10.5.16

A consciência de Zeno, de Italo Svevo

A consciência de Zeno, escrito por Italo Svevo. 

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 400
ISBN: 852092378X
Tradução: Ivo Barroso
Pouco depois do fim da Primeira Guerra Mundial, Italo Svevo começou a elaborar A consciência de Zeno , sua obra-prima. Graças ao conhecimento que tinha das teorias psicanalíticas, o romancista desenvolveu uma análise psicológica de extrema profundidade mediante a representação interior da neurose do narrador-protagonista, e lançando mão de técnicas narrativas bem modernas, conseguiu transmitir ao leitor o poder sugestivo do pensamento e das recordações.

O romance começa com o prefácio de um médico, Dr. S, que se identifica como o médico que é citado no livro diversas vezes de forma pouco elogiosa. Ele conta que sugeriu ao seu paciente nas sessões de psicanálise que escrevesse uma autobiografia como parte do seu tratamento e que o resultado só não foi melhor porque o paciente curou-se. E o médico acrescenta "publico-as (as memórias do paciente) por vingança e espero que o autor se aborreça. Seja dito, porém, que estou pronto a dividir com ele os direitos autorais desta publicação, desde que ele reinicie o tratamento". Esse médico chantagista e esse prefácio cômico já dão início ao tom de toda leitura de A consciência de Zeno.

Zeno é uma versão europeia de um Brás Cubas (Memórias Póstumas de Brás Cubas) e um Leonardinho (Memórias de um sargento de milícias). Totalmente mimado, incompetente para tudo, não termina nada, não toma decisões sozinhos, obedece as convenções burguesas e é bem seguro na posição de patriarca. Ele confessa seus delitos e se auto inocenta, só age em benefício próprio, quando ajuda alguém se vangloria de seu imensurável altruísmo ou deixa escapar uma segunda intenção por trás. Após o prefácio, há o preâmbulo em que ele fala sobre a atividade da escrita proposta pelo médico e em seguida se abre o primeiro capítulo, o fumo, sua doença que precisa ser tratada. Além do vício no cigarro, sua vida é cheio de promessas de últimos cigarros e ele não consegue se livrar nunca nem do cigarro, nem das constantes promessas que vai parar. O segundo capítulo é sobre sua relação com o pai. O terceiro capítulo sobre como foi seu casamento. O quarto sobre sua amante. O quinto sobre a sociedade comercial que faz com o cunhado. Assim se articulam os eixos centrais da obra e também nos quais se articulam a sociedade burguesa patriarcal do final do século XIX e do início do século XX: a doença, o pai, o casamento, a amante e o dinheiro. A segunda parte do romance, consideravelmente mais curta, parece mais um diário, se divide em três datas quando Zeno já está velho e a primeira guerra mundial já se iniciou.

Trata-se, logo, de como a experiência de guerra de 1914 que colocou em dúvida todos os valores políticos e sociais da sociedade do século anterior, pois o livro é escrito após a guerra. Existe na narrativa um questionamento constante das convenções sociais que são sempre postas como naturais. Entretanto, esse questionamento é feito com muito humor, pois Zeno não é o cara que questiona ou duvida de tais convenções, mas que se utiliza dela da maneira mais intensa, mostrando como elas eram/são problemáticas, e por vezes, violentas. Zeno têm amantes, chama os filhos de macacos, tem acessos de raiva e descontrole, tem desejo de matar algumas pessoas e mesmo assim é visto sempre como um homem ótimo e completamente adequado àquilo que um homem do seu tempo deve ser. Essa mau caráter à la Brás Cubas tem ainda muita sorte à la Leonardinho, pois tudo o que ele faz, mesmo de ruim, é acobertado, perdoado, diminuído. Outro caráter particular da obra é seu espaço, pois Zeno, assim como o próprio Svevo, nasce e mora na cidade de Trieste, que pertencia ao Império Austro-Húngaro, tinha um dialeto próprio e vira pose italiana após a guerra. No romance, Zeno mostra como troca entre o dialeto, o italiano e o alemão a depender da situação. Assim, além das convenções sociais a guerra colocou em questão relações de pertencimento identitário também.

A relação com a psicanálise é, como fica claro desde o prefácio, muito forte. O título fala da "consciência de Zeno", mas o romance caminha mais para o "inconsciente de Zeno". Então, conforme o próprio Zeno vai narrando sua vida, como roubava dinheiro do pai para comprar cigarros, como o pai o achava um avoado, como numa mesma noite pediu três moças em casamento, como ele próprio afastou a amante de si sem querer, como ele e o cunhado só faziam besteiras nos negócios e criaram prejuízos enormes, o leitor participa ativamente da interpretação de que maneira isso é real ou não, de que maneira suas atitudes eram conscientes ou inconscientes, como as relação interpessoais parecem muito mais complexas do que a maneira banal com que ele as descreve, etc. Não é um livro de realidade fixa, imutável, é um livro que precisa de um leitor ativo para duvidar das supostas "realidades" contadas por esse narrador.

Profundo nas questões que mobiliza, um final in-crí-vel, passível de inúmeras interpretações, muito cômico e bem-humorado. Svevo era muito amigo de James Joyce e, ainda que na Itália o livro tenha caído rapidamente no silêncio, fora dali o romance foi bem acolhido graças a Joyce que via em Svevo um dos grandes nomes da literatura moderna. E o Sr. Joyce tinha razão sobre muitas coisas.

1.5.16

Terra amaldiçoada, de Douglas Lobo

Terra amaldiçoada, de Douglas Lobo
Publicação independente
Páginas: 146
Amazon - Livraria Cultura - Livraria Saraiva - Apple Store - Gumroad
Demitido de seu emprego em São Paulo, Fabrício Machado retorna a sua terra natal, no interior do Piauí. Ali, espera reavaliar sua vida para decidir o rumo a seguir. Logo, porém, ele descobre que o ambiente rural arcaico onde cresceu está em extinção. O progresso chegou, ameaçando sua fazenda, sua família e todo um modo de vida.
Quando uma série de assassinatos começa a ocorrer, Fabrício desconfia que uma presença maligna assombra sua terra. Uma força aterrorizante que não cessará de matar até que se vingue do mundo que a criou.

