2.5.17

Bruxa da Noite, de Nora Roberts

Bruxa da Noite, escrito por Nora Roberts


Editora: Arqueiro
Páginas: 320
ISBN: 9788580413847
Tradutora: Maria Clara de Biase
Com pais indiferentes, Iona Sheehan cresceu ansiando por carinho e aceitação. Com a avó materna, descobriu onde encontrar as duas coisas: numa terra de florestas exuberantes, lagos deslumbrantes e lendas centenárias – a Irlanda.
Mais precisamente no Condado de Mayo, onde o sangue e a magia de seus ancestrais atravessam gerações – e onde seu destino a espera. Iona chega à Irlanda sem nada além das orientações da avó, um otimismo sem fim e um talento inato para lidar com cavalos. Perto do encantador castelo onde ficará hospedada por uma semana, encontra a casa de seus primos Branna e Connor O’Dwyer, que a recebem de braços abertos em sua vida e em seu lar.
Quando arruma emprego nos estábulos locais, Iona conhece o dono do lugar, Boyle McGrath. 
Iona logo percebe que ali pode construir seu lar e ter a vida que sempre quis, mesmo que isso implique se apaixonar perdidamente pelo chefe. Mas as coisas não são tão perfeitas quanto parecem. Um antigo demônio que há muitos séculos ronda a família de Iona precisa ser derrotado.
Em Bruxa da Noite, primeiro livro da trilogia Primos O'Dwyer, temos a história de seis personagens (4 deles bruxos) que se unem por laços de amor e amizade para lutar contra Cabhan, o bruxo do mal. Branna, Connor, Iona, Boyle, Meara e Finn são personagens com características marcantes e que nos cativam desde as primeiras páginas pelo jeito que agem e pelo jeito que cuidam uns dos outros.

Iona chega à Irlanda, encontra seus primos também bruxos que a ensinam a lidar com seu poder. Também encontra Boyle que não é bruxo, mas tem o poder de deixá-la completamente apaixonada.

Os animais da história também são muito importantes. Como Iona é a personagem que mais se destaca nesse primeiro livro (a maioria das cenas são pelo seu ponto de vista ou pelo de Boyle), o animal central é seu guardião: o cavalo. Iona conversa com eles, os entende e ama trabalhar com eles nos estábulos, como guia de passeios ou dando aulas.

A história flui muito bem contando sobre a relação entre as personagens, sobre as descobertas de Iona quanto às suas origens e às suas habilidades, sobre conflitos no relacionamento deles, sobre encontros para planejar como acabar com Cabhan, sobre o trabalho com os cavalos...

De todos os personagens, a Iona foi com quem menos eu me identifiquei, achei ela 'atirada' demais, e acheu que ela falava demais, o que contradizia um pouco com o que eu esperava dela, mas aos poucos fui me acostumando e aceitando melhor.

O Boyle é um cara meio mau-humorado, bronco, que não sabe muito bem lidar com os assuntos do coração, mas gostei muito dele desde o início e cada vez mais a medida que seu relacionamento com Iona se desenvolvia.

Estou lendo o segundo livro da série (mais baseado no Connor) e pretendo ler toda a trilogia para saber como termina a história desses personagens que já considero meus amigos.

24.4.17

O Brilho do Bronze, de Boris Fausto

O Brilho do Bronze, escrito por Boris Fausto

Editora: Cosac Naify
Páginas: 240
ISBN: 9788540508491
Diante da morte da esposa, com quem foi casado por 49 anos, o historiador Boris Fausto decide revisitar um hábito da juventude e escreve um diário. A princípio voltado a reflexões dolorosas acerca do luto, os escritos pouco a pouco se abrem para o cotidiano concreto, ainda que envolto pela marca da ausência. O resultado revela um olhar crítico e atento à vida contemporânea, permeado pelo senso de humor inabalável do autor. 
Como retornar à vida depois da perda de uma pessoa querida? Como voltar à rotina depois de passar por uma dor que parece nunca cessar? Como conseguir conciliar tantos sentimentos vividos durante o luto?

Nesse livro o historiador Boris Fausto mistura reflexões e memórias após a perda de sua esposa Cynira e expõe um lado muito íntimo da sua história de superação.
VÃO-SE OS ANÉIS, FICAM OS DEDOS?
Olho o dedo anular e vejo o percurso que tomou o meu anel. A princípio, pus e tirei, de acordo com as circunstâncias; por fim acabei tirando para sempre. Achava que pelo menos a marca do anel ficaria. Engano: a marca se tornou invisível. A lembrança e a tristeza, não.
Boris Fausto expõe pontos geralmente ocultos nesse processo; a dor sendo imposta diariamente pelas obrigações cotidianas, como notar um lugar vazio à mesa, se preocupar em comprar a comida preferida da pessoa que se foi e outras sutilezas que acabam impondo a ausência definitiva.

Por outro lado ele nos conta pequenos fatos cotidianos que acabam por tornar a vida mais leve, uma conversa no táxi, um "causo" contado pela sua faxineira, as conversas com o coveiro responsável pela manutenção do túmulo da sua esposa e outras situações que nos obrigam a seguir em frente, sobre a inevitável continuidade da vida.
A conversa foi boa, até carinhosa, mas ninguém fez referência à falta da mãe e avó. Só eu disse uma frase de sentimento pela ausência. Na virada de mês, dia 17, então, nenhum comentário. Admito que o assunto seja difícil, mas tenho a convicção de que os mortos incomodam. Para que falar deles, se estamos vivos?
O autor aborda também algumas situações desagradáveis que viveu durante o período. O principal incômodo é tentar compreender as diversas formas de viver o luto. Por que seus filhos não visitam o túmulo da mãe? Por que o silêncio à mesa, por que não mencionar o nome de Cynira? Por que continuar a vida como se a pessoa ausente nunca estivesse estado presente?

