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Ensaio sobre a cegueira Saramago

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Uma duas Eliane Brum

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ao farol virgínia woolf

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mulheres de cinzas mia couto

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Extraordinário Luandino Vieira

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Luuanda Luandino Vieira
20.8.18


           O choque cultural entre gerações não é novidade da atualidade altamente tecnológica e conectada. No século XX, o debate sobre quem tem autoridade para falar a respeito de literatura já acontecia, mas sobretudo entre pesquisadores acadêmicos e jornalistas, que passaram a publicar em cadernos e colunas de jornais sobre arte e, portanto, literatura. 
           Eis que um escritor, que também é um jornalista, gera uma polêmica (porque expôs com escárnio um e-mail profissional, contendo valores do trabalho de divulgação de um booktuber, em suas redes sociais) a respeito de divulgação paga no mercado editorial – mais especificamente, em canais do Youtube voltados exclusivamente à literatura. Esta é uma discussão que deve existir, já que estamos falando de uma nova forma de se compartilhar opiniões. O problema está em como ela é gerada; se há algo que deve passar longe da disseminação de livros e da literatura no geral, é a falta de respeito e a prepotência.
           A escritora Clarissa Wolff (Todo mundo merece morrer, Verus Editora), colunista do site Carta Capital, escreveu um texto super bacana sobre este debate, que você pode ler aqui. Além disso, achei importante compartilhar a entrevista na íntegra:
"Eu não encaro a disseminação de arte e de cultura como algo dicotômico entre as partes que a formam."
Clarissa Wolff: Por que você criou o seu canal no Youtube?
Mell Ferraz: Criei o Literature-se para ter com quem conversar. Na época, era adolescente, tinha acabado de me mudar para uma cidade que não possui uma livraria sequer e não tinha com quem conversar, pessoalmente, sobre livros, minha maior paixão na época – e até hoje. Deu certo, e não falo apenas de números (o canal só começou a crescer depois de uns quatro anos). Encontrei pessoas que amam ler e que toparam discutir literatura comigo. Aliás, foi isso o que me ajudou a sair de uma depressão. Tenho amigos e continuo conversando com esse pessoal que “conheci” (e alguns eu realmente cheguei a encontrar pessoalmente, tornando-se meus melhores amigos) na internet em 2010 – e é claro que, com o crescimento do Literature-se, passei a ter muitos outros amigos literários.

CW: Você se considera crítico literário?
MF  Veja bem, eu comecei a produzir conteúdo para o Youtube quando eu tinha apenas 17 anos. Na época, estava no colegial e não trabalhava. O Literature-se me proporcionou o contato com os livros e com o mercado editorial; cursar Estudos Literários (Unicamp) como faculdade foi uma escolha natural para mim. Apesar de estudar literatura no ensino superior, posso dizer que um vídeo sobre um livro não é a mesma coisa que uma crítica literária publicada em jornal, por exemplo. 
O que faço com o canal, mesmo enquanto graduanda de Estudos Literários, não deixou de ser a conversa entre amigos que gostam muito de ler. É claro que tenho mais contato com crítica e teoria literárias, e que um canal pode ser voltado para a crítica literária sem problema algum, porém a polêmica em torno de quem tem autoridade para falar sobre literatura não é atual. Vários estudiosos (ou não) já discutiram sobre isso, mas a respeito do jornal e da produção acadêmica, inclusive. Por enquanto, considero o que faço como compartilhamento e disseminação da literatura, não me intitulo uma crítica literária.

CW: Você cobra por conteúdo? E por resenhas? Você vê algum conflito ético?
MF  Para mim, a base de um canal literário é a sua honestidade. Trabalhar na internet demanda fidelização do público. Eu, como consumidora do conteúdo de outros colegas youtubers, sei como é trabalhoso manter um canal no Youtube. Além do tempo de leitura do livro, tem o de roteirização, de preparação de equipamentos e cenário, de gravação, de edição (algo complexo e demorado, principalmente para quem é leigo nisso), de publicação, de resposta ao público e de divulgação do próprio conteúdo. Para dizer o básico, aquilo que precisa ser feito. Dito isso, se quer realmente instigar o seu público a continuar te assistindo e, mais ainda, a sentar e ler o livro que indicou, precisa se dedicar bastante para produzir um conteúdo honesto, porque é isso que atrai o público (e, de novo, falo por experiência também enquanto consumidora). 
Depois de oito anos produzindo conteúdo para a internet de forma ininterrupta, precisei entrar para a faculdade e começar a trabalhar também, já que hoje tenho 25 anos e não consigo viver apenas de amor pela literatura. Muitas outras coisas começaram a intervir no meu tempo de dedicação para o canal, que reduziu drasticamente. Com o crescimento das mídias digitais, a possibilidade disso se tornar um trabalho remunerado surgiu, e hoje muitos produtores de conteúdo, como booktubers, já se dedicam integralmente a isso. Não é o meu caso ainda, pois sabemos que o mercado editorial está passando por uma crise complicadíssima. Mas possuo um espaço do canal que é voltado aos publieditoriais, e com o qual eu recebo um valor. Vejo um conflito nisso quando a pessoa adota uma postura de vender sua opinião. Vender opinião e vender o espaço (e tempo) para a divulgação são coisas completamente diferentes. Como eu disse, é extremamente importante que o canal seja sustentado por transparência, honestidade e respeito.