Porque mais do que falar sobre literatura independente, é bom falar de literatura independente de boa qualidade. Terra amaldiçoada é de um gênero que eu praticamente nunca tinha lido, o terror, e faz parte do cenário underground da literatura nacional. Sim, porque além de contar com a boa qualidade e ser uma publicação independente, também estamos falando da nossa literatura. E é um honra para mim tentar tirá-lo, um pouquinho que seja, deste cenário que pode ser tão ingrato, e divulgá-lo para que seja cada vez mais conhecido.

Fabrício possui 33 anos e acabou de perder o emprego na cidade grande, especificamente São Paulo. De origem interiorana, ele faz parte de uma família que possui terras, gados e poder no interior do Piauí, e decide voltar para sua cidade natal, Santa Fé, para entender a fase pela qual está passando e tentar buscar uma saída para seus problemas. Na realidade, ele não sabe o porquê de estar voltando, depois de tantos anos, para Santa Fé, e se questiona sobre isso principalmente quando ele se depara com uma situação misteriosa e perigosa.

Isso porque, quando retorna, fica sabendo de alguns assassinatos e crimes que estão acontecendo com determinadas pessoas que parecem possuir algo em comum: são fazendeiros ou envolvidos com alguns deles. E ele descobre que esse envolvimento está mais do que intrincado pela condição política ou social das vítimas. Fabrício começa a desvendar o mistério e acaba chegando ao sobrenatural.


É um terror que começa leve e toma maiores proporções ao se envolver com a política. Este é um tema bastante presente no livro e é o que encorpora o enredo, pois traz discussões extremamente importantes, como o machismo, o abuso de poder e as relações econômicas que conseguem mudar tradições (como é o caso de grandes empresas que dominam certos locais, fazendo com que os pequenos proprietários e produtores vão à falência).

Apesar de não ter uma revisão à altura do seu enredo, o livro prende o leitor do começo ao fim através de seus mistérios e da cenas violentas e sanguinolentas. Poucos acontecimentos são previsíveis, e o final é realmente surpreendente, sendo o livro inteiro criativo e instigante. Ele é curto e possui uma edição lindíssima (soft touch, capa adequada à história e páginas amareladas, que sei que vocês adoram rs).

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21.4.16

Os moedeiros falsos, de André Gide

Os moedeiros falsos, escrito por André Gide

Editora: Estação Liberdade
Páginas: 424
ISBN: 978-85-7448-160-9
Tradução: Mário Laranjeira
“Romance de um romance que se escreve”, como diria o protagonista. Com estilo notoriamente refinado e inovações que marcaram época, Gide prescinde da cronologia e estrutura narrativa tradicionais. Para tanto, Gide concebe um herói, o escritor Edouard, que lhe é muito próximo, e o contrapõe a Bernard Profitendieu, que a seu jeito é igualmente um personagem-modelo. Os moedeiros falsos não são, para Gide, apenas os jovens que escoam dinheiro fraudulento, mas os falsários no espírito e na letra, todos os que vivem na mentira de sentimentos falsos.

Gide declarou que o único romance que escreveu efetivamente foi Os Moedeiros Falsos. Algo para se pensar, pois é difícil aceitar que Os Moedeiros Falsos fique junto dos "romanções" clássicos, como Madame Bovary, Orgulho e Preconceito, Grandes Esperanças ou Ilusões Perdidas. Essa questão é colocada pela por um dos principais personagens do livro, Édouard, que é um escritor moderno e está no dilema de como escrever um romance, como inovar a forma? Como seguir a tradição?

Outro ponto é que normalmente os romanções têm um protagonista cujo processo de formação e aprendizagem é a matéria da narrativa. Os Moedeiros Falsos têm três personagens que recebem uma atenção maior, Bernard, Olivier e Édouard. porém o título leva em conta o dilema de outro personagem, Georges, e o acontecimento mais emocionante de toda história que ocorre nas páginas finais envolve um quinto personagem. E nenhum deles passa por uma formação ou aprendizagem como passam Oliver Twist (Oliver Twist - Charles Dickens) ou Marianne Dashwood (Razão e Sensibilidade - Jane Austen).

Mais um contraste da afirmação de Gide com a realização de sua obra é que no romance tradicional o narrador normalmente é onisciente, sabe tudo o que acontece e sabe o que as personagens pensam. Quando Os Moedeiros Falsos começa o narrador até parece assim. Mas logo sua narração é interrompida pelo diário de Édouard, onde este se torna o narrador. Ali Édouard conta que está escrevendo seu romance chamado "Os Moedeiros Falsos" e no meio do seu diário há trechos desses romance. O primeiro narrador volta mas é novamente interrompido por um carta de Bernard para Olivier. O último acontecimento que esta carta conta é retomado novamente no diário de Édouard que fica em contraste com o que se segue, uma carta de Olivier para Bernard. Quando o narrador em terceira pessoa volta ele diz que não sabe explicar porque tal personagem decidiu fazer tal coisa. Ou seja, não há uma realidade objetiva do que acontece como se tem em Balzac ou Flaubert, porque o próprio narrador não dá a certeza dos acontecimentos. E essa ideia de um livro dentro do livro dentro de outro livro é o que os franceses chamam "mis en abîme", "em abismo", onde as coisas se encaixam uma dentro da outra até o infinito como as bonecas russas em que não sabemos mais qual dos romances estamos lendo.

