20.7.16

Anexos, de Rainbow Rowell

Anexos, escrito por Rainbow Rowell

Editora: Novo Século
Páginas: 368
ISBN: 9788542804515
Tradução: Marcia Men
"Oi, eu sou o cara que lê seus e-mails, e, sabe, eu amo você..." Beth Fremont e Jennifer Scribner-Snyder sabem que alguém está monitorando seus e-mails de trabalho. (Todo mundo na redação sabe. É política da empresa.) Mas elas não conseguem levar isso tão a sério, e continuam trocando e-mails intermináveis e infinitamente hilariantes, discutindo cada aspecto de suas vidas. Enquanto isso, Lincoln O'Neill não consegue acreditar que este é agora o seu trabalho – ler os e-mails de outras pessoas. Quando ele se candidatou para ser "agente de segurança da internet", se imaginou construindo firewalls e desmascarando hackers – e não escrevendo um relatório toda vez que uma mensagem esportiva vinha acompanhada de uma piada suja. Quando Lincoln se depara com as mensagens de Beth e Jennifer, ele sabe que deveria denunciá-las. Mas ele não consegue deixar de se divertir e se cativar por suas histórias. No momento em que Lincoln percebe que está se apaixonado por Beth, é tarde demais para se apresentar. Afinal, o que ele diria...?
Em Anexos temos uma história na qual as personagens não interagem diretamente entre si, apenas por emails. 

Beth e Jennifer trabalham na redação de um jornal e são grandes amigas, mas só o que sabemos delas é o que elas contam nos emails que trocam durante o trabalho. Lincoln também as conhece desse jeito, mas nós o conhecemos melhor, acompanhamos o relacionamento dele com sua família, o quanto se sente fracassado por ter esse trabalho sendo que sempre foi tão estudioso, descobrimos que ele teve uma grande decepção amorosa da qual ainda não se recuperou e que ele ainda vive com a mãe superprotetora. Lincoln nos passa a imagem que tem de si mesmo: um perdedor, o que foge da imagem de "príncipe encantado" perfeito a qual estamos acostumadas.

A história é bem leve e tranquila de ler. Gostei principalmente da forma como a amizade de Beth e Jennifer é retratada. Conversavam desde assuntos banais a dilemas mais sérios de suas vidas. Concordavam e discordavam. Uma relação muito real.

Já o Lincoln não me conquistou. Esse papel de estar sempre descontente, sem tomar nenhuma atitude para mudar me incomodou, visualizava ele sempre andando de ombros caídos chutando pedrinhas pela rua.

Outro aspecto que me incomodou um pouco foi a falta de proximidade com as personagens. Esse recurso da autora de nos apresentá-las por email me manteve afastada delas, e acabou me fazendo falta conhecê-las mais a fundo.

Li esse livro porque a Rainbow Rowell é a autora de um dos meus livros preferidos, Eleanor e Park, e por isso fui com muita expectativa de amar essa leitura também, o que acabou não acontecendo. Isso não quer dizer que o livro seja ruim, porque é um romance divertido, que foi me conquistando, principalmente mais perto do final, mas só não atingiu minhas expectativas que estavam altas demais.

11.7.16

A parede branca do meu quarto, de Marina Oliveira

A parede branca do meu quarto, de Marina Oliveira

Editora: Thesaurus
Páginas: 384
ISBN: 9788540903968
Encontre a autora: Facebook - Twitter - Instagram Blog
Após ter um vídeo postado no Youtube sobre o surto psicótico que teve durante uma prova, Mariana Vilar virou uma celebridade da internet. Infelizmente, isso não trouxe nenhuma vantagem para a vida dela: foi expulsa do colégio antigo, perdeu o contato com o melhor amigo e, agora, ainda tem que aguentar as pessoas perguntando a todo tempo se a conhecem de algum lugar.
Chega a hora de cursar o terceiro ano do Ensino Médio, não vai ser fácil. Novo colégio, rodeado de pessoas diferentes. Os desafios surgem e as inquietudes aumentam. Mariana começa a perceber que as experiências e desejos que guiavam o seu comportamento antes, de repente não fazem mais sentido. Entender as mudanças que vão desde belos momentos afetivos até estranhas festas da elite brasiliense será uma questão de sobrevivência.
E quanto à parede branca do título? Ah, meu caro leitor, só posso garantir que ela nunca mais será a mesma.

Se você pensa que Mariana Vilar é uma garota comum, está redondamente enganado. Ela está fora dos padrões, a começar pelo seu QI excepcional, o que a torna uma garota inteligente. Porém, ela não apenas é inteligente, como também muito dedicada e alguém que coloca os estudos em primeiro lugar na sua vida - antes mesmo das amizades. Só podemos fazer o adendo quanto à família, que não precisa nem ser colocado em primeiro, segundo, terceiro lugar etc. É, antes de tudo, o seu porto seguro. Mariana é totalmente peculiar, e estressada por natureza. Vive em conflito com o seu irmão mais novo e, depois que teve um surto durante a prova PAS no seu segundo ano do ensino médio, tudo ficou ainda pior: foi convidada a se retirar de sua antiga escola, não aceita sequer que falem no nome de seu ex-melhor amigo Ian, sua avó Fatinha está com a saúde cada vez mais debilitada e seu pai sumiu há uns anos e nem ao menos ajuda financeiramente a sua mãe. 