Para Boris Fausto são situações difíceis de serem vividas já que ele tem a necessidade de falar sobre a morte da mulher, afinal é exatamente por isso que ele decide escrever esse diário. Essas situações são de difícil compreensão e muito doloridas e que ele expõe de maneira muito franca nas suas anotações. 
Caminho pelas vias e pelo gramado, assinalo o contraste entre as lápides bem polidas, enfeitadas com muitas flores, e as que perderam a cor brilhante, substituída por um melancólico cinza. Ao vê-las, reforço a certeza da finitude que a todos espera, como se, pelo contrário, o brilho do bronze fosse uma prova de vida.
O diário compreende um período de 3 anos da vida do autor após a perda da esposa, um fato interessante já que existe uma pressão social de superação da perda. Cada pessoa tem um processo de superação diferente e o autor nos mostra com humor, ironia e otimismo que é possível retomar a vida aos poucos após uma dor tão grande como a morte de alguém que se ama.

É um livro muito bonito, apesar da melancolia e tristeza do tema abordado, que pode alentar o leitor que passa ou passou por algo semelhante.

18.4.17

Como se apaixonar, de Cecelia Ahern

Como se apaixonar, escrito por Cecelia Ahern

Editora: Novo Conceito
Páginas: 347
ISBN: 9788581637860
Tradutora: Bárbara Menezes de Azevedo Belamoglie

Depois de não conseguir evitar que um homem acabasse com a própria vida, Christine passa a refletir sobre o quanto é importante ser feliz. Por isso, ela desiste de seu casamento sem amor e aplica as técnicas aprendidas em livros de autoajuda para viver melhor.
Adam não está em um momento muito bom, e a única saída que ele encontra para a solução de seus problemas é acabar com sua vida. Mas, para a sorte de Adam, Christine aparece para transformar sua existência, ou pelo menos tentar ajudá-lo. Ela tem duas semanas para fazer com que Adam reveja seus conceitos de felicidade. Será que ele vai voltar a se apaixonar pela própria vida?

Como se apaixonar é o décimo primeiro livro de Cecelia Ahern, a autora de PS Eu te amo, um dos meus filmes preferidos da vida (nesse caso acho o filme melhor que o livro).

Na história, Christine acaba assistindo a um suicídio e pouco tempo depois quase presencia outro. Adam está prestes a pular de uma ponte, mas Christine o impede. Contudo, ele diz a ela que lhe dá duas semanas para mudar sua vida ou ele vai se matar de qualquer jeito.

E então acompanhamos esses 15 dias nos quais Christine tenta consertar todos os problemas de Adam e o segue de forma superprotetora a fim de impedir que ele acabe com sua vida. Christine é uma leitora assídua de autoajuda e usa dessa artifício para procurar uma maneira de ajudá-lo.

O romance, com algumas partes engraçadas, é narrado em primeira pessoa, por Christine, e tem uma linguagem muito simples e rápida de ler.

Eu não gostei muito do livro. Primeiro, porque achei a escrita simples demais. Com isso, a autora se torna repetitiva e não deixa espaço para o leitor participar ativamente da leitura. Segundo, porque achei a história toda bem previsível. E, por fim, não gostei da protagonista. Achei a Christine um pouco chata, uma personagem um pouco apagada e 'sem sal' para ser o foco da narrativa.

Mas também tem seus pontos positivos. O Adam é um personagem cativante. A família da Christine é engraçada, eu adorava toda vez que seu pai e suas irmãs apareciam na história. A leitura é leve, divertida e traz boas reflexões sobre a vida.

4.4.17

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

Americanah, escrito por Chimamanda Ngozi Adichie

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 516
ISBN: 9788535924732
Tradutora: Julia Romeu

Lagos, anos 1990. Enquanto Ifemelu e Obinze vivem o idílio do primeiro amor, a Nigéria enfrenta tempos sombrios sob um governo militar. Em busca de alternativas às universidades nacionais, paralisadas por sucessivas greves, a jovem Ifemelu muda-se para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo que se destaca no meio acadêmico, ela se depara pela primeira vez com a questão racial e com as agruras da vida de imigrante, mulher e negra. Quinze anos mais tarde, Ifemelu é uma blogueira aclamada nos Estados Unidos, mas o tempo e o sucesso não atenuaram o apego à sua terra natal, tampouco anularam sua ligação com Obinze. Quando ela volta para a Nigéria, terá de encontrar seu lugar num país muito diferente do que deixou e na vida de seu companheiro de adolescência. Chimamanda Ngozi Adichie parte de uma história de amor para debater questões prementes e universais como imigração, preconceito racial e desigualdade de gênero.


Americanah foi o quarto livro publicado pela Chimamanda Adichie, uma autora nigeriana que está sempre ligada a questões de racismo e feminismo. A palestra dela do TedTalk 'Somos todos feministas' é incrível e fez muito sucesso.

Em Americanah, Ifemelu é uma nigeriana que mora nos Estados Unidos há mais de 10 anos e que pretende voltar para a Nigéria onde quer, entre outras coisas, encontrar seu grande amor Obinze, com quem não tem contato há algum tempo.

Enquanto Ifemelu está no cabeleireiro, ela vai lembrando de sua trajetória, e nós vamos conhecendo todo o seu passado. Começando na Nigéria, indo fazer faculdade nos Estados Unidos e enfrentando muitas dificuldades nessa mudança de país (afinal, foi nesse momento que ela 'descobriu que era negra'), começando seu blog chamado Raceteenth ou Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitos por uma negra não americana, decidindo voltar e voltando para a Nigéria.

Na minha opinião, esse livro tem dois aspectos principais. Primeiro, a própria Chimamanda disse em uma entrevista que esse livro fala sobre sair e voltar de seu país, sobre mudança cultural. Eu, sendo uma pessoa que vivo essa experiência, me identifiquei bastante com vários momentos, como sentir saudade de determinada comida, estranhar um comportamento, mas depois de um tempo incorporar muitas dessas diferenças na sua própria rotina.