A história começa em Paris quando Bernard decide sair de casa porque descobre não ser filho legítimo de seu pai. Inicialmente ele se refugia na casa do melhor amigo, Olivier, que é completamente apaixonado por ele. Édouard é o tio de Olivier e vem para Paris para ajudar uma amiga, Laura, que está com grandes problemas, pois engravidou do irmão de Olivier, Vincent, mas ela já era casada. Édouard parte para Suiça com Laura e Bernard para ajudar também um outro velho amigo a rever seu neto, Boris, que tem um papel bem importante no todo do romance. Enquanto isso Olivier fica na França engajado no projeto de edição de uma revista de literatura chamada, "Avant-garde", "Vanguarda". Édouard está sempre empenhado na escrita do seu romance, contudo seu projeto parece impossível e irrealizável. Nisso, há a história do amigo de Édouard que deseja reencontrar o neto, há a história deste neto e sua paixão por uma amiga, das relações de Vincent, do planos do presidente da revista que Olivier participa, do outro irmão de Olivier, Georges, que parece seguir por um caminho duvidoso, do pai de Bernard que quer revê-lo e assim por diante. Inúmeros personagens vão penetrando no enredo de forma o encaixe de todas essas situações vão levando ao leitor para o lugar da incerteza absoluta de qual poderia ser o fim de tudo isso.

Logo, vê-se que o romance (?) de Gide trabalha com a liberdade. Primeiro, a liberdade da forma do romance, tentando inová-la ou contestá-la. Em segundo lugar, com essa liberdade na construção da narrativa. E assim como a forma e o conteúdo desafiam as regras de composição e caracterização do romance, as personagens também são constituídas numa lógica de liberdade e de questionar as convenções sociais estabelecidas. Bernard vê o fato de ser um bastardo como uma liberdade; ele e Olivier estão envolvidos de maneira homoerotizda; Laura, embora casada, envolveu-se com um outro homem, enquanto seu amor era ainda de um terceiro; Sarah, irmã de Laura, julga que o erro da irmã foi casar-se, quer ser livre acima de tudo, desafia e contesta todos os padrões que lhe são sujeitados por ela ser mulher, entre outros. O livro traz uma ideia bem moderna de mundo e mostra como, já nos anos de 1920, as regras sociais estabelecidas e dadas como naturais já não faziam sentido e não completavam os indivíduos, como as tradições e as convenções não são sinônimos de civilização desenvolvida, boa e próspera, mas podem muito bem justificar a barbárie.


O livro de Gide não é complicado na leitura, nem em português, nem em francês, diferentes de outros livros da mesma época, como Ulisses de James Joyce. Os Moedeiros Falsos tem uma leitura bastante acessível e agradável e, por traz de muitos diálogos que parecem fortuitos, possui uma grandeza reflexiva e narrativa. 

17.4.16

O deserto dos meus olhos, de Leon Idris

Publicação independente
Páginas: 456
ISBN: 978-85-919724-0-1
Rupert Lang só tem lembranças do que não viveu. Nas entrelinhas do papel em que escreve diariamente, ele busca encontrar o que restou de sua identidade perdida. O leitor de seus escritos é sua única companhia, um confidente capaz de guiá-lo de volta ao que ele foi um dia. Como um romance histórico encerrado numa única mente, o caminho a ser trilhado envolve acontecimentos não registrados nos livros de História; passagens pela corte espanhola do reinado de Isabel II, pelas ruas da Praga de Johannes Kepler e pelos corredores de um templo budista construído em um penhasco na China. Aquilo que poderia ter sido vivido e aquilo que se suspeita partir da imaginação recebem igual valor, desafiando o leitor a confiar no caos e a encontrar respostas e verdades no inverossímil – ou apesar dele.
Rupert Lang é um escritor que precisa nos contar alguns acontecimentos pelos quais passou. Junto de seu fiel escudeiro, o estilista Benjamin, ele passa por aventuras repletas de significados históricos. Mas, engana-se quem começa a leitura pensando que o tempo e o espaço serão lineares  pelo contrário: somos (não somente os leitores, mas também os personagens) levados a diversos lugares e anos que não parecem estar numa linha de raciocínio que faça sentido. Na realidade, tudo isso começa de forma bem tênue até percebermos, lá pelo capítulo três, que tudo mudou de forma repentina. É nessa confusão de tempos e histórias e personagens secundários que Rupert, Benjamin e também alguns outros personagens importantes para o enredo (e que estão presentes de formas diversas em todos os ambientes narrados) serão inseridos sem explicação. É apenas com o passar das situações que apenas Rupert terá noção do todo que está ocorrendo. Aos poucos, portanto, ele descobrirá o mistério que envolve a descontinuidade de sua vida, sobretudo quando alguém extremamente importante se apresenta: o Arlequim, a representação de sua consciência.

Justamente por esta personagem tão interessante existir no enredo é que começamos a notar o teor psicológico do livro: ele não trabalha apenas com o superficial, as ações e aquilo que acontece no plano das aventuras; a maior e melhor característica dele é sobressaltar o psicológico não apenas dos personagens, mas também de quem está escrevendo. O deserto dos meus olhos não é um livro de leitura fácil, é exatamente o contrário disso, o que podemos notar até mesmo no significado do título, que está presente em uma das passagens, mas que não necessariamente explica o porquê dele­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ – temos apenas pistas, e a interpretação é deixada por conta do leitor.­­­­­­­­­






Nas diversas situações pelas quais Rupert e Benjamin passam, o leitor é convidado a interpretar, pois está a todo momento tentando entender tudo o que se passa. É só depois da metade do livro que, começando a entender o mistério por trás de tudo, poderá analisar a existência desses protagonistas. Incluo Benjamin na categoria de personagem muito importante para o enredo, até mesmo daquela que é fundamental para a narrativa, porque até mesmo ele se questiona disso num determinado momento do livro. E, claro, por ser essencial para todo o enredo. Além dele, outra que sempre está presente é a Dolores, mesmo com sobrenomes variados (mas o seu nome fixo é um bom indício do que ela representa para Rupert), uma figura feminina extremamente importante para o escritor, o que será notado desde o início. Suas diversas facetas será apenas compreendida com o final do livro. Há, ainda, duas personagens vilãs que surgem violentamente e sempre associadas a imagens impressionantes, assustadoras eu diria, como estupro e decapitação.