Na realidade, todos esses foram motivos para o que aconteceu durante a prova que garantirá a sua vaga na universidade de seus sonhos, a UnB. Porém, alguém gravou o que aconteceu e colocou no Youtube, criando automaticamente um viral - e uma nova "quase" famosa: a psicótica do PAS, Mariana Vilar. É com essa carga sobre suas costas que ela precisa passar pelo seu primeiro dia no colégio novo (sendo, é claro, alvo de curiosidade e piadas), onde conhece Lara e Maurício, seus dois vizinhos de carteira que, num primeiro momento, parecem mais irritá-la do que serem os melhores amigos que, ainda bem, serão.

Minhas impressões

Fazia um tempo que eu não lia YA (Young Adult = jovem adulto, a nomenclatura para a literatura jovem) e A parede branca do meu quarto veio em boa hora: justamente quando eu senti que precisava de um livro para me distrair e me fazer cair de amores. E foi o que aconteceu, pois Marina (Marina, não Mariana, fácil de confundir rs) me fez retornar aos meus 16 anos quando eu praticamente só lia YA, torcer pelo romance e ficar extremamente curiosa pelo desfecho da história (por mais que eu soubesse que tudo daria certo e que aquele casal realmente terminaria junto). Ela colocou numa história nacional tudo aquilo que admiramos na literatura jovem gringa, que pode ser medido pelo ânimo que desperta no leitor.

Posso dizer que é um dos YAs que mais gostei de ter lido, e o fato de ser nacional só torna tudo muito especial. Enfatizo bastante isso não apenas porque eu gosto de indicar livros nacionais bons, mas porque percebo que há uma certa hegemonia (ou preferência, como quiser) da literatura internacional do gênero aqui mesmo no nosso país, então encontrar um exemplo de que não precisamos nos voltar para fora a fim de ler uma história bem escrita e desenvolvida me alegrou bastante.

Porque, sim, é uma história bem desenvolvida dentro do que ela propõe e no universo do seu gênero. Os personagens são bem desenvolvidos, sobretudo os principais. Talvez o Maurício tenha ficado um tanto quanto apagado pelo papel que ele tem na história, pois o livro é em primeira pessoa e a Mariana pode ser um pouco distante das pessoas quando quer. Gostei muito de como o tema da família, da amizade e do amor estão sempre em harmonia, sem que um se torne o principal. Mas eu diria que isso acontece para dar espaço ao que realmente o livro aborda: a questão da mudança, do crescimento pessoal, das transformações. Toda a história pela qual a Mariana passa no seu terceiro ano do ensino médio nos é contada de uma forma que nos faz enxergar como ela era no início e no final - e a mudança é nítida. Saber da trajetória (o enredo em si) é o que pode trazer à tona a discussão do amadurecimento, e esse é um ponto chave do livro, o qual me fez gostar ainda mais dele!

No Youtube

Filhas de Eva, Martha Mendonça

Filhas de Eva, escrito por Martha Mendonça

Editora: Record
Páginas: 128
ISBN:  9788501107527
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Uma das cabeças por trás do site Sensacionalista, Martha Mendonça tem faro apurado para identificar as figuras mais curiosas e pena afiada para transformá-las na mais prazerosa literatura. Assim como é impossível um escândalo escapar do tabloide virtual de humor mais lido do país, nada foge ao olhar de Martha, arguta observadora e bem-humorada ficcionista do cotidiano das mulheres – características já comprovadas, ao extrair do trivial e do corriqueiro pequenas pérolas literárias, em Canalha: substantivo feminino e 40: um romance feminino. Nos contos deste Filhas de Eva, a autora lança um novo olhar sobre o turbilhão de sentimentos que cabe dentro das mulheres – ou sobre como um mesmo sentimento pode habitar cada uma de maneira tão ímpar. Seja pela forma ou pelo conteúdo de suas narrativas, Martha revela a força e os extremos exacerbados de suas personagens. Com seu estilo original e leve, esmiúça as relações e a intimidade do universo feminino, misturando crítica e humor em histórias deliciosas.

O livro "Filhas de Eva" é composto por contos que tem mulheres como protagonistas. Pobres, ricas, jovens, velhas, mulheres diferentes em muitos aspectos mas ainda carregando o elo comum: o de ser mulher. O conto que dá abertura ao livro, intitulado "Eva", nos dá um panorama sobre a temática que encontraremos nos outros contos.