O segundo aspecto é a discussão e reflexão sobre o racismo. Eu não sou negra e por mais que saiba das dificuldades que eles passam, não vivo isso na pele. Mas o livro, de certa forma, me aproximou dessa realidade. Ao ver o mundo com os olhos de Ifemelu e acompanhar tão de perto as situações frequentes que ela precisa enfrentar, consegui entender melhor a forma como o racismo está intrincado à nossa sociedade, tão presente em pequenas atitudes que, contraditoriamente, parece ser comum ou até não existir. Uma leitura que com certeza enriquece e transforma sua visão do mundo.

A escrita da Chimamanda é bastante direta e muito tranquila de ler. Sem rodeios, com verdades que, às vezes, geram até uma sensação incomoda.

Recomendo esse livro que, por meio de alguns personagens, nos faz ver de forma mais crítica a realidade de muitas pessoas pelo mundo, discriminadas ou tratadas de forma diferenciada só por serem consideradas diferentes.

29.3.17

Febre de Enxofre, de Bruno Ribeiro


Febre de Enxofre, escrito por Bruno Ribeiro

Editora: Penalux
Páginas: 274
ISBN: 9788558331173
Yuri Quirino, um poeta desiludido, após se despedir da mulher amada conhece Manuel di Paula, uma criatura estranha que oferece uma oportunidade peculiar de trabalho para ele: escrever sua biografia. Para escrevê-la, Yuri viaja até a cidade natal de Manuel, Buenos Aires, e termina entrando em uma voragem absurda de horror e perdição.
Yuri e Luciana formam um casal improvável. Ele poeta maldito sem perspectiva e que na maior parte do tempo depende do dinheiro do pai para conseguir sobreviver; ela uma jovem bonita e estudante de Direito que vive de maneira tradicional.
O livro se inicia quando Yuri deixa Luciana no aeroporto em Campina Grande, Paraíba, cidade onde ambos vivem até o momento, para que ela pegue o voo até o Rio de Janeiro, cidade onde ela dará continuidade nos seus estudos. Apesar das diferenças entre eles Yuri é completamente apaixonado por Luciane e fica extremamente abalado com o distanciamento físico e afetivo que essa mudança trará.

Ainda no aeroporto Yuri conhece uma figura estranha, Manuel di Paula, que diz ser um grande fã de sua poesia e exatamente por esse motivo gostaria que Yuri escrevesse sua biografia, mas para isso seria necessário que o poeta se mudasse para sua cidade natal, Buenos Aires.
Yuri de início rejeita a proposta do estranho e retorna ao caos de sua vida.

E você imaginou que eu voltaria como relâmpago, daqueles que kamikazes que se imortalizam no céu na forma de cicatriz. Não. Eu retornei tormenta, daquelas que puxam tudo para o ralo, inundando qualquer rastro de rua. Foi o que ela disse, nunca foi tão poeta como neste dia, nem eu que sou poeta o fui alguma vez; beijou minha boca, te amo, também te amo, e partiu. Judas.

Ao retornar à realidade de sua vida sem Luciana o poeta mergulha no caos e depressão. Vivendo sempre no submundo de Campina Grande, rodeado por bêbados, prostitutas, drogados e sem dinheiro Yuri começa considerar a proposta feita por Manuel di Paula, já que ele não tem perspectiva ou alternativas para continuar se sustentando.

Durante o período que acompanhamos a vida do poeta na cidade paraibana percebemos o quanto Yuri é sensível à realidade, como ele gosta de expor e evidenciar a podridão e a crueza da vida. Acompanhamos o seu processo de enlouquecimento e sua única escapatória é se mudar para Buenos Aires.
(...) é preciso ter cuidado com pessoa danificadas, elas sempre arrumam um jeito de sobreviver, e Luciana sobrevivia criando uma carapaça rígida, deixando que seu lado sensível estivesse protegido de estranhos e eventuais danos.  
A partir do momento que ele se muda para a Argentina o livro muda de tom. O Yuri deprimido dá lugar a um mais debochado e escrachado, que apesar de viver sempre no limite consegue enxergar com mais comicidade os problemas que acontecem na sua vida.

Morando na mansão em ruínas de Manuel di Paula Yuri percebe que está novamente sendo engolido pela loucura dos seus pensamentos e, mais ainda, como está sendo sugado pela figura estranha de di Paula.

Enquanto escreve sua biografia Yuri começa a perceber que ele talvez já conheça Manuel e que sua vida está mais ligada à dele do que poderia imaginar.
Nesse momento o leitor é levado pela loucura de Yuri e começa a se questionar se o que ele narra está acontecendo, se é apenas loucura ou se existe algum traço do sobrenatural permeando a história.

Enfim, é um livro que nos faz mergulhar pouco a pouco na loucura do protagonista narrador e somos levados ao submundo que é a mente de um poeta que sente tudo muito latente, as paixões, a podridão e as coisas ruins geralmente não ditas sobre vida.

26.3.17

O bálsamo, de Tereza Custódio

O bálsamo, escrito por Tereza Custódio
Editora: Chiado
Páginas: 270
ISBN: 978-989-51-9411-7
Lara Castro fica órfã de mãe aos cinco anos de idade. A partir daí, começa sua luta incansável na tentativa de se adaptar aos novos modelos familiares. Nessa caminhada cheia de atropelos, desamparo, bullying e abandono emocional, ela vai relatando suas vivências com lápis de cores ora cinza, ora colorido.
Quando adulta, ao cuidar da avó, Lara resgata a família, recuperando um sentimento de pertencimento desse clã perdido na poeira da vida. Demite-se de um trabalho estafante, e adentra em um novo campo profissional como Cuidadora de Idosos. A partir daí, seus horizontes se alargam e ela passa a ver os aspectos frágeis e vulneráveis do ser humano. Vivencia o desgaste emocional familiar, as dificuldades nas relações geracionais decorrentes de doenças crônicas, luto, viuvez, negligência e violência física e mental contra o idoso. Começa a compreender que o ato de cuidar envolve corpo, mente e alma e, portanto, a compaixão, paciência e resiliência se fazem cada vez mais necessárias.
Ao perceber que pessoas idosas quebram paradigmas e estereótipos, se permitindo novas histórias de amor, um novo mundo vai se descortinando, facilitando o processo de cura e redescoberta daquele coração petrificado e daquele corpo intocável. Novos cenários surgem cheio de cores e musicalidade levando Lara a encontrar o bálsamo para curar sua ferida no Hotel Geriátrico Reviver. Será que doutor Raphael Medeiros – Geriatra e Gerontólogo – iria se interessar por uma simples cuidadora?