Alguns temas, como o budismo, estão presentes em várias passagens do livro, e contribuem para fortificar o enredo, que é muito bem construído, assim como as personagens. Tudo servindo para o grande propósito (ou mistério), que é o que mantém o leitor curioso até as últimas páginas. Esta foi uma leitura surpreendentemente maravilhosa, que me cativou e fascinou facilmente, e que serve como exemplo de como a literatura contemporânea nacional pode conter uma escrita muito boa (porque, vale ressaltar, é uma publicação independente cuja revisão e editoração ganha de lavada da de muitas editoras) e um enredo repleto de imaginação e de questionamentos significativos.

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16.4.16

A Revolta da Cachaça, Antonio Callado

A Revolta da Cachaça, escrito por Antonio Callado

Editora: José Olympio
Páginas: 126
ISBN: 9788503012669
Livro cedido pela editora em parceria com o blog


Uma homenagem a Grande Otelo, a peça compõe o teatro negro de Antonio Callado ao lado de, entre outras, Pedro Mico.
Vito e Dadinha, um dramaturgo e sua esposa, ambos brancos, recebem a visita inesperada de Ambrósio, ator negro e antigo amigo do casal. O visitante leva um presente pouco comum, um tonel de cachaça para regar uma conversa cada vez mais confusa entre os três. Ambrósio tem um objetivo: convencer Vito a terminar a peça que o amigo dramaturgo lhe prometera e na qual seria protagonista. Incômoda, irônica e necessária ainda hoje pela atualidade das questões que apresenta, A revolta da cachaça aborda a situação do ator negro no Brasil. 


Revolta da Cachaça foi o período histórico que ocorreu entre 1660 e 1661 no Brasil sendo motivada pelo aumento dos impostos cobrados aos fabricantes de aguardente. A rebelião foi encabeçada por fazendeiros e escravos, e um dos homens de destaque dessa revolta foi do negro João de Angola.

Foi esse o papel prometido por Vito, dramaturgo, ao seu amigo ator negro Ambrósio. A peça que deveria se chamar "A Revolta da Cachaça" e traria Ambrósio como ator principal nunca saiu do papel e durante 12 anos Ambrósio esperou pacientemente sua peça prometida, que alçaria sua carreira dedicada a papéis secundários.

Peço, peço! Peço a peça! (se ajoelha) Me dá a peça, Vito! Não aguento mais ser copeiro, punguista e assaltante. 

Ambrósio chega de surpresa na afastada casa em Petrópolis do amigo e está determinado a deixá-la apenas quando tiver com sua peça em mãos.

Regados à cachaça trazida por Ambrósio, Vito, Dadinha e Ambrósio travam um diálogo que vai do amigável e torna-se tenso quando Ambrósio, já embriagado, expõe as situações em que precisa se submeter enquanto negro e acusa Vito de não terminar a peça por justamente não precisar ter um protagonista negro numa peça sua.

Eu vou te dizer uma coisa. Se esta cor de carvão não me atrapalhasse na minha carreira, eu estava cagando pra ela, palavra.

Ambrósio não mede palavras para ao expor sua revolta pessoal, onde precisa diariamente passar por situações incômodas ao ser negro e cutuca sem pudor a hipocrisia do amigo e sua esposa.

Essa peça, aliás, faz alusões a situações vividas pelo próprio Antonio Callado que escreveu diversas peças com protagonistas negros, mas tendo várias delas encenadas por atores brancos pintados de pretos, situação conhecida como blackface no teatro. Essa situação deixou o autor bastante incomodado e em "A Revolta da Cachaça" ele usa a metalinguagem para expor a situação vivida pelos negros no teatro.

Eu procuro sempre andar meio almofadinha, como se dizia antigamente. Crioulo tem que andar com ar de quem é troço na vida, de quem tem grana no banco e erva viva no bolso. Se ele não se enfeita e de repente pinta uma cana - quem é o primeiro a entrar no camburão? Até o negro se explicar...

A peça é cheia dessas referências vividas por Callado, proferidas pelo negro Ambrósio afim de incomodar brancos que são hipócritas em situações onde precisam por à prova seu preconceito.
Outra situação que Ambrósio questiona é o fato de Dadinha que era sua namorada na época em que ambos conheceram Vito, e que largou o negro para casar-se com o dramaturgo branco, ou seja, os negros têm sido preteridos em todas as esferas de suas vidas.

O prefácio de João Cezar de Castro Rocha e o posfácio de Eric Nepomuceno nos dão um panorama sobre a vida e obra de Antonio Callado. O autor sempre foi engajado em questões sociais e sempre lutou pelo direito dos negros no teatro, escrevendo várias peças abordando a questão, sendo essa parte da sua obra conhecida como teatro negro.

O livro, da década de 1980, faz-se ainda muito atual. Vimos que campanhas como #OscarsSoWhite denunciaram esse ano a falta de oferta de papéis e a consequente falta de indicações de atores não brancos em Hollywood.
No Brasil a situação também é semelhante. Como denuncia o ator da peça os negros ainda são limitados a papéis subalternos e secundários. A questão da representatividade tem vindo a tona com grande força e livros como esse nos prova que, infelizmente, não é recente o descaso que a questão é tratada por um grupo de pessoas.

11.4.16

Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos

Festa no Covil, escrito por Juan Pablo Villalobos

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 96
ISBN: 8535920269
Tradução: Andreai Moroni

Em 'Festa no covil', a vida íntima de um poderoso chefe do narcotráfico - Yolcault, ou 'El Rey' - é narrada pelo filho. Garoto de idade indefinida, curioso e inteligente, o pequeno herói, que vive trancado num 'palácio' sem saber a verdade sobre o pai, reconta sem filtros morais o que presencia ou conhece pela boca dos empregados ou pela televisão. Seu passatempo é investigar secretamente os mistérios que entrevê, colecionar chapéus e palavras difíceis e pesquisar sobre samurais, reis da França e animais em extinção, sempre com o auxílio de seu preceptor - um escritor fracassado egresso da esquerda. Esse pequeno príncipe, tão mimado quanto privado de infância, tem um desejo obsessivo - completar seu minizoológico particular com o raríssimo hipopótamo anão da Libéria. Reveses nos negócios paternos e a conveniência de o grupo abandonar o México por um tempo acabam tornando realidade o safári para capturar o tal hipopótamo em risco de extinção.