Assim, já formada e deformada pela falta de infância, aprendi logo que eu era culpada. Pelo que houve e pelo que não houve; pelos barulhos e pelos silêncios; pela beleza e pela feiura; pelo passado e pelo futuro. Pelo desejo. [Eva] 

O título de cada conto nos revela uma característica da personagem que conheceremos: "Amante", "Compulsiva", "Apressada", "Obcecada" e "Doméstica" são alguns deles e encontraremos histórias dramáticas, engraçadas, tristes e felizes, a maioria tendo como tema principal os relacionamentos.
À primeira vista pode parecer uma temática clichê para um livro sobre mulheres, mas a autora consegue fugir do lugar comum trazendo personagens próximas da realidade, sem idealizações.

Há dias que foram feitos para se morrer em vida. Dias para mover os músculos um mínimo possível. Olhar o horizonte com o olhar perdido e esquecer a comida não mastigada ainda na boca. Dias para mexer os dedos do pé devagarinho, apertar as mãos fechadas com força e prolongar as piscadelas dos olhos. (...) Há dias em que o que é bom se esvai e o que era ruim fica estranhamente incontornável. [Apressada]

O livro, apesar de alguns contos mais pesados, é em geral leve, fácil e bastante fluido. É bastante fácil de se identificar em algumas situações vividas pelas personagens, é tudo muito verossímil e palpável.
Minha leitura foi feita num dia só, não conseguia largar o livro e me questionando o que viria no conto seguinte: uma menina jovem e feliz, uma mulher solitária... Enfim recomendo para quem gostaria de algo mais rápido e fácil. (O livro, aliás, me tirou de uma grande ressaca literária).

Sábado. Pouco mais de nove horas da manhã. O potencial de uma manhã de sábado é um dos maiores motivos para a felicidade do ser humano. O domingo, não: a manhã de domingo já exala cheiro de contagem regressiva para a volta ao real, ao sufocante e anunciado desastre que é a vida das pessoas comuns. Mas era sábado. De manhã. Se tudo em volta desabasse, já seria um motivo para ser feliz. Pelo menos até meio-dia. [Desperta]


8.7.16

Ratos e homens, de John Steinbeck

Ratos e homens, escrito por John Steinbeck



Editora: L&PM POCKET
Páginas: 144
ISBN: 852541378X
Tradução: Ana Ban

George e Lennie são dois amigos bem diferentes entre si. George é baixo e franzino, porém astuto, e Lennie é grandalhão, uma verdadeira fortaleza humana, mas com a inteligência de uma criança. Só o que os une é a amizade e a posição de marginalizados pelo sistema, o fato de serem homens sem nada na vida, sequer família, que trabalham fazendo bicos em fazendas da Califórnia durante a recessão econômica americana da década de 30. Ganham pouco mais do que comida e moradia. No caminho, encontram outros sujeitos pobres e explorados, mas também situações que colocam em risco a sua miserável e humilde existência. Em 'Ratos e homens', Steinbeck levou à maestria sua capacidade de compor personagens tão cativantes quanto realistas e de, ao contar uma história específica, falar de sentimentos comuns a todos seres humanos, como a solidão e a ânsia por uma vida digna.

John Steinbeck foi o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1962 e seu romance mais famoso é "As vinhas da ira" que ganhou o Prêmio Pulitzer de Literatura e foi adaptado para o cinema. Trata-se de um autor norte-americano, nascido na Califórnia no início do século XX e de uma literatura empenhada na crítica dos problemas sociais de formação dos Estados Unidos, especialmente visíveis nessa região do país.


O livrinho "Of mice and men", traduzido pela L&PM POCKET como "Ratos e homens", mas que já recebeu outras tradução como "Sobre ratos e homens", é um livrinho em relação ao tamanho, mas um livrão em relação ao poder do texto. Uma short story que tem como personagens principais Lennie e George. O primeiro é enorme, incrivelmente forte mas tem atitudes, o emocional e a inocência de uma criança; já o segundo é pequeno mas astuto. Lennnie e George trabalham e caminham juntos pelas fazendas da Califórnia, com o sonho de economizar um dinheiro, comprar um pedaço de terra, cuidar de suas próprias plantações e seus próprios animais, poderem parar o trabalho quando quiserem e não serem mais explorados no trabalho, trabalhariam somente para o própria existência. Entretanto, para se manterem num emprego e juntarem o dinheiro duas dificuldades se impõem: uma para George de não gastar as economias com bebidas, mulheres e jogos, a segunda para Lennie de não se meter em confusão e fazer com que os dois sejam expulsos das fazendas. Lennie é, antes de qualquer coisa, bom e sensível, mas acaba fazendo coisas erradas e mal aos outros sem nunca ter a intenção, devido ao seu desajeito, sua força e seu medo de ser abandonado por George e de não realizar esse sonho. 