CW: Pensando que a indústria literária é extremamente pobre, isso impacta a forma que você pensa sobre isso?
MF  Claro, não podemos deixar de visualizar o contexto no qual estamos inseridos – afinal, conhecer o seu nicho é importante para saber o que ele gosta de assistir. Se é uma indústria, ainda assim, nós, pessoas que trabalham nela, sabemos que é um mercado como qualquer outro. E possui características peculiares como qualquer nicho dele. Sabemos da crise complicada e complexa que permeia o mercado editorial, e isso influencia a forma como lidamos com publicidade. A realidade que se aplica aos youtubers que falam sobre games é totalmente diferente da realidade dos booktubers.

CW: Como você vê a dualidade entre crítica clássica e de influenciadores nesse cenário?
MF  Eu não encaro a disseminação de arte e cultura como algo dicotômico entre as partes que a formam. Para mim, crítica “clássica” é diferente de influência literária por meio da internet (apesar de não serem coisas sempre dissociáveis). Hoje, diante do cenário democrático que é a internet, fica complicado alguém dizer que é errado um engenheiro indicar leituras, simplesmente porque o que vejo são pessoas de todo quanto é tipo de formação (e até aquelas sem ensino superior) instigando outras a se tornarem leitores ou a lerem cada vez mais. 
Meu objetivo no início do Literature-se foi ter com quem conversar sobre livros. E ele persiste, porém houve o acréscimo de apoiar o incentivo à leitura, seja de quem for. Tenho um exemplo incrível disso dentro de minha própria casa. Em todos os meus 24 anos, minha mãe nunca tinha lido um livro sequer. Com a minha influência e a de outros booktubers, ela passou a ler e, hoje, depois de um ano desde que isso aconteceu, enquanto escrevo estas linhas, é ela quem está lendo no quarto ao lado – e muito mais do que eu, com muito mais paixão. Essa descoberta é maravilhosa, e aconteceu bem perto de mim. O Literature-se me proporciona essa aproximação com milhares de pessoas que vêm me contar terem se tornado leitores assíduos por causa de canais como o meu. O booktube dissemina o hábito literário, e se isso acontece de forma respeitosa e honesta, é um acontecimento maravilhoso de nossa atualidade.
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20.4.18

Um de nós está mentindo, escrito por Karen M. McManus



Editora: Galera Record
Páginas: 384
Tradutor: André Gordirro
ISBN: 9788501112521
Cinco alunos entram em detenção na escola e apenas quatro saem com vida. Todos são suspeitos e cada um tem algo a esconder. Numa tarde de segunda-feira, cinco estudantes do colégio Bayview entram na sala de detenção: Bronwyn, a gênia, comprometida a estudar em Yale, nunca quebra as regras. Addy, a bela, a perfeita definição da princesa do baile de primavera. Nate, o criminoso, já em liberdade condicional por tráfico de drogas. Cooper, o atleta, astro do time de beisebol. E Simon, o pária, criador do mais famoso app de fofocas da escola. Só que Simon não consegue ir embora. Antes do fim da detenção, ele está morto. E, de acordo com os investigadores, a sua morte não foi acidental. Na segunda, ele morreu. Mas na terça, planejava postar fofocas bem quentes sobre os companheiros de detenção. O que faz os quatro serem suspeitos do seu assassinato. Ou são eles as vítimas perfeitas de um assassino que continua à solta? Todo mundo tem segredos, certo? O que realmente importa é até onde você iria para proteger os seus.
'Um de nós está mentindo' é um young adult que promete te prender ao longo da leitura.

Logo no começo, conhecemos os protagonistas, e também narradores, da história: estereótipos do "High School" americano. A melhor aluna da escola, o esportista, a patricinha, o bad boy e o excluído. Simon, esse último, cria um app de fofocas da escola conhecido por revelar segredos que acabam destruindo a vida dos envolvidos ao serem revelados. Por causa dessa sua criação, obviamente ele não é uma pessoa muito querida entre os alunos da escola.

Esses cinco alunos se encontram na sala da detenção. Lá, Simon morre, e os outros quatro se tornam automaticamente suspeitos de terem cometido assassinato.