O título e a capa laranja brilhante fazem parecer livro de criança. O que se esperar de um livro que tem um título tão esquisito quanto Festa no Covil com caveiras desenhadas na capa? Aquelas comédias pouco engraçadas cheias de vampiros? Não. Espere um livro fantástico!

Festa no Covil é geralmente classificado como narcoliteratura, ou seja, uma literatura ligada ao retrato de situações e contextos do narcotráfico, nesse caso, do narcotráfico mexicano. Logo, a aparência de livro de criança já cai por terra, afinal é impossível misturar narcotráfico e criança. Errado! O narrador de Festa no Covil é uma criança, um menino que é filho de um grande e importante traficante mexicano. Entretanto, crianças narrando situações sérias não é novidade para ninguém, visto o mundialmente amado O menino do pijama listrado com a criança e sua inocência no meio da brutalidade do nazismo. Esse menino mexicano não tem nada do menino europeu de O menino do pijama listrado. Ele é sério, extremamente inteligente, sabem que as pessoas entram dentro da sua casa e não saem mais, que o pai cala as pessoas que não o respeitam, não chora pela mãe porque isso é coisa de maricas, ele tem uma lista fixa de palavras para fazer um julgamento de qualquer coisa, coleciona chapéus, quer ser um samurai, admira os franceses por eles cortarem a cabeça dos reis e tem em casa um próprio zoológico com animais ferozes que comem os restos daqueles que o pai cala. Ele não trata o pai por "pai", mas pelo seu nome, tem a cabeça raspada como o pai, repete os palavrões e o julgamentos que o pai faz dos outros. Nas primeiras linhas o livro quebra com o estereótipo da criança inocente e pura que temos calcado no imaginário coletivo, pois esse menino fala como um adulto, completamente naturalizado e sem nenhum estranhamento do contexto violento em que vive.

Felizmente, não se trata aqui também de um livro moralista. Não tem uma lição de moral de como o narcotráfico é ruim e seus envolvidos são culpados e violentos a ponto de corromper uma pobre criança inocente. O pai do menino, apesar de rigidez e dos duros padrões que mantém com o menino, é o que se chamaria de um pai atencioso, que faz e dá tudo o que menino precisa e quer. Quando o menino decide não falar mais com o pai, este se angustia com o distanciamento do filho e de não poder mais dar o que ele precisa. Sua atenção e preocupações com o filho são tão intensas que ele vai até Libéria buscar o que o menino mais quer: um hipopótamo anão da Libéria.

Desta maneira, a criança não é a criança senso comum, assim como o narcotráfico não tem o julgamento do senso comum. Essa desconstrução fica mais complexa, pois mesmo a postura do menino e seu modo de se expressar lembrar o de um adulto, os desejos impossíveis como o hipopótamo anão, a mania de repetir palavras, o desejo de ser um samurai, o hábito de colecionar chapéus e de achar que só pode fazer alguma coisa se estiver usando um chapéu adequado são comportamentos típicos de criança, mas ficam nuançadas por esse contexto bizarro de ser um filho de um traficante milionário.

O menino vive fechado numa mansão que ele chama de "palácio", seu maior contato com o mundo fora da casa se faz pela tevê, meio pelo qual ele escuta muitas vezes o nome do pai. Ele não convive com nenhuma outra criança e sua sociabilização se dá com os empregados da casa, os seguranças do pai e com seu preceptor. Esse é um personagem muito importante, um escritor fracassado com ideias de esquerda, que se indigna com aquele mundo de poder e violência, mas que também se indigna com qualquer forma de injustiça e vê que a violência não é só o narcotráfico que transgride a lei, mas também a exploração capitalista que a lei encoberta.

O livro todo trabalha nessa lógica de desconstrução, desfazendo julgamentos de senso comum e maniqueístas. O que Juan Pablo Villalobos traz, por meio dessa mistura de conversa de gente grande e história de criança, é uma perspectiva mais dialética sobre os problemas políticos e sociais ligados à identidade do México e da América Latina.

8.4.16

Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus


Quarto de Despejo, escrito por Carolina Maria de Jesus

Editora: Ática
Páginas: 184
ISBN: 8508043635
Quarto de Despejo é um diario. Escrito dia a dia. Caderno e mais caderno cheios pela letra de uma mulher. Recheados do cotidiano autêntico, vivido. A luta pela sobrevivência como ela é, em todos os "quartos de despejo" do mundo, à margem das grandes cidades. Quarto de Despejo é mais que isso. É reportagem, é romance, é história de um grupo humano em certa época do mundo. É a voz do povo, patética, lírica, sentimental, forte e inesquecível. 
NOTA DOS EDITORES
Esta edição respeita fielmente a linguagem da autora que muitas vezes contraria a gramática, mas que por isso mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo.

Quarto de Despejo é um soco no estômago. Reunidos os escritos em forma de diário de Carolina Maria de Jesus, pobre, negra, mãe e favelada temos um retrato social sob a ótica do oprimido.
O cenário é a extinta favela do Canindé, localizada às margens do rio Tietê, na década de 1960.

Descoberta pelo jornalista Audálio Dantas em uma visita à favela, que ficou encantado com o senso crítico da autora, Carolina teve a o oportunidade de lançar seus livros enquanto enfrentava o árduo cotidiano de catadora de papel.

...Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: Faz de conta que eu estou sonhando.
A criticidade e lucidez de Carolina mostram a sua consciência e indignação em estar submetida dia a dia à mais miserável das condições, sua batalha diária para conseguir alguma comida para seus filhos. Pelos seus relatos muitos dos favelados não tinham essa indignação, coisa que pouco contribuía para a melhora de suas vidas. 

Não tinha gordura. Puis a carne no fogo com uns tomates que catei lá na Fábrica Peixe. Puis o café e a batata. E agua. Assim que ferveu eu puis o macarrão que os meninos cataram no lixo. Os favelados aos poucos estão convencendo-se que para viver precisam imitar os corvos.