Eles vão trabalhar numa fazenda onde conhecem Candy, um velho sensível que se junta a eles no sonho da busca de um pedaço de terra; Slim, que parece justo e correto; Carlson, insensível e metido em confusões; Crooks, um homem inteligente mas condenado a solidão e a uma posição inferior pelo fato de ser negro; Curley, o filho do dono da fazenda, um rapaz metido, impertinente e violento; a esposa de Curley, uma mulher solitária e infeliz, vista como um problema para os outros personagens de simples fato de ser mulher. Todos esses personagens compõem o cenário de uma fazenda hostil, injusta e opressora, fatores que afetam fortemente a alta sensibilidade de Lennie. A inocência deste e o sonho que ele e George carregam e alimentam entra em tensão com o ambiente opressor que não aceita a liberdade e a igualdade.

O texto de Steinbeck foi transformado em peça de teatro e encenado em São Paulo no famoso Teatro Arena há 60 anos. Seu diretor era o idealizador do Teatro do Oprimido, Augusto Boal e, agora em 2016, o texto foi de novo retomado nos palcos por Kiko Marques. A peça esteve em cartaz por alguns teatros da capital paulista, como no Sesc e no teatro da Faap, e ela consegue transformar em imagens a grandeza da impactante história de Steinbeck. O final da peça e o final do livro apresentam algumas pequenas diferenças de enredo, mas ambos são incríveis e arrematam a extrema qualidade da obra.   


A tradução desta edição opta por marcar na linguagem uma variação oral e regional. Provavelmente o texto original adote um inglês típico da região e das pessoas que trabalham em fazendas no interior. Assim, o texto em português ficou como se fosse uma reprodução da oralidade das variações linguísticas do interior do Brasil, destoando bastante da modalidade escrita padrão, mas usando a própria escrita do texto para compor as particularidades dessa história. 

18.6.16

Como eu era antes de você, de Jojo Moyes

Como eu era antes de você, escrito por Jojo Moyes

Editora: Intrínseca
Páginas: 320
ISBN: 9788580573299
Tradução: Beatriz Horta

Aos 26 anos, Louisa Clark não tem muitas ambições. Ela mora com os pais, a irmã mãe solteira, o sobrinho pequeno e um avô que precisa de cuidados constantes desde que sofreu um derrame. Além disso, trabalha como garçonete num café, um emprego que ela adora e que, apesar de não pagar muito, ajuda nas despesas. E namora Patrick, um triatleta que não parece interessado nela. Não que ela se importe.
Quando o café fecha as portas, Lou se vê obrigada a procurar outro emprego. Sem muitas qualificações, a ex-garçonete consegue trabalho como cuidadora de um tetraplégico. Will Traynor, de 35 anos, é inteligente, rico e mal-humorado. Preso a uma cadeira de rodas depois de um acidente de moto, o antes ativo e esportivo Will desconta toda a sua amargura em quem estiver por perto e planeja dar um fim ao seu sofrimento. O que Will não sabe é que Lou está prestes a trazer cor a sua vida. E nenhum dos dois desconfia de que irá mudar para sempre a história um do outro.
Como eu era antes de você foi um livro muito comentado, ainda mais por ter sido adaptado para o cinema, o que atiçou minha curiosidade para lê-lo. Só o que eu sabia, quando o peguei, era que as pessoas choravam por causa de sua história.

Nessa narrativa temos Louisa e Will como protagonistas. Ela meio atrapalhada, vestida com roupas diferentes do usual e com problemas comuns de família. Ele mal-humorado, desiludido e disposto a acabar com o sofrimento no qual sua vida se transformou depois de ficar tetraplégico.

Durante a leitura, é muito fácil nos identificarmos com as personagens e com o romance, são dois personagens que nos atraem e nos fazem querer acompanhar sua história que não começa muito bem, principalmente porque Will não estava disposto a se relacionar com outras pessoas.

Mas aos poucos as diferenças entre eles vão aproximando-os, passamos a conhecer um lado mais humano de Will e um lado mais sofrido de Louisa.

A história segue pela linha dos clichês românticos, mas também foge um pouco deles, porque nem sempre as coisas acontecem como esperamos.

A escrita da autora é bem simples e fácil de acompanhar. Em alguns momentos, eu gostaria que ela tivesse se aprofundado mais, contado com mais detalhes diálogos e momentos que passaram rápido para mim.

Recomendo para quem gosta de romances, de histórias tocantes e de personagens apaixonantes!

O livro tem uma continuação que foi publicada este ano, chamada Depois de Você, e que quero ler também. Mas antes, quero muito assistir ao filme para gastar mais algumas lágrimas. Os trailers já me encantaram e eu acho que a adaptação tem tudo para ser excelente!

14.6.16

Só garotos, de Patti Smith

Só garotos, escrito por Patti Smith


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 240
ISBN: 8535917764
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza

Patti Smith se mudou para Nova York com vinte anos, no final dos anos 1960. Enquanto entrava em contato com parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera do 'verão do amor', conheceu sua primeira grande paixão - o futuro fotógrafo Robert Mapplethorpe, para quem Patti prometeu escrever este livro, antes que ele morresse de AIDS, em 1989. Tendo como pano de fundo a história de amor entre Patti e Mapplethorpe, este livro procura ser um retrato confessional da contracultura americana dos anos 1970. Muitas vezes sem dinheiro e sem emprego, mas com disposição, os dois viveram períodos de transformações - até mesmo quando Robert assume ser gay ou quando suas imagens consideradas ousadas começam a ser reconhecidas no mundo da arte.