Apesar de parecer uma história cheia de clichês, e de realmente ter vários deles, a narrativa é muito envolvente e nos traz muitas surpresas no seu desenvolvimento. 

Os personagens se revezam como narradores da história, e aos poucos vamos conhecendo-os melhor.

Um dos pontos que gostei na história é a forma como a imprensa é retratada. Ao noticiar o assassinato, as investigações, os suspeitos, acompanhamos o poder que a mídia tem na vida das pessoas, positiva e negativamente.

Desde o começo, o livro me lembrou da série 'Os 13 porquês', o que se deve à ambientação, aos personagens, à morte e ao clima de mistério envolvendo segredos que sabemos que serão revelados no futuro.

Adolescentes, morte, mistério, romance, amizade, segredos, tudo se mistura para compor uma narrativa envolvente. Gostei bastante dessa leitura, é um daqueles livros que você começa devagar, mas em determinado momento não consegue mais parar de ler. 
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6.4.18


A grande jogada, escrito por Molly Bloom



Editora: Intrínseca
Páginas: 272
Tradutor: Renato Marques
ISBN: 9788551002896

Livro que deu origem ao filme de Aaron Sorkin, com indicações ao Globo de Ouro e ao Critics Choice Awards de melhor atriz (Jessica Chastain) e melhor roteiro (Aaron Sorkin)
Com pouco mais de 30 anos, Molly Bloom ganhou as manchetes dos jornais ao ser presa pelo FBI por operar fora da legalidade uma das mais milionárias mesas de pôquer do mundo. Bonita e atraente, cortejada por homens poderosos, com um guarda-roupa de grife e montanhas de dinheiro no banco, a Princesa do Pôquer, como ficou conhecida, parecia mais uma estrela de Hollywood que uma criminosa confessa.
E foi em Hollywood mesmo que ela começou, do zero, a promover as mesas pelas quais passariam, nos anos seguintes, centenas de milhões de dólares, em partidas que aconteciam em luxuosas suítes de hotéis, para uma seleta lista de convidados dispostos a desembolsar quantias que partiam dos seis dígitos. Entre eles, astros como Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire e Ben Affleck, mandachuvas da indústria do entretenimento, líderes estrangeiros, grandes magnatas e até mesmo a máfia russa.
Memórias de excessos, glamour e ganância narradas por uma mulher que cruzou a linha que separa o legal do ilegal. Uma história única, perigosa e surpreendente.
Nesse livro, Molly Bloom nos conta sua história desde a infância. Seu relacionamento com os pais e irmãos, o quanto o pai forçava que ela sempre se dedicasse 100% e o quanto ela sempre buscou elogios e reconhecimento.

Depois de ir para Los Angeles, Molly acaba comandando uma mesa de pôquer e fazendo parte de um universo do qual só ouvimos falar. Muito dinheiro, poder e fama. 

Molly nos conta como os jogos eram organizados, o que ela fazia para garantir que os jogadores precisassem dela e não a substituíssem, as enormes quantias perdidas na mesa, o conflito de interesses, o jogo de poder. Pela narrativa, espiamos o que acontecia nesses encontros, quem comparecia e como se comportava. Acompanhamos as mudanças de Molly, o quanto essa nova realidade muda suas atitudes, sua personalidade, sua perspectiva, o modo como enxerga e reage às situações. Vemos sua ascensão e sua queda.

A narrativa é muito semelhante a uma conversa informal, como se Molly tivesse puxado uma cadeira ao seu lado e tivesse te contando o que viveu ao longo desses anos. Ao mesmo tempo que é bem fácil de ler, as partes do pôquer em si e a quantidade de nomes que aparecia me deixava um pouco confusa. (Falando em nomes, ver Leonardo DiCaprio, Tobby Maguire, Ben Affleck, Alex Rhodes, entre outros nomes bem conhecidos, dá uma "apimentada" na história - principalmente o Tobby Maguire que tem um papel muito mais importante para a história que os outros que só aparecem brevemente). 

O que mais gostei do livro foi o fato de ser uma história real que nos mostra uma realidade que existe agora mesmo em algumas partes do mundo, mas com a qual não temos nenhum contato (eu, pelo menos). Ele mostra todo o glamour do dinheiro e da fama. Apesar dos problemas que teve, Molly curtiu muito o dinheiro e os benefícios que ele trazia. Mas ao mesmo tempo que esse ângulo nos encanta, há um outro um pouco mais "feio" que nos mostra um mundo no qual não existem relações verdadeiras de amor e amizade, tudo é guiado e movido pelo dinheiro, por interesses e pelo poder.