Carolina Maria de Jesus
[Fonte]

Não é fácil vencer as poucas páginas desse livro. Partilhar da angústia, do desespero, em alguns momentos da falta de esperança de Carolina, tem um peso e um desconforto muito fácil. Encarar essa realidade tão brutal, ainda tão presente no cotidiano das favelas brasileiras, é angustiante e desconfortável.

Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da America do Sul está enferma. Com as suas ulceras. As favelas.

Apesar dos momentos de descrença Carolina ainda tem esperança na melhoria de sua condição. Mãe solteira, seus três filhos foram os responsáveis pela ansiedade em mudar de vida. A literatura também foi de fundamental importância para a sua vida. O repouso e a fantasia da ficção conseguiram afastá-la de sua cruel realidade e impulsioná-la a ser quem desejava.
Quando cheguei em casa era 22,30. Liguei o radio. Tomei banho. Esquentei comida. Li um pouco. Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.

É difícil escrever sobre esse livro sem novamente me emocionar. Certamente foi um divisor de águas em minha vida e me abriu os olhos para muitas coisas. É um livro de fundamental importância na literatura brasileira e um marco na literatura feminina no país.
Apesar dos seus erros gramaticais de sua obra Carolina é uma das maiores escritoras brasileiras, jamais se resignou às condição que sua vida lhe impunha, saber ler foi uma das maiores conquistas e nos deixou um grande retrato social sob uma perspectiva até então inédita.

Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.

26.3.16

Mar de Pedras, de Daniel Barros

Mar de Pedras, de Daniel Barros
Editora: Thesaurus
Páginas: 253
ISBN: 9788540903654
Onde encontrar o livro: Amazon - Editora - Zamboni Books
No terceiro romance de Daniel Barros, Mar de pedras, é narrada a história de Henry Melo, fotógrafo bastante competente que vive numa vila do interior de Alagoas, e é muito querido pelos habitantes. Como de costume, Barros intercala a narrativa com a venturas amorosas de Henry, e elas acabam assumindo um papel preponderante no enredo, visto sob vários ângulos.
A exemplo de Alcides, ele se apaixona por uma mulher bem jovem, a modelo Francesca, o que lhe confere uma visão nova de sua existência quando a moça engravida. Como personagem em si, Henry Melo é muito mais desenvolvido e detalhado que André e até mesmo Alcides. Mar de pedras é uma prova de que a ficção de Daniel Barros está em contínuo progresso e desperta interesse maior a cada página.
Fernando Py 

Mar de Pedras narra a história de Henry Melo, um fotógrafo muito cotado que viaja o Brasil a trabalho. Ele mora em Alagoas, numa vila de pescadores, de frente para o mar. É muito amigo de Antônio, um pescador que é uma espécie de pai-avô para ele, e de Carolina, a neta dele. Ambos cuidam de Henry, sobretudo Carolina, responsável por manter a casa e a rotina do fotógrafo em dia. Os dois vivem negando algum sentimento amoroso entre eles, tendo um ao outro como irmão, e esta é uma situação delicada que irá se problematizar com o passar da narrativa.

Neste vilarejo também vive o padre Francisco, outro grande amigo e conselheiro de Henry. É ele que traz à tona um dos principais temas do livro: a política. Pois o prefeito é alguém muito questionável, visivelmente corrupto e cheio de descaso para com a população; para começar, nem mesmo mora no local, vindo de Maceió quase todo final de semana para, ao que parece, aproveitar a sua casa de veraneio, que fica próxima da de Henry. Diante dessa situação política, e depois de alguns agravantes (como a destruição de parte da vila por uma tempestade), Henry, o padre e os pescadores percebem o quão desfalcados estão por conta da gestão atual - e a ideia de mudar isso começa a surgir, inclusive com a vontade (parece que quase unânime) de  que Henry assuma o cargo de prefeito.

Mas como o próprio fotógrafo diz quando o assunto surge, ele viaja bastante a trabalho. Numa dessas viagens, conhece Francesca, uma modelo muito mais nova que ele, e diferente do que esperava. Ela quebra a sua expectativa, mas de início nada lhe desperta: ele é o típico mulherengo. Admite o quão bonita ela é, mas nenhum sentimento mais profundo aparece então. É apenas num segundo encontro, e com a aprovação de Carolina, que Henry começa a se apaixonar por ela, e os dois logo começam a namorar.

E, sendo mulherengo como é, Henry não deixa sua principal característica de lado. Nesse meio-tempo a mulher do prefeito, Bruna, aproxima-se dele e, sendo os dois insaciáveis, começam a ter um caso. Henry ainda possui um motivo para acrescentar à sua lista: ele quer se vingar do descaso do prefeito.

É sobretudo neste núcleo que o teor erótico se insere. Um dos gêneros do livro é este, pois há várias cenas explícitas de sexo e, inclusive, uma mentalidade bastante sensual de Henry (ele parece ser fissurado por mamilos) que está presente do início ao fim. Tenho dois grandes poréns com esse livro, e um deles se relaciona a isso, pois a diagramação (capa, sinopse, orelhas) não deixam claro que o leitor irá encontrar este tipo de literatura, pelo contrário: diversos amigos que me viram lendo o livro pensaram se tratar de uma literatura de fantasia justamente pela capa induzir o leitor a isso. Já para mencionar o outro problema que tive com o livro, falo aqui dos muitos erros de digitação e de gramática. Um ou outro todo mundo releva, mas o livro é repleto deles, praticamente a cada página, e ele foi revisado.

Um dos pontos positivos que posso ressaltar é a construção dos personagens: eles são sempre verossímeis. Concordando ou não com o final de alguns personagens, como o da Carolina, percebo que a nossa cultura foi muito bem representada no livro, inclusive a nordestina. O machismo e a corrupção está presente durante toda a história e, no principalmente no primeiro caso, até mesmo relacionado ao protagonista, que diferentemente de ser representado sempre com grandiosas qualidades, sua parte como mulherengo serve para nos transmitir a ideia contrária ao maniqueísmo irritante presente em muitas obras. Henry é mulherengo sempre, faz coisas repreensíveis, o que acrescenta para o seu psicológico e para uma construção mais real de alguém, sobretudo de um homem marcado por uma cultura patriarcal perceptível até mesmo nos menores detalhes. 