Estávamos andando em direção à fonte, o epicentro da ação, quando um casal mais velho parou e ficou abertamente nos observando. Robert gostava de ser notado, e apertou minha mão com carinho."Oh, tire uma foto deles", disse a mulher para o marido distraído, "acho que são artistas"."Ora, vamos logo", ele deu os ombros. "São só garotos". 
O livro de Patti Smith é um autobiografia e uma biografia ao mesmo tempo. A autobiografia por excelência é aquele livro em que deve haver uma coincidência entre o nome do autor escrito na capa, o nome do protagonista e a identidade do narrador. Logo, um narrador mais velho que relembra sua vida desde a infância. Tudo isso se cumpre: o livro começa com a infância de Patti em Nova Jersey, suas brincadeiras de soldado com os irmãos, a mãe lhe dizendo que não poderia andar sem camisa como os irmãos homens porque era uma moça, sua adolescência no rock'n'roll e depois sua mudança para Nova York. Entretanto, na cidade grande Patti conhece Robert, aquele que vai ser seu namorado por um tempo mas seu amigo e companheiro de busca pela arte e pela carreira artística pelo resto da vida. Antes de começar a contar sua infância, nas primeiras páginas do livros, ela fala de Robert e quando o viu pela última vez. O livro acaba no mesmo ponto. E os capítulos de sua infância são alternados com a infância de Robert. Assim, o livro "Só garotos" é uma autobiografia dela, a cantora Patti Smith, mas também uma biografia de Robert Mapplethorpe, da geração beatnick, dos anos 60 e 70 e da cidade de Nova York.



A autora conta como seu grande desejo sempre foi ser poeta e não cantora. Ela escrevia poemas e desenhava. Robert era mais dado às artes plásticas, desenhava, fazia colagens, intervenções, colares e fotografias. Ambos queriam viver dedicados à arte e isso lhes custou dias e noites de fome e escassez. Viviam com muito pouco dinheiro e pouquíssimos bens pessoais, se alimentavam de comida pronta daquelas máquinas que ficam em lojas e estações de metrô, reaproveitavam tudo o que encontravam, pois não tinham dinheiro para o próprio material de arte. Viveram em diversos bairros e exploravam o espaço da cidade, os cafés, o Central Park, Brooklyn, Coney Island, Village Gate, Fifith Avenue, Twenty-third Stret, Forty-Second Street, Eighteenth Street, com seus jovens beatniks, protitutas, artistas, anarquistas, com as greves, com os ratos e tudo o que NY nos anos 70 pode suscitar na imaginação.

A ligação de Patti Smith com a literatura transborda em todas as páginas do livro. Além das referências musicais como Dylan, Stones, Edith Piaf, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Billy Holiday, Mile Davis e referências como Marcel Duchamp, Andy Warhol, o livro está repleto de referências literárias que a inspiraram como Faulkner, Goethe, Baudelaire, Louisa May Alcott, Jack Kerouac, Jean Genet, Marcel Proust, Gérard de Nerval, Oscar Wilde e sua inspiração maior, Arthur Rimbaud. Há diversas partes sobre sua paixão desmedida por Rimbaud que incluem duas viagens para Paris, uma delas somente para encontrar a inspiração de Rimbaud pelas ruas e escrever sobre ele.


Estas mil alusões artísticas e literárias complementam as descrições dos trabalhos que ela e Robert faziam. Seus impulsos artísticos estavam desde horas de trabalho desenhando e escrevendo, até a forma que se vestiam, compondo personagens para transitar pela cidade. Todas as descrições do livro esculpem a imagem de uma geração de "garotos" que se contrapunham a ordem estabelecida, que queriam ser "anti-burgueses", embora muitos deles "aburguesaram", como a própria autora diz. Uma geração afetada por doenças e pelas drogas, mas dedicada a arte.

A profusão artística em que Patti Smith se inseria, se sentar num café e ter Jimi Hendrix e Janis Joplin nas mesas ao lado, ainda que ela não fosse conhecida porque não passava de uma menina qualquer de 22 anos levaram com que, aos poucos, transformasse seus poemas em canções. Ela caminhou para música e Robert caminhou para fotografia, as capas dos seus primeiros cds foram feitas por ele.

O livro é maravilhoso e inspirador, além de ser muito bonito trazendo inúmeras fotos preto branco que ilustram a relação de Patti e Robert e o trabalho artístico dos dois. Muitas pessoas não gostam de biografias ou autobiografias por não trazerem mais nada além de informações da vida da pessoa. De alguma maneira, isso faz parte do próprio gênero literário que se propõe a contar a vida de alguém. Entretanto, o livro de Patti Smith é muito além de uma autobiografia, é um livro sobre a cidade de Nova York, sobre o poder da arte e sobre uma geração que acreditava nesse poder.

