de contar com a boa qualidade e ser uma publicação independente, também estamos falando da nossa literatura. E é um honra para mim tentar tirá-lo, um pouquinho que seja, deste cenário que pode ser tão ingrato, e divulgá-lo para que seja cada vez mais conhecido.

Fabrício possui 33 anos e acabou de perder o emprego na cidade grande, especificamente São Paulo. De origem interiorana, ele faz parte de uma família que possui terras, gados e poder no interior do Piauí, e decide voltar para sua cidade natal, Santa Fé, para entender a fase pela qual está passando e tentar buscar uma saída para seus problemas. Na realidade, ele não sabe o porquê de estar voltando, depois de tantos anos, para Santa Fé, e se questiona sobre isso principalmente quando ele se depara com uma situação misteriosa e perigosa.

Isso porque, quando retorna, fica sabendo de alguns assassinatos e crimes que estão acontecendo com determinadas pessoas que parecem possuir algo em comum: são fazendeiros ou envolvidos com alguns deles. E ele descobre que esse envolvimento está mais do que intrincado pela condição política ou social das vítimas. Fabrício começa a desvendar o mistério e acaba chegando ao sobrenatural.


É um terror que começa leve e toma maiores proporções ao se envolver com a política. Este é um tema bastante presente no livro e é o que encorpora o enredo, pois traz discussões extremamente importantes, como o machismo, o abuso de poder e as relações econômicas que conseguem mudar tradições (como é o caso de grandes empresas que dominam certos locais, fazendo com que os pequenos proprietários e produtores vão à falência).

Apesar de não ter uma revisão à altura do seu enredo, o livro prende o leitor do começo ao fim através de seus mistérios e da cenas violentas e sanguinolentas. Poucos acontecimentos são previsíveis, e o final é realmente surpreendente, sendo o livro inteiro criativo e instigante. Ele é curto e possui uma edição lindíssima (soft touch, capa adequada à história e páginas amareladas, que sei que vocês adoram rs).

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21.4.16

Os moedeiros falsos, de André Gide

Os moedeiros falsos, escrito por André Gide

Editora: Estação Liberdade
Páginas: 424
ISBN: 978-85-7448-160-9
Tradução: Mário Laranjeira
“Romance de um romance que se escreve”, como diria o protagonista. Com estilo notoriamente refinado e inovações que marcaram época, Gide prescinde da cronologia e estrutura narrativa tradicionais. Para tanto, Gide concebe um herói, o escritor Edouard, que lhe é muito próximo, e o contrapõe a Bernard Profitendieu, que a seu jeito é igualmente um personagem-modelo. Os moedeiros falsos não são, para Gide, apenas os jovens que escoam dinheiro fraudulento, mas os falsários no espírito e na letra, todos os que vivem na mentira de sentimentos falsos.

Gide declarou que o único romance que escreveu efetivamente foi Os Moedeiros Falsos. Algo para se pensar, pois é difícil aceitar que Os Moedeiros Falsos fique junto dos "romanções" clássicos, como Madame Bovary, Orgulho e Preconceito, Grandes Esperanças ou Ilusões Perdidas. Essa questão é colocada pela por um dos principais personagens do livro, Édouard, que é um escritor moderno e está no dilema de como escrever um romance, como inovar a forma? Como seguir a tradição?

Outro ponto é que normalmente os romanções têm um protagonista cujo processo de formação e aprendizagem é a matéria da narrativa. Os Moedeiros Falsos têm três personagens que recebem uma atenção maior, Bernard, Olivier e Édouard. porém o título leva em conta o dilema de outro personagem, Georges, e o acontecimento mais emocionante de toda história que ocorre nas páginas finais envolve um quinto personagem. E nenhum deles passa por uma formação ou aprendizagem como passam Oliver Twist (Oliver Twist - Charles Dickens) ou Marianne Dashwood (Razão e Sensibilidade - Jane Austen).