Também tive a oportunidade de assistir ao filme e acho que ele funcionou muito bem como complemento do livro. Há muitas informações do livro que não estão no filme, mas também há muitas informações do filme que não estão no livro. Vale a pena ir às duas fontes.

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29.3.18

A varanda do frangipani, escrito por Mia Couto



Edtora: Companhia das Letras
Páginas: 152
ISBN: 8535909842
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Depois da Independência de Portugal, em 1975, Moçambique enfrentou quase duas décadas de conflitos. O período foi marcado pela oposição entre os antigos guerrilheiros anticolonialistas da Frelimo (que tomaram o poder e tentaram implantar o socialismo no país) e o grupo de orientação conservadora Renamo (alinhado a Rodésia e África do Sul). A história de 'A varanda do frangipani' se passa vinte anos após a Independência, depois dos acordos de paz de 1992.
O romance é narrado pelo carpinteiro Ermelindo Mucanga, que morreu às vésperas da Independência, quando trabalhava nas obras de restauro da Fortaleza de S. Nicolau, onde funciona um asilo para velhos. Ele é um 'xipoco', um fantasma que vive numa cova sob a árvore de frangipani na varanda da fortaleza colonial.
As autoridades do país querem transformar Mucanga em herói nacional, mas ele pretende, ao contrário, morrer definitivamente. Para tanto, precisa 'remorrer'. Então, seguindo conselho de seu pangolim (uma espécie de tamanduá africano), encarna no inspetor de polícia Izidine Naíta, que está a caminho da Fortaleza para investigar a morte do diretor.
Mais de vinte anos depois da independência de Moçambique, quando a guerra civil já arrefeceu, a Fortaleza é um lugar em que convergem heranças, memórias e contradições de um país novo e ao mesmo tempo profundamente ligado às tradições e aos mitos ancestrais. Da sua varanda se pode enxergar o horizonte.

"Sou o morto" é a frase que abre A varanda do frangipani de Mia Couto. O romance começa nesse tom de Brás Cubas em que o narrador é também um defunto. Entretanto, é um defunto muito mais literalmente que o Brás Cubas. Sabemos que sua cova fica debaixo de uma árvore de frangipani numa antiga fortaleza que fora transformada em um asilo para idosos. O defunto, Ermelindo Mucanga, era carpinteiro e trabalhava nesse asilo. Quando morreu, não foi enterrado no lugar onde nasceu e não teve cerimônias fúnebres, como manda a tradição africana, então se tornou um "xipoco", uma espécie de fantasma, sem poder alcançar definitivamente o mundo dos mortos. Ele morrera pouco antes da independência de Moçambique, mas quando a Guerra Civil eclode, ele sente que sua cova está sendo violada e que querem lhe transformar indevidamente num herói nacional. Como está desconfiado e descontente com a ideia, um pangolim - um tipo de tamanduá africano que é mandado pelas forças religiosas extramundanas -  faz com que ele volte ao mundo dos vivos no corpo de um policial que tem como função investigar um crime que aparentemente aconteceu no asilo. Ou seja, diferente de Brás Cubas, não é só a voz e o discurso de um defunto que está em jogo, mas verdadeiramente a condição material da morte que permeia essa voz.

Logo, a narrativa começa com uma voz em primeira pessoa, mas que, praticamente, se torna uma voz de terceira pessoa onisciente quando Ermelindo passa ocupar o corpo do policial Izidine Naíta, pois ele descreve as ações e os sentimentos da autoridade e as pessoas com quem este se relaciona e o leitor quase esquece que o espírito que narra a história está no corpo do policial. Se não bastasse todo esse estranhamento da voz narrativa, o enredo deveria ser um tipo de romance policial, pois Izidine começa a buscar pistas para desvendar o culpado do assassinato de uma pessoa que ocuparia um cargo importante no governo moçambicano, mas quem poderia ter cometido um crime num asilo, onde a maioria dos ocupantes são extremamente debilitados fisicamente e há uma única enfermeira? Mais estranho do que a natureza do crime em si é o fato de que alguns residentes do asilo, velhos e velhas, moçambicanos e portugueses, passam a confessar o crime fornecendo histórias absurdas e diferentes motivos para justificar o ato. A busca pelas pistas não funciona, porque o policial encontra diversas conclusões, diversos culpados, um mais improvável do que o outro e isso o impede de chegar a uma real conclusão. Todavia, as histórias que não podem ser verdade, tão pouco parecem mentiras, pois os velhos parecem estar muito certos da verossimilhanças delas. Por isso, parece apontar para um outro tipo de verdade, para uma outra realidade que aquilo que é visto como real, oficial, moderno e científico não consegue apreender na sua integralidade.  