5.6.16

Grito, de Godofredo de Oliveira Neto


Grito, escrito por Godofredo de Oliveira Neto

Editora: Record
Páginas: 160
ISBN: 9788501107015
Livro cedido pela editora em parceria com o blog
Construído de forma que a performance e a teatralidade ocupem um lugar central, Grito é o epílogo da octogenária Eugênia e sua relação com o jovem e ambicioso Fausto. Em 21 atos, a narrativa é marcada pelo embate entre as esferas do real e do imaginário. Godofredo de Oliveira Neto experimenta formatos e problematiza a linguagem, conduzindo a partir da perspectiva da ex-atriz de teatro uma trama que transita entre o mundo da criação e da encenação.
O cenário é o bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, e a narradora é a octogenária Eugênia, atriz de teatro aposentada que relata em 21 atos a forma que encontrou de continuar tendo a arte como o ponto central de sua vida mesmo afastada dos palcos.
Fausto traz alegria diariamente para este apartamentozinho pequeno onde vivo com os meus personagens passados e presentes, imaginados e recriados todas as noites depois de um cálice de vinho por recomendação do médico.
Seu palco imaginário é a sala de seu vizinho de prédio, Fausto, um jovem de 19 anos, aspirante a ator e, segundo Eugênia, dono de uma beleza ímpar. 

Fausto e Eugênia vivem uma relação de cumplicidade e paixão ao teatro. Os ensaios dão a Eugênia novamente um sentido para sua existência, enquanto Fausto absorve todo o conhecimento e experiência que a atriz com seu gabarito podem oferecer.

A partir dos estreitamentos dos laços a relação passa da cumplicidade à posse por parte de Eugênia e transcendem a condição de mestre e aprendiz. A idosa acredita que ela basta à vida de Fausto e que pode suprir todas as suas necessidades. Passa a não aceitar qualquer relação, seja amorosa, profissional ou de amizade, na vida do jovem e usa da internet para investigar os passos do jovem ator e interferir caso ache necessário.
Penso que os amigos criados por Fausto no ambiente efêmero de trabalho vêm com o propósito de preencher a solidão. Vizinhos já ouviram sua voz grandiloquente representando outra pessoa, como se estivesse conversando com amigos. No fundo, ele só tem a mim como amiga e cúmplice de sua arte.
O relato de Eugênia transita entre a realidade e a fantasia, entre suas encenações e sua pacata vida de aposentada e leva o leitor a questionar a veracidade do que a atriz narra. Será aquele trecho parte de alguma peça ou algo que realmente aconteceu na vida de Eugênia e Fausto? Essa dúvida permeia toda a narrativa, que é pungente assim como a intensidade desse relacionamento.

O livro é audacioso e nos leva a um final totalmente inesperado, tão imersos ficamos ao ler os relatos da atriz. Além disso, todo o romance é composto por referências à arte, ao teatro e aos livros e ao final dele sentimos a necessidade de ler tudo o que levou Eugênia àquele trágico final.
"O amor é mera lascívia do sangue e simples complacência do desejo." O Hildebrando, meu falecido marido, costumava repetir essa frase, mas dita pelo Fausto a exclamação ganha uma dramaticidade impressionante. O espaço do trezentos e dezoito vira poesia,
O teatro também é a base para a construção dos personagens. Além da clara referência a Fausto de Goethe, obra que Eugênia já leu e releu à exaustão, também temos referência ao Dr. Fausto de Thomas Mann e, sobretudo, Otelo de Shakespeare.

3.6.16

O Melhor de Mim, de Nicholas Sparks

O Melhor de Mim, escrito por Nicholas Sparks
Editora: Arqueiro
Páginas: 272
ISBN: 9788580413342
Tradução: Fabiano Morais
Depois de se apaixonarem na adolescência, Dawson Cole e Amanda Collier foram separados pelas diferenças sociais. Passados 25 anos, eles voltam a se encontrar na pequena cidade em que nasceram.
Amanda está casada há mais de 20 anos, teve quatro filhos, desistiu da profissão que sonhara ter e enfrenta graves problemas no relacionamento com o marido, um dentista que vem se entregando a doses cada vez maiores de álcool desde que a terceira filha do casal morreu, vítima de câncer.
Após causar um acidente e ficar quatro anos preso, Dawson passa a trabalhar em uma plataforma de petróleo. Quando não está embarcado, vive em uma casinha simples e isolada, onde lê, cuida das tarefas domésticas e restaura seu Mustang 1969. Desde que terminou com Amanda, nunca mais se apaixonou.
Agora, de volta à sua cidade natal por um fim de semana, os dois serão confrontados com o passado e com tudo o que suas vidas poderiam ter sido.
Eles, que romperam o relacionamento apesar de se amarem muito, irão perceber que já não são as mesmas pessoas da juventude. Porém essa descoberta, em vez de afastá-los, reforçará o amor que jamais deixaram de nutrir um pelo outro. Mas como permitir que esse sentimento aflore, sem destruir a família de Amanda? Será que um amor verdadeiro pode reescrever o passado?
Já tinha assistido a vários filmes baseados nas obras de Nicholas Sparks, mas esse foi meu primeiro contato com um livro desse autor tão conhecido.