Sobre o que se trata?

Lara Castro é uma mulher fragmentada pelo seu passado. Marcada pela perda repentina de sua mãe quando tinha apenas cinco anos de idade e por um relacionamento abusivo e extremamente nocivo, ela precisa contar o seu passado para decidir o que quer para a sua vida – e a para a de Jonas também, seu filho de treze anos. Em busca de sua autoconfiança e de um cotidiano digno, é na profissão de cuidadora de idosos que encontrará o seu conforto e através da qual conseguirá dar vazão à sua índole dócil e altruísta. 

Conhecemos sua infância, seus traumas que surgem neste período, sua adolescência e sua vida de casada. Até então, são várias pessoas destruidoras que apareceram em sua vida, a ponto de tais relacionamentos determinarem uma ausência de afeto que lhe proporcionaram uma autoestima corroída e deficiente. Porém, Lara tem Eva em sua vida, a avó sempre carinhosa. E é esta figura interessante que lhe ajudará na escolha da sua profissão. Por ser tão importante em sua vida, e justamente por necessitar de cuidados e atenção, Eva parece estar em sua vida para lhe dar um rumo, para ser sua guia. 

Minhas impressões

A leitura é fluida, e isto porque a história é gostosa, do tipo que nos acompanha depois de lermos. Torna-se, até, uma espécie de amigo. A impressão que tenho é que acalenta o coração do leitor, justamente porque trata de temas tão significativos como a família e a interação entre gerações. A discussão sobre a importância de se cuidar e proporcionar uma vida digna aos idosos se faz sempre presente, e de diversas formas, seja explícita ou implicitamente.

Outra característica da história que nos é cativante se refere à intertextualidade. Já começamos com a leitura do prefácio, no qual a autora nos revela o porquê do título, extremamente ligado à figura do Sancho Pança e da obra Dom Quixote. Ao destacarmos Dom Quixote, acabamos deixando de lado o fato de que Sancho é seu fiel escudeiro por cuidar sempre dele, e estar sempre ali ao seu lado. Sancho é, pois, a figura de um cuidador, de alguém que providencia uma vida mais afetuosa a outrem, principalmente por sua companhia. Muito se assemelha a este personagem a menina que Eva adotou e criou, a Baía, uma idosa forte e extremamente doce, fiel àquela que a salvou de um destino cruel de desamparo e inanição. E não apenas esta referência literária aparece em O bálsamo, como várias outras, inclusive musicais e históricas. A narrativa de Lara está entremeada pelo contexto histórico por que passou durante sua própria história, e isto é muito bacana de vir à tona. 


Outra questão interessante do livro é a linearidade temporal, ou esta ser tênue, pois o relato de Lara retorna e avança nas memórias quando necessita. Ela não conta do começo ao fim. Ela começa in media res, conta o seu passado e depois retorna ao presente e àquilo que passa a acontecer em sua vida. Por ser um livro de memórias, este fato é muito verossímil porque o tempo psicológico não necessariamente obedece a cronologia habitual. Pelo contrário, eu diria: se tem algo que não pode acontecer neste tipo de narrativa é a linearidade dos fatos. Quanto a isso, cito também a construção dos personagens. Lara amadurece conforme relata aquilo por que passou, ela é complexa – assim como Baía –, e estar a todo momento a par de sua perspectiva nos esclarece isso.

Apesar de o livro necessitar e merecer uma revisão mais atenta e de alguns diálogos serem inorgânicos (com um uso excessivo de vocativos, o que torna a leitura destes trechos truncada e inverossímil), ele foi um companheiro e tanto para o meu sábado! Fiquei emocionada com a história da Lara e com sua forma de enxergar e lidar com o seu próprio cotidiano. Recomendo àqueles que se entusiasmam com dramas familiares e com livros que têm muito a oferecer, enquanto ensinamentos, ao leitor.

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23.3.17

Um mais um, de Jojo Moyes

Um mais um, escrito por Jojo Moyes

Editora: Intrínseca
Páginas: 320
ISBN: 9788580576542
Tradutora: Adalgisa Campos da Silva

Há dez anos, Jess Thomas ficou grávida e largou a escola para se casar com Marty. Dois anos atrás, Marty saiu de casa e nunca mais voltou.
Fazendo faxinas de manhã e trabalhando como garçonete em um pub à noite, Jess mal ganha o suficiente para sustentar a filha Tanzie e o enteado Nicky, que ela cria há oito anos. Jess está muito preocupada com o sensível Nicky, um adolescente gótico e mal-humorado que vive apanhando dos colegas. Já Tanzie, o pequeno gênio da matemática, tem outro problema: ela acabou de receber uma generosa bolsa de estudos em uma escola particular, mas Jess não tem condições de pagar a diferença. Sua única esperança é que a menina vença uma Olimpíada de Matemática que será disputada na Escócia. Mas como eles farão para chegar lá?
Enquanto isso, um dos clientes de faxina de Jess, o gênio da computação Ed Nicholls, decide se refugiar em sua casa de praia por causa de uma denúncia de práticas ilegais envolvendo sua empresa. Entre ele e Jess ocorre o que pode ser chamado de ódio à primeira vista. Mas quando Ed fica bêbado no pub em que Jess trabalha, ela faz questão de deixá-lo em casa, em segurança. Em parte agradecido, mas principalmente para escapar da pressão dos advogados, da ex-mulher e da irmã — que insiste em que ele vá visitar o pai doente —, Ed oferece uma carona a Jess, os filhos e o enorme cão da família até a cidade onde acontecerá o torneio.
Começa então uma viagem repleta de enjoos, comida ruim e engarrafamentos. A situação perfeita para o início de uma história de amor entre uma mãe solteira falida e um geek milionário.
A capa desse livro combina muito com o que podemos esperar da história: o encontro e convívio de cinco personagens únicas e muito diferentes que aprendem a se enxergar, a se respeitar e a se amar.