A narrativa vai se alternando entre a voz do defunto contando os passos e as ações de Izidine e a voz de cada um desses velhos e suas histórias. O mais perto de uma "verdade" que Izidine pode chegar é pelo relato de Marta, a única enfermeira do asilo, que apesar de não ser velha e não fazer discursos fantásticos como os residentes, parece igualmente a parte de uma realidade averiguável por pistas e provas. Ela diz a Izidine que os velhos não mentem, mas que o único crime que havia sido cometido ali era o crime contra o antigamente. Da varanda do asilo, onde está o frangipani e a cova do narrador, Mia Couto nos coloca diante desse dilema de um país que precisava conquistar sua independência e seu direito a uma identidade, mas mesmo assim tem toda a sua tradição ameaçada pela globalização, pela ocidentalização e pela modernização. Do horizonte que se avista da varanda, se vê uma Moçambique incerta que esquece progressivamente dos valores do passado, da importância da voz dos velhos que contam histórias, de tudo o que se aprende com as narrativas e com as experiências dos outros.  Essa voz do narrador, do xipoco, é como a voz do país em si, impedido de alcançar a realização do destino tradicional, porque há um afastamento do solo cultural de origem. A morte que ronda e ameaça os personagens não é do diretor do asilo que era uma autoridade, mas sim da tradição moçambicana que dava sentido a vida do seu povo. 

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2.2.18


Não é de hoje que a escritora inglesa Virginia Woolf é a que mais me encanta com seus escritos. Desde 2012, quando tentei matar minha curiosidade extrema e li Mrs. Dalloway, sou fascinada pela técnica narrativa da escritora que nos mostra uma sensibilidade incrível ao criar histórias que mergulham nos personagens, em seus interiores e mentes. Observar, então, o ser humano através da representação de como ele pensa e associa o mundo foi algo de belo que descobri que a literatura é capaz de me proporcionar. Porém, ainda li pouco da autora, e sempre tive o sonho de começar um projeto de leitura desde os seus primeiros romances.
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25.1.18

Ano passado eu conheci o trabalho do Daniel Dago enquanto "uma espécie de guru on-line dos lançamentos de tradução literária" (Gazeta Russa), e constatei o poder de entusiasmo disso. Na realidade, estou cometendo um ultraje: antes de nos contagiar com suas inúmeras pesquisas sobre o mercado editorial, ele é escritor e tradutor. Possui um perfil no Facebook que funciona como uma fonte de informação do mundo literário (vale a pena conferir e seguir!). E novamente este ano ele divulga uma lista bem extensa de futuros lançamentos para 2018 e até 2019. Achei válido compartilhar com vocês, então aqui está ela:

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22.1.18

Quatro vidas de um cachorro, escrito por W. Bruce Cameron


Editora: HarperCollins
Páginas: 285
Tradutor: Regina Lyra
ISBN: 9788569514718


Esta é a inesquecível história de um cão que — após renascer várias vezes — imagina que haja uma razão para seu retorno, um propósito a cumprir, e que, enquanto não o alcançar, continuará renascendo. Narrado pelo próprio animal, Quatro vidas de um cachorro aborda a questão mais básica da vida: Por que estamos aqui? Emocionante e com boas doses de humor, Quatro vidas de um cachorro é um livro para todas as idades, que mostra o olhar de um cão sobre o relacionamento entre as pessoas e os laços eternos entre os seres humanos e seus animais. 
A história começa com o nascimento de um cachorrinho de rua que depois de ser resgatado passa a se chamar Toby. Ele vai nos contando suas experiências, descobertas e aprendizagens. Desde disputar um espaço com seus irmãos para mamar até aprender a se relacionar com outros cachorros e com humanos.

Depois de alguns capítulos, Toby morre e renasce como Bailey, o cachorro do menino Ethan. Dessa vez, podemos acompanhar o cachorro ainda mais de perto, o quanto ele vai aprendendo e como interpreta diversas situações vividas com seus donos.

Assim, acompanhamos o cachorro por 4 vidas diferentes. Cada uma numa raça, numa situação, com donos diferentes e novos aprendizados.

Para o cachorro, o fato de morrer e nascer de novo só pode ser justificado pelo fato de ele ter um propósito a cumprir. 

Com Ethan, aprendi sobre o amor e o companheirismo e senti estar realmente cumprindo o meu propósito, meramente por acompanhá-lo em suas aventuras diárias.
(...)
Mas... e agora? O que poderia acontecer agora para justificar meu renascimento como filhote?

O livro é narrado pelo próprio cachorro, o que é bom e ruim. Bom, porque é uma visão muito original, com isso o autor faz com que vejamos situações corriqueiras pela visão do animal, como ele interpreta algumas atitudes dos humanos, o que entende em determinadas falas e situações. Ruim, porque o texto ficou um pouco repetitivo e um pouco superficial, o que fez com que eu não fosse realmente fisgada pela história.