Se você gosta de literatura erótica que não permeie histórias "água-com-açúcar" apenas, este livro pode ser para você. A política fortalece o enredo e a representação da cultura alagoana é um dos pontos fortes do livro.

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18.3.16

Cenas Londrinas, de Virginia Woolf

Cenas Londrinas, escrito por Virginia Woolf


Editora: José Olympio
Páginas: 84
ISBN: 8503009080
Tradução: Myriam Campelo
'Cenas londrinas' compila seis crônicas - uma delas descoberta somente em 2005, na biblioteca da Universidade de Sussex, e nunca antes publicada em livro - nas quais Virginia Woolf confirma sua paixão por Londres. Escritos entre 1931 e 1932, são textos que, para Ivo Barroso, que assina a apresentação, conseguem 'dar ao leitor a visão de um microcosmo representativo de toda uma nacionalidade'. A obra integra a coleção Sabor Literário - cujo ícone é um cerejinha, o toque especial -que apresenta aos leitores textos inéditos ou pouco conhecidos de grandes escritores. A londrina Virginia Woolf adorava andar pelas ruas de sua cidade, observando anonimamente e admirando o 'encanto da moderna Londres' através dos olhos de grandes homens e cidadãos comuns.

Virginia Woolf é normalmente lembrada como romancista, contudo ela praticara diversos outros gêneros textuais como resenhas, ensaios, cartas, etc. Cenas Londrinas é uma obra que se coloca de imediato como problema, pois não pertence a nenhum desses gêneros fixos. Não são muito bem contos, não são muito bem crônicas, não são descrições secas, não são novelas. O mais perto possível de classificação que podemos chegar é que são realmente cenas.

Trata-se, então, de seis breves cenas que se organizam numa unidade coerente. A primeira chama-se "As docas de Londres": um narrador, que não se faz preciso na sua identidade, vai guiando o olhar do leitor ao longo do Tâmisa, observa os navios que chegam de outras partes do mundo, a mercadoria que eles contém, desvia do lixo que flutua sobre o rio, adentra as vilas operárias, circunda os pináculos das fábricas. Na primeira linha, o narrador sugere que um poeta observa o rio e o horizonte, porém este não se configura como personagem ou presença, ele se torna a forma de observar essa paisagem. Pois, o narrador aqui não tem a secura latente e descritiva de um narrador do século XIX, ele é impreciso e subjetivo nas suas descrições e escolhas de caminhos, tentando configurar uma outra forma de descrever e narrar uma paisagem. Isso converge, por sua vez, que também estamos falando de uma outra paisagem. A Londres de Virginia Woolf é bem diferente das inspiradoras paisagens rurais ou das refinadas paisagens urbanas da belle époque que havia no século XVIII e XIX. Essa Londres é suja, desorganizada onde sobressai o trabalho, o comércio, a mecanização das rotinas e as disputas de classe.

As margens do rio estão crivadas de encardidos armazéns de aparência decrépita, amontoados numa terra que se tornou pantanosa, feita de lama escorregadia. O mesmo ar de decrepitude e decadência esmaga todos. Se uma janela é quebrada, assim continua. Um incêndio que recentemente tisnou um deles fazendo-o prorromper em bolhas não parece deixá-lo mais miserável e infeliz que seus vizinhos. Por trás dos mastros e chaminés, jaz uma sinistra cidade anã de casas operárias. Há guindastes e armazéns em primeiro plano, andaimes e gasômetros enfileiram-se e margeiam uma arquitetura-esqueleto.
Após acres e acres dessa desolação, há subitamente a visão desconcertante ao se passar flutuando e ver uma casa de pedra em meio a um campo verdadeiro, com um grupo compacto de árvores verdadeiras. É possível que haja terra, que tenha havido outrora campo e colheita sob tal desolação e desordem? (p. 21-22)

Essa melancólica, mas profunda e precisa reflexão sobre o panorama da Londres moderna continua na cena seguinte "Maré da Oxford Street". Nossos olhos não estão mais ao lado do Tâmisa pleiteando uma visão ampla, agora a extensão da visão é a extensão de Oxford Street.

Lá nas docas vê-se as coisas em sua frieza, seu volume, sua enormidade. Aqui, em Oxford Street, elas se mostram refinadas e transformadas.(p.31)

Assim, já é possível observar certa coerência entre os textos, como são propositalmente diálogos entre si. Nesse segundo, somos colocados diante dos comércios, dos produtos em promoção, do consumo, dos pacotes de compras que se esbarram, das multidões de Oxford Street. O narrador, novamente misterioso, diz que mesmo que ainda sobrem ali palácios da época de Elizabeth I, esse são "moradias frágeis", "um vigoroso cutucão com a ponta do guarda-chuva pode muito bem infligir um dano irreparável ". Logo, tudo o que culturalmente ainda resta dos outros tempos, de um antiga ordem do mundo, é frágil diante da perversa cidade moderna.

Com o mesmo tom de imprecisão quanto a maneira narrativa, seguem-se as demais cenas. A terceira aborda sobre as "Casas de grandes homens", em especial de Carlyle e Keats. Como a casa diz mais sobre esses homens do que muitas biografias que podemos ler, como a condição de classe social que se vê na sua casa determina o que ele foi e o que ele escreveu.

O quarto texto, "Abadias e catedrais", propõe um contraste entre a catedral de Saint-Paul e a abadia de Westminster:

É lugar-comum, mas não se pode deixar de repetir que a catedral de St. Paul domina Londres. Ela incha como uma grandiosa bolha cinzenta à distância; enorme e ameaçadora, paira sobre nós quando nos aproximamos. Então, subitamente, desaparece. E atrás de St. Paul, sob St. Paul, em torno de St. Paul, de onde não podemos ver a catedral, como Londres encolheu! (p.51)

Nenhum contraste maior poderia haver entre a catedral de St. Paul e a abadia de Westminster. Longe de ser espaçosa e serena, a abadia é estreita e pontiaguda, gasta, inquieta e agitada. (p. 55)

Westminster vai mais longe e é o lugar escolhido para a cena seguinte, "Esta é a câmera dos comuns", em que o narrador coloca em questão as relações de poder e a ideia de espaço "dos homens".