E definitivamente, em meio a um enredo previsível onde já sabemos o final logo de cara, as personagens ganham destaque e roubam a cena.

Jess é a mãe solteira e trabalhadora que precisa contar cada centavo do seu dinheiro para conseguir pagar as contas do mês. Ela acredita que pessoas boas são recompensadas, mas encara situações que parecem querer mostrar o contrário. Ela conhece seus filhos, sabe das dificuldades que passam por serem diferentes dos outros e sofre por não poder resolver todos os problemas. Ela representa muitas mulheres reais e sua força chega a ser tocante.

Nicky é seu enteado calado, que se veste diferente e que sofre bullying por fugir dos padrões. Com certeza você também já ouviu falar de alguém assim. Mas apesar disso, ele observa tudo o que acontece e tem um grande coração.

Tanzie é uma menina prodígio que arrebenta em matemática e precisa de oportunidades para desenvolver esse talento. A escola particular parece ser a única saída, mas, para isso, primeiro ela precisa vencer uma Olimpíada de Matemática. A maneira dela de pensar é muito interessante e impressiona o leitor.

Ed é um jovem muito rico que corre o risco de perder tudo. Além disso, ele adorava seu trabalho e agora está afastado dele. Sabe aquelas pessoas que se dedicam exclusivamente a uma única coisa? Pois então, agora sua vida parece ter perdido o sentido. Quando vê a família de Jess precisando de uma carona para a Escócia, ele pensa em fazer uma boa ação para retribuir um favor e fugir de sua própria realidade. No começo pensa em desistir, mas ele não tem muito mais o que fazer no momento. A convivência com pessoas tão diferentes, de um nível sócio-econômico tão mais baixo que o dele vai mostrar para Ed um mundo totalmente novo.

Nolan é o cachorro da família que apesar de ser companheiro não facilita muito a viagem de carro.

Durante a narrativa, temos todos esses personagens convivendo por alguns dias enquanto viajam de carro para a Escócia. Com momentos engraçados, tensos e doces, a leitura flui mais fácil do que a trajetória que eles precisam percorrer para chegar a tempo à Olimpíada de Matemática de Tanzie, para se conhecerem melhor e para perceber o quanto precisam um do outro.

13.2.17

História de quem foge e de quem fica, de Elena Ferrante

História de quem foge e de quem fica, escrito por Elena Ferrante



Editora: Biblioteca Azul/Editora Globo
Páginas: 416
ISBN: 8525062502
Tradução: Mauricio Santana Dias

A continuação do aclamado A amiga genial
No terceiro volume da série napolitana, Lenu e Lila partem para os embates da vida adulta. Numa sequência angustiante e sem espaço para a inocência de outrora, Elena Ferrante coloca o leitor no meio do turbilhão que se forma das amizades, das relações sociais e dos interesses individuais. História de quem foge e de quem fica é uma obra de arte a respeito do amor, da maternidade, da busca por justiça social e de como é transgressor ser mulher em um mundo comandado pelos homens.

Já escrevi aqui sobre A amiga genial e História do novo sobrenome. História de quem foge e de quem fica é a continuação, o terceiro livro da Série Napolitana. Você pode ler a resenha, (eu ficaria feliz com a leitura), mas não tente ler o livros fora da ordem. Primeiro porque o livro foi pensando como uma série e devemos certo respeito ao projeto da autora, segundo porque não tem como entender a vida adulta de Elena e Lina pulando a infância que está em A amiga genial e a adolescência de História do novo sobrenome. O terceiro livro segue o contrato estabelecido desde o primeiro volume: uma tabela inicial com os nomes dos personagens, as relações familiares e breves resumos que retomam pontos e acontecimentos anteriores; quem comanda a narração é Elena, iniciando de uma forma que recapitule o desaparecimento de Lila que foi o ponto de partida da narrativa, os principais eventos do passado e a cena final do último volume, que tanto no primeiro, quanto no segundo livro firam tipo os últimos capítulos das novelas.

Amiga genial termina quando as meninas têm 16 anos, A História do novo sobrenome quando têm por volta dos 20 anos, História de quem foge e de quem fica começa aí e termina em torno dos 30 anos. Dom Aquille, o dono do bairro e o ogro das fábulas, começa receber o adjetivo de agiota e sua família de fascistas. As violências que passavam como sustos, espetáculos e estranhamentos aos olhos da infância ganham contornos definidos e passam a ser verdadeiramente encenadas e vividas. Não só a vida adulta traz para existência de Elena e Lina dificuldades, violências emocionais e físicas, mas também o mundo social: o bairro pobre em que nasceram leva a toda Nápoles, Nápoles leva a toda Itália, a Itália leva a toda Europa e a Europa ao mundo - explodem os movimentos estudantis e lutas operárias, Maio de 68 na França entusiasma a todos com promessas de melhores futuros, os artiguinhos de esquerda de Elena se tornam verdadeiros relatos das dificuldades da classe operária nas fábricas da periferia; mas por outro lado, o fascismo, a exploração e a repressão deixam de ser somente a ameaça dos irmãos Solara e tornam-se real nas ruas, no trabalho e em toda parte. Quanto mais Elena e Lina crescem enfrentando a deficiências dos próprios corpos que envelhecem e de suas condições de mulheres, inevitavelmente se ligam a uma resistência social. A luta operária e estudantil para as duas, ainda que seja de maneiras diferentes, é uma resistência às violências e opressões individuais em que são submetidas. Antes defendi que os livros eram sobre a violência, mas não aquela dos grandes esquemas de máfia e gangues, mas da violência escamoteada no cotidiano. No terceiro volume da Série Napolitana, a violência é um produto do tempo histórico que se espalha pelo espaço como doença e que só fomenta a gravidade das violência pequenas escondidas nas relações privadas e nos bairros desimportantes.