A narrativa é divertida em algumas partes e tocante em outras (como muitas das histórias de cachorros). Não tem como não se apaixonar por Bailey e por sua relação com Ethan.

Assisti ao filme no ano passado e achei a adaptação bem próxima ao livro, mas, dessa vez, preferi o filme.
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28.12.17

 Amargo como os frutos, escrito por Ana Paula Tavares
Editora: Pallas
Páginas: 288
ISBN: 853470466X
Durante os tempos das lutas pela libertação de Angola, uma significativa parcela dos poemas produzidos transformou-se em arma ideológica de combate ao colonialismo. A partir da independência, ao lado da literatura de exaltação nacional, marcada pelo discurso panfletário e anticolonialista, começaram a surgir novas vertentes poéticas que, sem negar a importância de um compromisso com as realidades nacionais, buscam em si outros ingredientes. Paula Tavares é uma escritora que cede sua voz procurando expressar o clamor amargo das mulheres encarceradas em seu próprio silêncio. Além dos efeitos das muitas décadas de guerras em Angola, as mulheres sofreram também no próprio corpo a opressão do machismo, visto como natural depois de tanto tempo enraizado na cultura local. A antologia poética 'Amargos como os frutos' é a representação da voz feminina africana na sua individualidade, na sua feminilidade, na sua corporalidade.
Escrever é sempre difícil. Escrever sobre poesia é mais desafiador do que escrever sobre romances, pois não se pode apresentar os personagens, resumir a história, apresentar episódios do enredo para causar no outro a curiosidade e a vontade de ler. A poesia já foi o grande gênero literário e o romance já foi um gênero inferiorizado. Os papéis não se inverteram, mas os leitores de poesias estão mais escondidos do que os de romance. Encontra-se por aí aqueles que passeiam pelas ruas com livros, lêem em café, ônibus, metrôs, parques, horários de almoço, filas. Dificilmente alguém carrega um livro de poesias. Nenhum tipo de condenação é justificável, é algo difícil de ler que exige uma disposição bem distinta do que uma boa ou má narrativa exigem. Lamentar também não adianta nada - desde o século XVIII que a importância do romance cresce e da poesia cai. Não há gênero melhor ou superior ao outro, todo leitor é livre para variar, mudar, gostar e desgostar do que bem entender. A única tristeza permitida é que há muitos poetas incríveis que passam despercebidos até para os mais dedicados leitores, o que se diria, então, de uma poeta angolana negra?! 

Ana Paula Tavares nasceu no sul de Angola, hoje é professora na universidade católica de Lisboa, já publicou prosa e poesia. Seu primeiro livro de poesia, Ritos de passagens, é de 1985, ou seja, de um contexto de um país pós-independência, mas que desde 1977 encontrava-se em Guerra Civil. Além dos poemas, este livro tem desenhos feitos por Luandino Vieira que tornam a leitura ainda mais particular. Sente-se em sua poesia uma relação intensa com a natureza e com a paisagem do sul de Angola através das imagens de gado e de homens e mulheres que o criam, trazendo para o texto uma marca da biografia da escritora. Da mesma forma, no livro Dizes-me coisas amargas como os frutos de 2001, é incontornável a percepção da guerra, que só acabaria em 2002, o cansaço por ela causado e uma tomada de posição contra qualquer tipo de violência. Entretanto, a relação com a natureza se expande para signos como a água, a própria terra, a lua, a noite, os frutos e outros elementos que convergem com a ideia do feminino, bem como um eu-lírico feminino que luta contra uma violência histórica de apagamento e silenciamento e assume nos poemas seu lugar, seu corpo e seu desejo. Trata-se então de uma poesia essencialmente preocupada com o corpo da mulher, suas transformações, seus "ritos de passagem", seu sangue, seu desejo e suas potencialidades. É uma poesia que está na contra-mão de uma tradição literária focada nos homem-herói, nas suas viagens e na sua aventuras de conquista do mundo. Esta tradição, inclusive, serviu para justificar a colonização, a exploração do território africano e destruição das suas culturas tradicionais. A poesia de Paula Tavares está ao lado do feminino fincado na terra, supostamente numa espera passiva pela volta do herói, mas que, na verdade, guarda a potência da poesia, transforma o ruído dos sujeitos historicamente apagados em grito e, como uma tecedeira, trama os fios da literatura.

A Nêspera

Doce rapariguinha-de-brincos
amarelece o sonho
deixa que o orvalho
de manso
lhe arrepie a pele
sabe a pouco.