A história é um romance entre Dawson e Amanda que foram completamente apaixonados na adolescência, se reencontraram 25 anos depois e se descobriram ainda apaixonados.

Apesar de ser um romance, um gênero geralmente muito previsível, esse não é o caso dessa narrativa. Ainda que alguns elementos possam ser "adivinhados" ao longo da leitura e que haja vários clichês nas frases românticas, o autor consegue colocar uma dose de surpresas, fazendo com que esperemos por algumas coisas que não acontecem como tínhamos previsto.

Com essas surpresas, a história em si deixa o leitor curioso para saber o que acontecerá com Dawson e Amanda e se eles ficarão juntos apesar das dificuldades. 

Comigo foi isso o que aconteceu, a narrativa me prendeu, mas não gostei muito da linguagem utilizada e da forma como ela foi escrita. O que me incomodou foi a sensação de que não há espaço para mim, o leitor, no livro. Não consigo explicar exatamente esse sentimento, mas é assim que me senti, como se eu não precisasse compreender determinadas ações e nem relacionar informações e acontecimentos, porque tudo já era me dado pronto. Além disso, as descrições de lugares ou situações que não eram necessárias para o desenvolvimento da narrativa também me incomodaram um pouco.

Por fim, não gostei tanto da leitura, mas acredito que o livro funcione para leitores que gostem de romances cheios de declarações de amor e momentos românticos entre os personagens.

31.5.16

Peter Pan: A Origem da Lenda, de J. M. Barrie


Peter Pan: A Origem da Lenda, escrito por J. M. Barrie

Editora: Universo dos Livros
Páginas: 96
ISBN: 9788579309205
Tradução: Suria Scapin
Criada no início do século XX, a lenda encantadora do Peter Pan tornou-se, com o passar do tempo, um símbolo da eterna infância e do imaginário infantil na divisa com o mundo dos adultos. Em uma edição inédita no Brasil, a editora Universo dos Livros apresenta a origem do clássico que marcou gerações!
Embarque nesta fantástica jornada, onde você desbravará junto ao “menino que não queria crescer” a zona esquecida dos Jardins de Kensington, local onde a lenda tomou forma. Conheça também as incríveis fadas que lá habitam, bem como as outras espécies de seres míticos.
Para quem gosta da história do Peter Pan, esse livro é delicioso, porque conta justamente sobre o surgimento desse personagem que encanta crianças há várias gerações.

A ideia de não crescer é tentadora, mas saber que inicialmente essa criança era comum, como qualquer outra, faz com que tudo se torne ainda mais mágico e ainda mais possível dentro do mundo da fantasia. E se você acha que o que ele fez não poderia ser feito por crianças normais é porque, segundo o narrador, talvez você não conheça tão bem sobre as crianças normais e tenha se esquecido de como você era nessa idade.

No livro, acompanhamos Peter sair de casa pela janela com apenas sete dias de vida, voar e ir morar nos Jardins de Kensington em Londres, frequentado por muitos pais (incluindo o narrador da história) com seus filhos. Nesse parque, a realidade e a fantasia se misturam de forma gritante e, ao mesmo tempo, sutil. Fadas e crianças ocupam o mesmo espaço, apesar de não se encontrarem com frequência.

Para quem leu Peter Pan, vai encontrar aqui o mesmo narrador, a mesma voz, o mesmo tom divertido usado para relatar os acontecimentos cheios de impressão pessoal.

Um ponto a ser destacado são as descrições feitas de cada espaço dos Jardins de Kensington, dos personagens e das situações. Tudo é contado de forma tão detalhada que podemos caminhar pelo parque juntamente com o narrador. Entretanto, ao mesmo tempo que isso me conquistou, pode fazer com que outros tipos de leitores achem que as descrições deixam a narrativa um pouco cansativa.

Apesar de ser um livro infanto-juvenil, acho que ele é adequado para qualquer idade, aliás, assim como Peter Pan, não acredito que as crianças consigam entender todas as sutilezas do autor e até a "dureza" com que ele trata alguns temas.

Sem querer dar spoiler, não gostei muito do final. Achei que não precisava acabar daquele jeito, talvez alguns parágrafos antes já seria o suficiente, mas ainda assim adorei a leitura do livro como um todo.

Por fim, a edição do livro está linda! É um livro curtinho e cada capítulo possui uma ilustração do Big Ben no início e algumas outras folhas decoradas, além da capa que está maravilhosa!