Mais um contraste da afirmação de Gide com a realização de sua obra é que no romance tradicional o narrador normalmente é onisciente, sabe tudo o que acontece e sabe o que as personagens pensam. Quando Os Moedeiros Falsos começa o narrador até parece assim. Mas logo sua narração é interrompida pelo diário de Édouard, onde este se torna o narrador. Ali Édouard conta que está escrevendo seu romance chamado "Os Moedeiros Falsos" e no meio do seu diário há trechos desses romance. O primeiro narrador volta mas é novamente interrompido por um carta de Bernard para Olivier. O último acontecimento que esta carta conta é retomado novamente no diário de Édouard que fica em contraste com o que se segue, uma carta de Olivier para Bernard. Quando o narrador em terceira pessoa volta ele diz que não sabe explicar porque tal personagem decidiu fazer tal coisa. Ou seja, não há uma realidade objetiva do que acontece como se tem em Balzac ou Flaubert, porque o próprio narrador não dá a certeza dos acontecimentos. E essa ideia de um livro dentro do livro dentro de outro livro é o que os franceses chamam "mis en abîme", "em abismo", onde as coisas se encaixam uma dentro da outra até o infinito como as bonecas russas em que não sabemos mais qual dos romances estamos lendo.

A história começa em Paris quando Bernard decide sair de casa porque descobre não ser filho legítimo de seu pai. Inicialmente ele se refugia na casa do melhor amigo, Olivier, que é completamente apaixonado por ele. Édouard é o tio de Olivier e vem para Paris para ajudar uma amiga, Laura, que está com grandes problemas, pois engravidou do irmão de Olivier, Vincent, mas ela já era casada. Édouard parte para Suiça com Laura e Bernard para ajudar também um outro velho amigo a rever seu neto, Boris, que tem um papel bem importante no todo do romance. Enquanto isso Olivier fica na França engajado no projeto de edição de uma revista de literatura chamada, "Avant-garde", "Vanguarda". Édouard está sempre empenhado na escrita do seu romance, contudo seu projeto parece impossível e irrealizável. Nisso, há a história do amigo de Édouard que deseja reencontrar o neto, há a história deste neto e sua paixão por uma amiga, das relações de Vincent, do planos do presidente da revista que Olivier participa, do outro irmão de Olivier, Georges, que parece seguir por um caminho duvidoso, do pai de Bernard que quer revê-lo e assim por diante. Inúmeros personagens vão penetrando no enredo de forma o encaixe de todas essas situações vão levando ao leitor para o lugar da incerteza absoluta de qual poderia ser o fim de tudo isso.

Logo, vê-se que o romance (?) de Gide trabalha com a liberdade. Primeiro, a liberdade da forma do romance, tentando inová-la ou contestá-la. Em segundo lugar, com essa liberdade na construção da narrativa. E assim como a forma e o conteúdo desafiam as regras de composição e caracterização do romance, as personagens também são constituídas numa lógica de liberdade e de questionar as convenções sociais estabelecidas. Bernard vê o fato de ser um bastardo como uma liberdade; ele e Olivier estão envolvidos de maneira homoerotizda; Laura, embora casada, envolveu-se com um outro homem, enquanto seu amor era ainda de um terceiro; Sarah, irmã de Laura, julga que o erro da irmã foi casar-se, quer ser livre acima de tudo, desafia e contesta todos os padrões que lhe são sujeitados por ela ser mulher, entre outros. O livro traz uma ideia bem moderna de mundo e mostra como, já nos anos de 1920, as regras sociais estabelecidas e dadas como naturais já não faziam sentido e não completavam os indivíduos, como as tradições e as convenções não são sinônimos de civilização desenvolvida, boa e próspera, mas podem muito bem justificar a barbárie.


O livro de Gide não é complicado na leitura, nem em português, nem em francês, diferentes de outros livros da mesma época, como Ulisses de James Joyce. Os Moedeiros Falsos tem uma leitura bastante acessível e agradável e, por traz de muitos diálogos que parecem fortuitos, possui uma grandeza reflexiva e narrativa. 

 
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