Se até então a leitora ou o leitor de Elena Ferrante não tinha se sentido colocado contra a parede pela violência do mundo dos homens, nesse terceiro volume isso é impossível. A vida adulta faz emergir toda a potência da dominação masculina: mulheres enganadas, traídas, iludidas, meninos que tentam negar os pais e são iguais eles, vidas sexuais expostas, violência doméstica, manipulação psicológica, rebaixamento acadêmico, escravidão ao papel de mãe, escravidão ao trabalho doméstico, rótulos, deformações do corpo, a repressão do sexo, o nojo do sexo, a imposição do sexo, a vontade do sexo, o salário mais baixo, a posição menos importante, o desespero de ser diferente e o caminho inevitável de ser igual, . Tanto Elena, quanto Lina são massacradas por todas essas questões. Se o esforço da vida toda de Elena foi fugir do bairro e fugir de ser quem a família esperava que ela fosse , e principalmente, de ser o que a mãe era, fica a dúvida se não era inevitável que mesmo diferente, ela fosse igual, mesmo fugindo, ela permanecesse no subúrbio de Nápoles. O fugir e o ficar de Elena e Lina não são concluídos, não tem um ponto final para termos certezas em afirmar se as mudanças são possíveis ou não. Mas se ainda há esperança para Elena e Lina, não se pode dizer o mesmo para os homens. Não importa o quão diferente tentam ser, não importa o quanto tentam se afastar da violência e da dominação exercida nas figuras de seus pais, eles se tornam sempre os próprios pais, eles voltam sempre aos mesmos lugares de partida.

Isso me parece presente desde o primeiro volume, mas essa consciência do mundo masculino e essa visão tão pessimista com relação aos homens parece de forma gritante no terceiro volume da série. Disto é válido pensar que quando Elena Ferrante começou a se tornar um sucesso mundial, ganhar prêmios e elogios da crítica literária, Ferrante fever como foi chamado o fenômeno, levantou-se a hipótese de que se tratasse de um homem, já que ninguém conhecia sua identidade. Um jornalista italiano se deu ao trabalho de vasculhar os dados pessoais e bancários da autora até descobrir sua verdadeira identidade (obviamente era uma mulher!), descobriu-se que é casada com um escritor italiano já famoso e agora levanta-se a hipótese que seja o marido que escreva os livros e não ela. Aparentemente esses levantadores de hipóteses não leram os livros e não perceberam o quanto o mundo masculino é uma das maiores fontes de violência no interior dos romances de Elena Ferrante. A tentativa de dar o crédito do sucesso da escrita a um homem ou desmerecer a autora diante da valorização de seu marido só mostra o quanto a ficção está correta enquanto diagnóstico da realidade. 

28.12.16

Poemas, de Adonis

Poemas, escrito por Adonis


Editora: Companhia das Letras
Páginas: 262
ISBN: 8535921249
Tradução: Michel Sleiman
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Na poesia de Adonis, mais do que a polifonia das várias vozes, o leitor poderá encontrar o politeísmo de múltiplas verdades - contra a certeza de um Deus, a verdade plural das musas.


Há muito tempo tinha curiosidade sobre a poesia de Adonis. Li algumas coisas dispersas e fiquei intrigada. Perguntei para linda da Mel se podia pedir um livro de poesia e fazer a resenha sobre ele e, obviamente, maravilhosa e aberta como ela é, aceitou. O problema foi que eu mesma não percebi antes as dificuldades de resenhar um livro de poesias. Não tem resumo da história, não tem lista de personagens, não posso lançar alguns acontecimentos gerais da história para fazer outras pessoas ficarem curiosas. Ao mesmo tempo, não posso tratar de um único poema, não posso tirar o poema do seu contexto, não posso ficar recortando trecho como "olha que bonito" e também não consigo dar conta de todos os poemas do livro. O ponto de partida já é um desfio. Entretanto, Adonis vale o esforço.


O livro da Companhia das Letras poderia servir como uma espécie de apresentação do poeta. Ele começa com um prefácio inspirador feito pelo querido Milton Hatoum que faz um resumo sobre a carreira do autor e seu percurso biográfico: nasceu na Síria, formou-se em filosofia em Damasco, exilou-se em Beirute, mudou-se para Paris, traduziu T.S. Eliot e Robert Foster para o árabe, de Paris fundou diversas revistas que tinha o intuito de dar voz a nova poesia árabe, tem intensas relações com autores ocidentais como Rainer Maria Rilke, Baudelaire, Rimbaud, Henri Michaux, Walt Whitman, além das referências em língua árabe como os poetas sufis, al-Hallaj, Abu-Nuwas e al-Níffari e um cosmopolitismo que se estende ainda para outras língua e culturas, como o persa com referências como Shams ud-Din Mohamed Hafiz e Shiraz. Além disso, Milton Hatoum faz sua leitura e seu elogio a poesia de Adonis, recorta alguns trechos e mostra algumas imagens recorrente dessa poesia que, segundo ele, "tenta desvelar a essência do impossível por meio da alquimia verbal" (p. 16).