O último texto, "Retrato de uma londrina", foi descoberto em 2005 e adicionado a edição inglesa de The London Scene já existente. A edição brasileira é posterior a inserção desse texto. Fato que é muito importante, pois este dá uma outra configuração ao conjunto da obra. Se até então tínhamos paisagens, agora, como o próprio título já diz, temos um retrato. Mrs. Crowe é o mais próximo de uma personagem que esse livro traz. Entretanto, assim como na pintura, o texto se concentra em mostrá-la nas suas ações rotineiras, na sua tipicidade londrina, nas suas tradições, no seu comportamento que pertence a uma outra época, a uma outra lógica.

A verdade é que não desejava intimidade, desejava conversa (...) A conversa que mrs. Crowe gostava e que a inspirava era uma versão glorificada do mexerico da cidade. A cidade era Londres, e o mexerico era sobre a vida de Londres (p.73)

Mrs. Crowe pertence a uma época e a uma lógica em que os retratos faziam sentido. A Londres de Mrs. Crowe não existe mais. O retrato não se encaixa nas paisagens anteriormente descritas. Mrs. Crowe seria a "típica londrina" de uma época que não é mais a da cidade observada nas docas.

Logo, o livro começa no mais largo, na vista, no panorama, e vai se estreitando. Primeiro toda Londres a partir do rio; depois uma grande rua como Oxford Street, mas um única rua; a casa de artista, espaços privados que se tornaram públicos e parte da cultura coletiva; os espaços religiosos da catedral e da abadia; o espaço de poder da Câmara dos Comuns e por fim, o espaço privado, o espaço individual mesmo que repleto dos mexericos da vida pública. Assim, o livro traz os espaços da cidade, mas não de uma maneira puramente descritiva e decorativa. O que se coloca em questão é como se configura a cidade moderna e como as instituições e as classes sociais se organizam nesse espaço urbano. Atrás do estranhamento desse narrador indefinido e pela ausência de personagem está a particularidade de Virginia Woolf

11.3.16

O Menino Grapiúna, Jorge Amado

O Menino Grapiúna, escrito por Jorge Amado

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 88
ISBN: 9788535916607

No sul da Bahia, o menino Jorge Amado testemunhou o nascimento de cidades, as guerras pela posse da terra, o florescimento de uma cultura e de uma mitologia. Nesse mundo rude conturbado, de muita vitalidade e quase sem lei, forjaram-se a sensibilidade e os valores do futuro escritor.
Esse processo de formação, entre jagunços, coronéis, malandros e prostitutas que serviriam de modelo a muitas de suas criações literárias, o autor evoca aqui com as cores vivas e o humor caloroso a que estão habituados seus leitores.
São personagens inesquecíveis, como o aventureiro tio Álvaro Amado, que o levava às mesas de jogatina e aos bordéis; o jagunço José Nique e o padre Cabral, que apresentou ao pequeno Jorge as Viagens de Gulliver e os livros de Charles Dickens.
Jorge Amado também adquiriu nesses primeiros anos seu inquebrantável amor pela liberdade, sobretudo quando se viu privado dela, ao ser enviado a um internato jesuíta.
Não por acaso, estas breves memórias se encerram com a fuga espetacular do internato: "Fugi no início do terceiro ano, atravessei o sertão da Bahia no rumo de Sergipe, iniciando minhas universidades". O aprendizado elementar da vida já estava completo, e é ele que Jorge resgata neste livro encantador, publicado originalmente em 1981.

Memórias romanceadas nos revelam, sob o olhar do próprio autor, a infância de Jorge Amado.
O livro curtíssimo, de linguagem simples, narrado em terceira pessoa - Jorge Amado refere a si mesmo em diversas partes como "o menino" - e em primeira pessoa, nos releva onde nasceu, viveu, suas aventuras e dificuldades desde seu nascimento à sua pré-adolescência.

Seu pai, um dos desbravadores entre tantos, mudou-se de Sergipe para a região que seria posteriormente conhecida como Zona do Cacau, vendo nascer os povoados e crescendo em meio à vadiagem, o autor nos conta alguns personagens que serviram de inspiração para os seus romances.

Que outra coisa tenho sido senão um romancista de putas e vagabundos? Se alguma beleza existe no que escrevi, provém desses despossuídos, dessas mulheres marcadas com ferro de brasa, os que estão na fímbria da morte, no último escalão do abandono. Na literatura e na vida, sinto-me cada vez mais distante dos líderes e dos heróis, mais perto daqueles que todos os regimes e todas as sociedades desprezam, repelem e condenam.

A dura realidade de um local ainda em formação no início do século XX foi essencial para a formação do menino e teve reflexos em toda a sua obra. Epidemias de varíola, a luta do cangaço com a polícia, a falta de emprego, o banditismo, a prostituição e a miséria das pessoas estiveram próximas às realidade de Jorge Amado em sua infância.

Situações cômicas, recheadas de regionalismos e crenças também fizeram parte da vida do autor. Como a vez em que seu tio Álvaro, uma das figuras que mais o inspirou, trouxe de Sergipe água milagreira de Nossa Senhora do Ó e vendeu ao povoado para curar as mais diversas doenças.

Ao final da narrativa, Jorge Amado nos conta como o internato, do qual ele fugiu, foi essencial para o seu descobrimento e irremediável paixão pela literatura e os escritores que primeiro lhe trouxeram o amor pelos livros.

No posfácio da edição, Moacyr Scliar descreve Jorge Amado como a Bahia e o Brasil. O leitor que já teve a oportunidade de ler alguma obra do baiano, com certeza concordará com a afirmação de Scliar; Jorge Amado não foi apenas um escritor, ele foi a representação popular do século XX, a memória dos vagabundos, das prostitutas e dos meninos de rua estão eternizadas em sua obra e esse livro é uma deliciosa imersão na formação de um grande escritor.

 
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