(Tavares, Ana Paula. Ritos de Passagem. In In: Amargos como os frutos - Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 29)


A  manga

Fruta do paraíso
companheira dos deuses
as mãos
tiram-lhe a pele
dúctil
como, se, de mantos
se tratasse
surge a carne chegadinha
fio a fio
ao coração
leve
morno
mastigável
o cheiro permanece
para que a encontrem
os meninos
pelo faro.

(Tavares, Ana Paula. Ritos de Passagem. In In: Amargos como os frutos - Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 33)


Aquela mulher que rasga a noite
com seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta

(Tavares, Ana Paula. O lago da lua. In: Amargos como os frutos - Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 79.)

Começa a história
Desde o princípio assim
Era uma vez um
Sol e a lua que lhe pertence
Mais a terra entre os dois e
A paisagem
Com os seus vultos parados
À espera da carne fresca
Planta a história de vozes
Sujeitos caminhos e esperança
Depois a história curva-se sobre si própria
Medita duas vezes na água do rio
O fim está escrito
Nas linhas firmes das
Minhas mãos

(Tavares, Ana Paula. Como veias finas na terra. In: Amargos como os frutos - Poesia reunida, Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 232.)


Estes poemas cabem dentro do ruído
(gargantas abertas, crianças às voltas,
mãos cravadas na enxada curta)

Agora que habito um país de silêncio
Recolhida na cela fria e branca
De um certo momento da vida
Me entrego a recolher
A memória do grito
Os sorrisos alargados de antigas fêmeas
Soltas das amarras dos gritos
um poema
apenas um poema

(Tavares, Ana Paula. Como veias finas na terra. In: Amargos como os frutos - Poesia reunida, Rio de Janeiro: Pallas, 2011, p. 242.)

Todos os livros de poesias publicados entre 1985 e 2010 estão reunidos na coletânea Amargos como frutos. Além de todos os desafios em apresentar um livro de poemas, é impossível dar conta aqui de uma obra que se estende tanto no tempo e por tantas imagens fortes, delicadas e marcantes. Mas assim como a poesia de Ana Paula Tavares reivindica uma esperança de retirar as mulheres do silenciamente histórico do apagamento como sujeitos autônomos no qual foram submetidas, neste texto resta a esperança que sua poesia seja mais lida e valorizada.
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18.12.17

Na minha pele, escrito por Lázaro Ramos

Editora: Objetiva
Páginas: 152
ISBN: 9788547000417
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Movido pelo desejo de viver num mundo em que a pluralidade cultural, racial, étnica e social seja vista como um valor positivo, e não uma ameaça, Lázaro Ramos divide com o leitor suas reflexões sobre temas como ações afirmativas, gênero, família, empoderamento, afetividade e discriminação.
Ainda que não seja uma biografia, em Na minha pele Lázaro compartilha episódios íntimos de sua vida e também suas dúvidas, descobertas e conquistas. Ao rejeitar qualquer tipo de segregação ou radicalismos, Lázaro nos fala da importância do diálogo. Não se pode abraçar a diferença pela diferença, mas lutar pela sua aceitação num mundo ainda tão cheio de preconceitos.
Um livro sincero e revelador, que propõe uma mudança de conduta e nos convoca a ser mais vigilantes e atentos ao outro.

De início, Lázaro Ramos afirma que seu livro não se trata de uma autobiografia, apesar de acompanharmos passo a passo a trajetória de sua vida e carreira como ator.

De fato o livro é muito mais que a história de um ator de sucesso, é uma história de resistência e posicionamento de uma pessoa negra.

Ao escrever este livro, tive momentos de muita dor. Fugia do assunto, lia outros textos. É tudo muito solitário. A solidão do encontro com o teclado do computador faz você olhar inevitavelmente para seus buracos. Luto para não viver sob a demanda do racismo e dos racistas, e buscar diariamente estratégias de sobrevivência traz muitos pequenos machucados. Há tempos decidi que a minha raiva não poderia me paralisar. Ela tem que ser um motor para transformar.
É possível fazer isso sempre?

Nascido na Ilha do Paty, local onde a maioria das pessoas é negra e indígena, ainda criança Lázaro toma consciência de que a cor da sua pele era uma questão.

Ao entrar na escola particular ele se vê como o único negro do lugar e entende que é tratado de maneira diferente por seus colegas de sala por esse motivo, já que sua pele nunca foi motivo de comentários enquanto convivia apenas com pessoas negras.

Para trabalhar sua timidez, Lázaro entra para um grupo de teatro e se encontra nas artes cênicas. Ainda adolescente passa a integrar vários grupos teatrais de Salvador, e em um deles, com um viés mais político, Lázaro entende que é inevitável que ele, enquanto pessoa negra, tenha que se posicionar acerca do racismo e das violências que um negro sofre no Brasil.