Há, depois, um breve comentário de algumas páginas do tradutor Michel Sleiman intutulado "Adonis em português" e em seguida, marcado pela referência 1957-1968 iniciam-se as poesias. Antes dos poemas aparecerem efetivamente, há sempre um título maior que agrupa os poemas de cada seção e uma explicação sobre cada uma dessa partes. Por exemplo, a primeira seção intitulada "Do amor, da morte, do que não acaba" vem marcada logo abaixo pela palavra "seleção" e pela explicação: "esse título, dado pela tradução, é formado com base na seleção de poemas tirados dos capítulos 'Poemas de morte', 'Canções de amor', 'Limites do desespero' e 'Poemas que não acabam', de Primeiros poemas, 1957". Ora, como eu disse, isso é uma estratégia interessante como forma de apresentação do autor, recolher algumas poesias, tendo em mente um projeto ou uma razão que justifiquem tais escolhas, é uma maneira de apresentar um pouco, um tema, um lado de determinado poeta. Entretanto, livros de poesia são como vinis ou k7. Vinis voltaram a moda e as K7 infelizmente não, mas quem conhece esses dois objetos sabe que eles pertencem a um tempo em que um gravação era muito caro, não existia Youtube, MTV ou Spotify, não podíamos ouvir o single no Itunes, tínhamos o vinil e ouvíamos tudo que estava ali, pois as músicas se relacionavam, uma fazia ligação com a outra ou respondia a outra, ou contestava a outra, os discos tinham projetos, narrativas próprias, uma lógica interna. Era importante ouvir as faixas na sequência, do começo ao fim para compreender toda essa narrativa. Livros de poesia até permitem saltos, leituras parciais, repetições, assim como os discos, mas sempre há um projeto maior, um sentido no conjunto que perdemos com esses saltos e recortes. Recortes são complicados. Propaganda, vestibulares, facebooks tendem a recortar versos de poemas para transformá-los em frases de auto-ajuda, frases de efeito, recadinhos românticos ou exemplos didáticos, produzindo aí diversos clichês. Poesia é coisa séria e os poemas merecem respeito. Gostar de um verso, recortá-lo, copiá-lo e colá-lo na parede do quarto não é crime, nem pecado, mas o recorte sempre proporciona um risco de perda, perde-se o contexto, perde-se o trabalho do autor com a forma e o conteúdo, perde a potência de sentido, perde a polissemia para reluzi-lo a uma única leitura. Claramente não é o caso do livro aqui em questão, não há recorte de versos, nem a transformação da poesia de Adonis em frases de efeito. Entretanto, há, de toda forma, recorte de livros de poemas, de conjuntos fechados que mereciam a atenção e dedicação de forma individualizada. Os poemas dessa primeira parte pertencem a divisões diferentes do livro original. O autor não divide o livro em partes e encaixa os poemas aleatoriamente. Existe sempre uma razão para os poemas estarem ali, para o nome de cada uma das partes, da sequência do que vem antes e do que vem depois. Em seguida, há uma seção chama "Folhas ao vento" e trata-se de uma seleção de dezoito das cinquenta unidades de poemas - são pequenas unidades de alguns versos que tem sentido sozinhas, claro, mas não foram colocadas sozinhas, elas existem sozinhas, existem como dezoito, mas com absoluta certeza existem de maneira mais completa as cinquenta juntas. Mais para frente, "Os dias do Sacre", temos os dois primeiros poemas que formam um poema bem longo de motivo épico. Ora, ninguém recorta a Odisséia, a Ilíada, a Eneida ou Os Lusíadas. Então, podíamos ter o mesmo respeito com o querido Adonis e não recortar "Os dias do Sacre".

Isso não diminui a beleza do livro. Apesar do risco dos recortes e da seleção, o livro cumpre o papel de despertar o desejo da existência dos livros completos e separados de Adonis. A seleção procura trazer de maneira mais justa possível as árvores de vida e sentido que crescem por sua poesia, a metamorfose da natureza que é também do homem, da experiência e da linguagem, os mitos da Península Arábica que se misturam com os mitos do Ocidente, a busca por um outro lugar de produção da poesia, onde o sentido não está mais dado, mas está em constante e interminável metamorfose e em processo de construção, destruição e reconstrução. Tumba para Nova York, o single internacional de Adonis,  aparece completo trazendo por inteiro sua potência da temática da grande cidade, mas dessa vez a arquitetura da cidade é elaborada por um estrangeiro, um sírio, que conhece Walt Whitman mas que vê ali a violência, o racismo, a "folha-grama" de Whitman virando a "folha-dólar" de Wall Street, asfalto e arranha-céu junto com árvores, serra, sol e Jerusalém. Como há excertos de diversos livros, como já foi apontado, é difícil enumerar tudo o que está contido ali. Há partes mais sociais sobre a condição e a identidade do Oriente, há outras mais existências sobre o amor, a mulher e a morte. Porém, o que me parece maior e que liga todos os pedaços dos livros é a própria linguagem e a poesia como possibilidade de um outro espaço de linguagem. Por isso, atraiu-me especialmente a atenção uma seção nomeada "Guia para viajar pelas florestas do sentido" em que há um empenho de ressignificação do mundo.










É difícil falar de poesia e difícil falar de Adonis. Acho que fiquei muito aquém de uma real compreensão de tudo o que li e falei muito pouco sobre o que senti com a leitura. O livro contém algumas páginas que reproduções a escrita original do poema em árabe. É muito bonito e interessante olhar para isso e parece-me um pouco do que é o próprio processo de leitura da poesia: é olhar para uma outra língua que tem os mais potentes sentidos escondidos em sutis traços e pequenos pontos, pequenos nadas, como disse Manuel Bandeira. 



11.12.16

Te vendo um cachorro, de Juan Pablo Villalobos

Te vendo um cachorro, escrito por Juan Pablo Villalobos



Editora: Companhia das Letras
Páginas: 248
ISBN: 8535926313
Tradução: Sérgio Molina
Livro cedido pela editora em parceria com o blog