30.5.16

As Afinidades Eletivas, de J. W. Goethe

As Afinidades Eletivas, escrito por J. W. Goethe

Editora: Penguin Companhia
Páginas: 328
ISBN: 8563560921
Tradução: Tércio Redondo
Eduard e Charlotte formam um casal elegante e aristocrático que vive numa propriedade rural idílica, porém perigosamente próxima do fastio. Mas a relativa paz de sua existência é posta à prova quando a presença de dois visitantes - o Capitão e Ottilie - faz despertarem reservas magmáticas de atração sexual e amor proibido. Com o título inspirado pelo princípio da química a respeito de certos elementos que são atraídos para outros, e com uma temática calcada na própria biografia sentimental (e conflituosa) de Goethe, este romance é um dos triunfos supremos do romantismo. Permanece, mais de duzentos anos depois de sua publicação original, como um estudo profundo sobre amor e destino. Esta edição, com uma nova tradução fluente e elegante de Tércio Redondo, e introdução do britânico R. J. Hollingdale, um dos maiores especialistas em literatura e filosofia alemãs, permite conhecer (ou revisitar) a obra que é uma das pedras fundamentais do romance do século XIX.

O romance de J. W. Goethe traz como núcleo central o casal Eduard e Charlotte. O narrador conta que eram apaixonados um pelo outro, mas ambos eram casados com outras pessoas. O destino e a fortuna acabou deixando-os viúvos em períodos próximos, possibilitando, assim, que se casassem. Cultivavam uma relação bastante harmoniosa quando Eduard consulta a esposa sobre a possibilidade de trazer um amigo, o capitão, para morar com eles por um tempo, pois o este amigo se encontrava numa situação complicada e ele gostaria muito de ajudá-lo. Charlotte reluta um pouco para aceitar, entretanto ela recebe uma carta do pensionato onde se encontravam sua filha (do outro casamento) e a filha de uma amiga que ela cuidava que dizia que esta última estava com alguns problemas. Charlotte julga conveniente que a menina, Otille, venham morar com eles por um tempo. Assim, como ambas partes buscavam a mesma coisa, Charlotte e Eduard concordam mutuamente receber o capitão e Otille em seu castelo.



A edição alemã de As Afinidades Eletivas
Otille se revelou uma menina doce e prestativa, além de uma aprendiz empenhada. O capitão, por sua vez, mostrou-se o melhor dos hóspedes, pois começou usar seus inúmeros talentos para ajudar Charlotte nas obras de melhoramento do jardim. Quando tocavam música juntos, Charlotte no piano era muito melhor do que Eduard na flauta, porém ela fazia o papel de um bom maestro e boa dona de casa, acompanhando o ritmo do marido mesmo que fosse fora do compasso. Já quando vai tocar com Otille, esta parecia ter absorvido os mesmo erros de execução de Eduard, logo ficavam perfeitos tocando juntos. E o mesmo acontecia com o capitão e Charlotte; ele era tão bom no violino quanto ela no piano e juntos eram maravilhosos músicos. Esta é uma das belezas do livro do Goethe, a relação dos personagens com a música e com a natureza é paralela a suas relações com o amor. Isso denuncia então que Eduard acaba se apaixonando por Otille e Charlotte pelo capitão. Os dois amores são recíprocos. Mas como poderiam corresponder se Eduard e Charlotte estavam presos ao casamento?

Cada personagem lida com a situação de forma diferente. Enquanto Eduard se entrega ao amor romântico e quer se valer de todos os meios da época para anular o casamento, Charlotte pensa que o amor deve ser contido porque não há maneiras de sair de tal situação. E é em torno dessa questão que a toda a narrativa se desenvolve: é possível anular o casamento? É possível permitir o amor? Quem vencerá? O casamento ou o amor?

Diferente do famoso Os sofrimentos do jovem Werther em que a atmosfera meio sombria, as exagerações, os sentimentos, a angústia estão colocados desde início, e diferente de Fausto em que a primeira cena já se passa num quarto escuro de trabalho onde Fausto começa a se lamentar, "Ai de mim! Da filosofia/ Medicina, jurisprudência, e mísero eu! da teologia,/O estudo fiz, com máxima insistência./Pobre simplório, aqui estou/ E sábio como dantes sou", em As Afinidades Eletivas a atmosfera é leve, harmoniosa e livre de rebuscamentos. Os sofrimentos do jovem Werther é um livro da fase pré-romântica de Goethe e As Afinidades Eletivas é um livro da fase neoclássica. Logo, aparentemente o desequilíbrio de um livro e a harmonia de outro estão explicados pelos diferentes caminhos estéticos que o autor buscou. A atmosfera equilibrada e o próprio tom da narrativa que faz lembrar a tranquilidade de um jardim combinam com a fluidez do texto, que nada lembra o texto difícil e enigmático de Fausto. Contudo, essa harmonia é colocada em questão na própria narrativa e os mesmos problemas de Werther, a civilização, por exemplo, voltam para As Afinidades Eletivas mas de outra maneira.


Além de ser bem agradável de ler e possuir personagens cativante, ou pelo menos marcantes, esse romance possui um final extraordinário, surpreendente de se ler, pois desafia toda a dicção que o livro assumira até ali. Além disso, o final, como todos os finais de Goethe, suscita inúmeras possibilidades de reflexão sobre a natureza, sobre o ser humano e sobre a civilização. 

 
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