Pergunto, quando é que um branco se dá conta de que é branco?
Pensou?
No geral, a autopercepção da etnia branca não existe. O protagonismo é dos brancos, então sua condição de branco não é um assunto. Isso é o “normal”.
Um negro se dá conta da sua etnia a cada olhar que recebe (de desconfiança, de surpresa, de repulsa, de pena) ao entrar em um lugar. A cada vez em que se procura e não se encontra. A cada apelido na escola, que sempre tem a ver com a cor e, geralmente, agregado a um valor negativo. A cada vez que não é considerado padrão de beleza e a cada vez que se vê calculando como deve se portar ou o que deve dizer, porque não sabe como será interpretado. A cada vez que observa como sua palavra é desconsiderada ou considerada equivocadamente. É nos pequenos incômodos, para muitos inexistentes, que nos damos conta de que não é mera coincidência sermos a maioria nos presídios, favelas e manicômios.

O sucesso de Lázaro no teatro possibilitou sua entrada para o cinema e depois para a TV. Apesar de difícil, foi uma ascensão rápida e que o levou a tomar decisões. Lázaro afirma que nunca aceitou fazer o papel do bandido ou de escravizados na sua carreira, afinal, para ele, é preciso representar o negro fora do lugar comum.

Sendo praticamente o único negro a ter destaque na TV, afirma que ele sendo a exceção, só se confirma a regra: ainda não existe espaço para as pessoas negras na televisão e no cinema brasileiros.

Lázaro também coloca o leitor a refletir do porquê estarmos tão habituados a não questionar a ausência de pessoas negras em alguns espaços se no Brasil metade da população é negra. O que nos leva a aceitar com tanta naturalidade esse não lugar?

O livro é de uma linguagem acessível e é bem didático, rápido de ser lido sem ser superficial. É dolorido ler o relato de Lázaro, que apesar de seu sucesso e popularidade, não está imune ao racismo.

Ele responde à pergunta "é bom ser negro no Brasil?" com uma verdade que nos machuca e nos leva a questionar o quanto ainda precisamos evoluir na questão racial.
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9.10.17

Uma Duas, escrito por Eliane Brum


Editora: BestBolso
Páginas: 352
Tradutor: Alves Calado
ISBN: 9788577994830

Emma Corrigan tem alguns segredinhos... Mas quem não tem? Durante uma viagem de avião bem turbulenta, Emma acredita que não sobreviverá aos solavancos, e acaba contando todos – mas todos! – os seus segredos para o homem sentado na poltrona ao lado. Quando a aeronave pousa em segurança, ela pede desculpas ao companheiro de voo pelo desabafo, pensando que nunca mais veria aquele estranho bonitão.
No dia seguinte, no entanto, ela descobre que seu colega de viagem era ninguém menos que Jack Harper, um dos fundadores da grande Corporação Panther, empresa na qual Emma trabalha como assistente de marketing. E que seu encontro desajeitado com o milionário a colocaria na maior confusão.

Sophie Kinsella é uma atriz consagrada no universo do chicklit. Esse foi o primeiro romance que ela escreveu com esse pseudônimo em 2003.

A sinopse acima traduz bem as primeiras páginas do livro. Percebemos que Emma é uma mulher cheia de 'segredinhos' que escondem como ela realmente é, do que realmente gosta e o que realmente pensa. Além disso, ela é uma daquelas pessoas que parece que tem um imã para atrair situações nas quais tudo dá errado.

E logo no começo, essas características fizeram com que, ao invés de eu me aproximar da personagem, ou me identificar com ela, ela me irritasse um pouco.

Depois de pensar, acho que o que me irritou um pouco em Emma era o vitimismo e a anulação dela. Era ela se culpar por essas coisinhas, lidar com elas como se fossem grandes pecados ou se colocar em último na lista de prioridades. Pelo menos, é o que eu consegui racionalizar dessa irritação.

Mas é bom deixar claro que não foi nenhum grande ódio. Emma me irritava um pouco, me dava um pouco de vergonha em algumas situações, mas também me mostrou um lado muito bom, criativo e divertido.

Voltando à história, depois de revelar seus segredo para Jack, os dois passam a conversar mais. Jack se lembra de tudo que Emma contou e ela fica bem envergonhada ao notar que ele sempre percebia quando ela estava mentindo.

Claro que isso vira um romance. Os dois formaram um lindo casal, mas eu achei que não desenvolveu muito bem. Na minha opinião, o foco do livro ficou muito mais para a comédia do que para o romance. Apesar de os dois interagirem bastante durante o livro, eu fiquei querendo mais.

Gostei muito da parte que mostrava a família de Emma. Dos problemas no relacionamento, mas também de como eles se gostavam.

A história é leve e divertida. Ri muito com algumas atitudes e pensamentos de Emma. A narrativa flui com facilidade e logo chegamos ao fim do livro.


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