Encerrando a trilogia sobre o México, Juan Pablo Villalobos cria um ambiente farsesco em torno de velhos aposentados e tece uma crítica mordaz à vida em sociedade. Aos 78 anos, Teo se muda para um prédio decadente cheio de anciãos. Passa os dias ouvindo as fofocas nos corredores, nutrindo desejos eróticos pela síndica e calculando quantas cervejas pode beber por dia às custas de um pecúlio que deve durar até sua morte. O grande evento do prédio é uma tertúlia literária: os participantes se impõem o desafio de ler os sete tomos de Em busca do tempo perdido, intercalando Proust com aulas de modelagem e ginástica aeróbica. Com este romance, Juan Pablo Villalobos encerra a trilogia sobre o México iniciada com Festa no covil. Mais afiado do que nunca, o autor debruça-se sobre a velhice, o cotidiano e a literatura para tecer uma crítica sagaz sobre a vida em sociedade.
No começo do ano escrevi aqui uma resenha de Festa no Covil. Tentei contar um pouco a minha sensação de estranhamento de pegar aquele livro laranja brilhante, com um título bizarro e encontrar uma narrativa incrível, surpreendente, que tinha, no seu centro, um tema arriscado, mas que era trabalhado de forma cuidadosa para não se tornar maniqueísta. Li Festa no Covil para o clube do livro da Biblioteca Mário de Andrade em São Paulo; um dos participantes comentou que se o livro pertencia a um projeto de abordar o narcotráfico no México por perspectivas diferentes. Festa no Covil era pela perspectiva de uma criança, e segundo o moço, os outros seriam pela perspectiva de um velho e de um cachorro. Bom, guardei essa informação e quando pedi o livro Te vendo um cachorro para Companhia das Letras, esperava, obviamente, novamente me surpreender, mas agora com um cachorro narrando (de alguma forma) a questão do narcotráfico. Expectativa frustrada de novo!!! E positivamente, de novo também!

Como diz a pequena sinopse que coloquei acima, acho que podemos considerar que se há um tema comum na trilogia composta por Festa no Covil, Se vivêssemos num lugar normal e Te vendo um cachorro, então este tema é o México. Te vendo um cachorro é narrado por um velho, e não por um cachorro, que se muda para um prédio decadente habitado somente por velhos e aposentados. Logo quando chega ao prédio, ele se encontra com a Tertúlia Literária, uma espécie de clube do livro dos moradores. Eles pressupõe que o narrador é um artista e se decepcionam rapidamente quando descobrem que ele não passa de um vendedor de tacos aposentado. O narrador mais parece um protagonista do Woody Allen com cores de América Latina. Ele fala muito, opina sobre tudo, ironiza todas as situações e pessoas a sua volta, provoca a tertúlia literária, principalmente a líder deles, também síndica do prédio, Francesca, que cisma que ele está escrevendo um romance. Ele diz o tempo todo, para a tertúlia e para o leitor, que não está.

Ele tem calculado o quanto pode viver de acordo com suas economias, mas principalmente quantas cervejas pode tomar. Passa o livro inteiro tomando cervejas e boa parte dele arrumando maneiras de as conseguir de graça. Digo ele porque numa primeira parte do livro o narrador não é nomeado. Um dia ele decide roubar uma Teoria Estética de Theodor Adorno de uma biblioteca pública, passa usar o livro para afastar telemarketings, vendedores ambulantes e corretor de seguro. Além disso, usa a Teoria Estética para matar as baratas do seu apartamento. Então, numa conversa com a dona da quitanda da rua, eles decidem que estão numa missão e que não deveriam usar seus nomes verdadeiros, e por isso o narrador escolhe ser chamado de Teo, de Theodoro, que persiste como seu nome até o final do livro.

A capa azul brilhante, o nome Te vendo um cachorro provocam um contraste imediato, e até uma risada em alguns, quando se olha o índice do livro:

11 - Teoria Estética
125 - Notas de literatura

Títulos muito sérios e técnicos da área de teoria literária para um livro que parece tão pouco sério num primeiro olhar. Inicialmente, ainda podiam ser nomes gerais, contudo a referência a Adorno é confirmada, como já foi falado. Para quem não conhece, trata-se de um intelectual alemão da chamada Escola de Frankfurt que escreveu sobre muitas coisas diferentes, mas todos seus textos têm algo em comum: são conhecidos por serem bem complicados e desafios de leitura. É bastante comum no meio universitário de encontrar professores importantes que admitem as dificuldades dos textos de Adorno. O top da lista pode mudar, mas com certeza a Teoria Estética está entre os livros mais difíceis do autor. Tendo isto em vista, a referência a Adorno saindo da "boca" de alguém tão desbocado debochado quanto Teo, já é engraçado; já usar o livro como maneira de afastar operadores de telemarketings soa como uma ideia genial e promissora, mas também muito cômica. O livro se torna quase que um amuleto para o narrador, até que ele é capturado e feito refém pela tertúlia literária. Teo, como vingança, captura os exemplares de Em busca do tempo perdido que a tertúlia estava lendo e tenta substituir a Teoria Estética por Notas de Literatura. Mas o volume III de Notas de Literatura é muito fino para matar as baratas.

Esses pequenos detalhes já podem dar uma ideia geral do funcionamento da narrativa: além do narrador irônico e provocador, há uma aparência de realismo, de seriedade que vai sendo frustrada aos poucos. As pessoas no prédio fazem exposição de esculturas de passarinhos feitos de miolos de pão, Teo expulsa as baratas do seu apartamento por música cubana, pois aparentemente baratas são conservadoras e de direita, lota um elevador até o teto de baratas, entre outras coisas. O mundo que parece real começa a ficar cheio de acontecimentos absurdos e o leitor tem que trabalhar suas expectativas em torno da verossimilhança. Mas a melhor parte é que tudo isso acontece com muito humor, sem ser de forma forçada ou vulgar.

Entretanto, além da oscilação entre possível e impossível, ficção e crítica literária, há outro movimento em torno desse humor que contrasta com uma melancolia que vem da rememoração: a infância com os conflitos entre o pai, acusado de temperado artístico, e a mãe que tentava saciar a solidão na companhia de cachorros; os cachorros que morreram engolindo meias; a separação do pai; a mãe que tinha certeza da morte; o amor e o desejo frustrados  da adolescência; a perda de tudo; o fim da escola de artes; a vida de taqueiro; a verdade de vender tacos com carne de cachorro; a vontade da arte que ficou frustrada dentro de si.

Num primeiro plano, o humor. Num segundo plano, a melancolia dos dilemas individuais. E mais ali no fundo, uma relação entre os acontecimentos engraçados, as frustrações pessoais e os problema políticos da sociedade mexicana. O livro de Juan Pablo Villalobos é bastante complexo por trás da aparente não-seriedade, além de ser, assim como Festa no Covil, uma leitura surpreendente, ousada e bastante engraçada. 

 
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